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terça-feira, 6 de outubro de 2015

O jardineiro feliz



Desconheço um jardineiro que não seja gente fina. Eu acho que o silêncio das plantas, o colorido das flores e o contato com a terra fazem dessas pessoas mensageiros da paz e tranquilidade. Afinal, lidar com seres que simplesmente fincados à terra são capazes de nascer, crescer, se reproduzir e ainda assim não fazer mal a ninguém, só pode ser um grande ensinamento de vida. Tem horas que eu penso que a vida vegetal é bem mais sábia que qualquer outro tipo de vida nesse planeta.

Conheci há muitos anos um jardineiro que visitou o Diário de Natal - onde eu trabalhei por dez anos - para falar de alguma coisa que ele iria fazer, ou se não me falha a memória, para registrar as coisas que havia feito ao longo de seus mais de 30 anos de jardinagem: os cantos que ele havia criado e cuidado ao longo da vida nas casas de pessoas com grana, mas falta de tempo para cuidar do próprio jardim. Apesar da falta de instrução formal, seu José (vamos chamá-lo assim, porque os Josés tendem a ser pessoas de florir nossas vidas) era um homem sábio, de pele escura e curtida do sol, mãos rijas, fala mansa. Lá pelas tantas, após ver os álbuns de fotografias que ele trouxera para me mostrar os jardins cuidadosamente desenhados por suas mãos, e de entender que ele estava ali na redação para que ficasse registrado seu trabalho, já que ele estava com planos de se despedir da prosa diária com areias, mangueiras e borboletas, e partir para uma merecida aposentadoria, resolvi lhe fazer uma pergunta, daquelas que de tão simples e diretas, tornam-se absolutamente difíceis de responder: “O senhor é feliz?”. E ele me disse uma das orações mais marcantes de minha trajetória como repórter: "Minha filha, nós só palmeia a ‘pranta’ que Deus quer". Desse jeito. E ficou me olhando para ter certeza de que eu iria pensar sobre a resposta.

E eu, em meio às minhas pró-prias crenças e descrenças, dentro do meu universo particular, penso sempre nessa frase como uma espécie de sentença da vida despida de fórmulas prontas, indiferente aos desejos inatingíveis de felicidade que nutrimos; vida inexoravelmente exposta às rosas, mas também aos espinhos e ervas-daninhas que surgem no caminho. Não temos escapatória. E, às vezes, o desejo de poder escolher fica preso às grades do acaso. É viver ou viver. Dar ração às dúvidas, se permitir ao erro, ao grito e ao choro, deixar os cabelos despenteados; em alguns momentos jogar o olhar aos céus e morrer de inveja do caminho migratório dos pássaros; abraçar os raros amigos como se fossem árvores, uma craibeira de cem anos, ouvinte e parceira de nossas confidências. Felicidade é como chuva, caro leitor, só é boa enquanto conseguimos suportá-la sem que sintamos frio ou saudades do sol.

Publicado hoje no Novo Jornal

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