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terça-feira, 17 de novembro de 2015

O sorriso morto de Deus

Photo by:Carmen Moreno Photography 

O mundo anda mesmo um lugar muito perigoso para se viver. Pensei nisso e pensei se não havia uma possibilidade de me mudar para bem longe, tipo Plutão. Mas aí lembrei que Plutão não é mais planeta. Quisera fosse melhor viver num mundo onde não é mais mundo ou nunca foi como esse mundo. Para, quem sabe, se ter a chance de começar tudo de novo após os sete dias da criação.

Quisera o mundo tivesse mais amor. Quisera o mundo tivesse amor nas ações. Mais amor nos gestos, menos amor no silêncio da solidão do quarto, quando sonhamos com um amor quase divino que nunca chega. Mais amor no trânsito, tanto quanto se tem amor nas felicitações de aniversário nas redes sociais; mais amor na Oropa, França e Bahia, aquele mesmo que dedicamos aos nossos jardins, ou ao menos o amor que minha vizinha, dona Elizabeth, dedica ao seu jardim e que me ocorre agora como um grande exemplo.

Aliás, amor de jardim poderia ser um tipo de amor diluído em todos os outros. É um dos mais sublimes que há. A gente planta, replanta, rega, carrega barro vermelho a umas três quadras da nossa casa, para depois misturar à terra tímida do quintal, compra húmus, conversa com elas, bota na sombra, descarta as visitas indesejadas (eu, confesso, que sinto dó de arrancar as ervas-daninhas e depois um certo prazer) e, ao simples sinal de uma cor mais reluzente de uma florzinha, bate aquela sensação de que valeu à pena. Mais amor com o mesmo gesto firme que empenhamos ao beber um copo de água para matar a sede. Amor como sinônimo de tolerância ao vizinho do andar de cima que trota ao invés de andar. Gente, eu não quero falar da obviedade que me motiva a falar sobre amor nesse texto de hoje. Já tem muita gente falando sobre os acontecimentos trágicos na França. Alguns até tiram proveito da situação para se promover. 

Somos um povo sem tradição de luto. Um povo que vive em festas de carnaval e de futebol. Um povo que se preocupa mais com a vida amorosa de Joelma que com centenas de pessoas que têm sua vida terminada, seja em Mariana, seja em Paris. Sem o luto, sem o respeito à morte trágica, nos perdemos em discussões estéreis. Morte é  morte. 

É tempo de dor e de reflexão. Eu penso que é urgente torcermos menos pelas conquistas individuais e vibrarmos mais pelas conquistas sociais e humanas. Não somos somente irmãos. Somos iguais. Somos um só. Parte de todos nós morre na lama; morre no sangue; parte morre nos linchamentos contra inocentes, nas balas contra policiais, em Cidade Nova e nas represálias contra os bandidos, em Felipe Camarão. Parte de nós se distancia de Deus, que nesse momento não consegue sorrir.

Publicado hoje no Novo Jornal


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

no meu excesso de superficialidade, mergulho no profundo da Szymborska


Sob uma estrela pequenina

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.




Pod jedną gwiazdką

Przepraszam przypadek, że nazywam go koniecznością.
Przepraszam konieczność, jeśli jednak się mylę.
Niech się nie gniewa szczęście, że biorę je jak swoje.
Niech mi zapomną umarli, że ledwie tlą się w pamięci.
Przepraszam czas za mnogość przeoczonego świata na sekundę.
Przepraszam dawną miłość, że nową uważam za pierwszą.
Wybaczcie mi, daleki wojny, że noszę kwiaty do domu.
Wybaczcie, otwarte rany, że kłuję się w palec.
Przepraszam wołających z otchłani za płytę z menuetem.
Przepraszam ludzi na dworcach za sen o piątej rano.
Daruj, szczuta nadziejo, że śmieję się czasem.
Darujcie mi, pustynie, że z łyżką wody nie biegnę.
I ty, jastrzębiu, od lat ten sam, w tej samej klatce,
zapatrzony bez ruchu zawsze w ten sam punkt,
odpuść mi, nawet gdybyś był ptakiem wypchanym.
Przepraszam ścięte drzewo za cztery nogi stołowe.
Przepraszam wielkie pytania za małe odpowiedzi.
Prawdo, nie zwracaj na mnie zbyt bacznej uwagi.
Powago, okaż mi wspaniałomyślność.
Ścierp, tajemnico bytu, że nie mogę być wszędzie.
Przepraszam wszystkich, że nie mogę być każdym i każdą.
Wiem, że póki żyję, nic mnie nie usprawiedliwia,
ponieważ sama sobie stoję na przeszkodzie.
Nie miej mi za złe, mowo, że pożyczam patetycznych słów,
a potem trudu dokładam, żeby wydały się lekkie.

poema de Wisława Szymborska 

nem camões



aí a gente tem a casa desarrumada
tenta arrumar a casa com panos novos e brancos
panos velhos, encardidos, panos rotos
panos quentes
mas nada acontece
aí a gente percebe que a casa tem a cara que tinha de ter mesmo
limpa a poeira com muito cuidado, só mudando-a de um lugar para o outro
do status de poeira da estante para poeira das nuvens
você coloca cada infinito pelo de gato encontrado em tufos gigantes
com um carinho enorme dentro do cesto
você deixa os quadros ficarem de banda nas paredes
você arruma sua vida ao lado de outras pessoas
você descobre que não quer outra vida de volta.
você se desarruma para deixar o outro entrar