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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Duas Doses



É cada vez mais difícil encontrar alguém disposto a ouvir. Escutar é uma entrega. É abrir mão dos próprios ruídos para dar trela ao que vem de fora. Tereza, uma colega de trabalho, me deu uma carona dia desses. Ela é muito simpática, dessas pessoas que têm brilho no olho emoldurado por umas lindas pestanas. Foi quando começou uma sucessão de interrupções de minha parte toda vez que ela começava a falar algo comigo. Eu simplesmente não conseguia me controlar. Toda vez que ela introduzia um assunto, lá estava eu para interromper-lhe no meio, fazendo alguma pergunta qualquer. Ela parava o que estava falando, me respondia atentamente, sem demonstrar impaciência.
Acho que estamos falando demais. E temos dado poucos ouvidos para o que dizemos. Se prestássemos mais atenção, pensaríamos duas vezes antes de colocar tantas gorduras nessa sopa feita de palavras e conversas. Tem tanta coisa sem nutrição e engordativa, como fofocas, por exemplo.
Ao contrário do que se imagina, quando se decide ouvir, você não se perde de si mesmo. Pelo contrário, estabelecendo uma conexão de respeito e escuta com o outro, é possível perceber o ar entrando pelo nariz e se decantando nos pulmões para imediatamente voltar pelo nariz novamente. E é assim, sentindo o ar entrando e saindo que percebemos que estamos vivos, o sangue pulsando não só no coração, mas também através dos ouvidos. É a escuta que nos conecta com o mundo, é a escuta que nos guia pelos caminhos internos.
Perceberam que o “surdo” tem sempre muito a dizer? Só que infelizmente é sempre sobre si mesmo; quando dá uma trégua para lhe ouvir é para dizer que já sabia ou já viveu aquilo melhor que você; que já tinha ouvido falar; que a mãe já sabia; que a vizinha já conhecia; que o filho faz melhor. Seu discurso esbarra num paredão de egocentrismo e ignorância. Tem também aquele tipo de que além de nunca ter tempo para lhe ouvir, só sabe falar de problemas. O mundo é ruim para os outros, mas para essa pessoa tudo é sempre pior, péssimo, tenebroso. A fala muitas vezes é um escudo. Falando muito, temos a ilusão de que nos protegemos da fala e dos pensamentos dos outros. Ficar quieto e calado é sinal de fraqueza ou isolamento.
Conheço um monte de gente que é calada e também por isso são preciosidades. Sempre têm algo muito bom a dizer e, sobretudo, observam também com os ouvidos. Desculpe Tereza! Na próxima, vou pedir ao bom senso duas doses de escuta.

Publicado originalmente ontem no Novo Jornal

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