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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Um novo tempo



A música do Ivan Lins cai bem nessa última crônica do ano. Ela diz assim: "Um novo tempo, apesar dos castigos". Ninguém duvida que estamos passando por situações gravíssimas mundo afora. Aqui ou acolá. Em Natal ou em Aleppo, não está fácil de compreender, nem de sorrir, ou até mesmo de sentir esperança. Mas é final de ano, deixemos ao menos acesa essa luz que aquece nossos sonhos.

Em "Cadernos do Cárcere", o filósofo Antonio Gramsci diz: "O velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer, e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros". Será que estamos vivendo a escuridão desse fim de mundo? Não recomendo a leitura desse texto aos que pensam que o capitalismo tal qual como se apresenta é bom, e que medidas como a PEC do Fim do Mundo são necessárias para o "crescimento". Não percam seu tempo.

"Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta". Não concordo e tremo inteira por dentro quando vejo ou imagino um sujeito comprar um produto por 19,99 e revendê-lo por 199,90 usando o argumento de que nesse novo preço estão embutidos "impostos", "encargos trabalhistas", etc. Esse modelo não se sustenta mais. As pessoas não são bobas. É urgente que o pertencimento do mundo precisa ser mais igualitário.

"No novo tempo, apesar dos castigos/ De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga". O "produtivismo" desse sistema predatório, ligado à poluição global, ao trabalho escravo, ao aumento dos monopólios, às benesses para banqueiros e grandes empresários não representam mais o monstro forte e imbatível. Pelo contrário, o monstro está cansado, fraco, o neoliberalismo se esgota. O mundo não é regido somente por sistemas econômicos. Não é somente o capitalismo que está agonizando. "De todos os pecados, de todos enganos/ estamos marcados/ Pra sobreviver". A mesma sociedade que se engana é uma humanidade que sofre.

A tentativa da direita e da extrema direita de impor um pensamento hegemônico cultural, social e econômico não é de agora. Vivemos isso há pelo menos uns 40 anos. “No novo tempo, apesar dos castigos/ Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas”. Mas a gente resiste. Nossas revoluções internas não sucumbem tão fácil às fantasias do mundo da propaganda. Os soldados voltam mutilados das guerras. E as mulheres seguem enfrentando suas correntes, em busca de um pensamento livre, de um ventre livre e por igualdade de gênero.

São tempos de ações e de conjugações verbais como: resistir, acreditar, insistir, rever, transformar. O predatório capitalismo definha. É o fim do mundo para essa barbárie. Em tempos escuros, o que mais nos vêm à tona é a certeza e a necessidade de luz. Mulheres, homens, gays, negros, índios, crianças, jovens, idosos, estudantes, trabalhadores, pessoas. Somos muito mais fortes do que eles querem que acreditemos. Eles têm poder, nós temos o tempo!

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

já vai tarde, 2016!



Eu sei que a gente ainda não acabou o ano, mas eu preciso fazer minha retrospectiva pessoal. E dizer que 2016 já vai mais do que tarde. Aliás, 2016 começou a dar com os burros n´água lá pelos idos de abril.  De lá para cá foi só ladeira abaixo.

E que já não é mais tão pessoal assim, uma vez que eu estou aqui dividindo com vocês, eu não vou falar somente de coisas pessoais. Aliás, eu acredito que tudo é pessoal. Não dá para dissociar uma opinião ou atitude do nosso corpo e mente e dizer "não é pessoal" e daí se transformar numa gaveta ou numa berinjela e deixar de ser uma pessoa toda vez que falar o que se pensa. Então, evitarei intimidades do tipo dizer que tenho intolerância a lactose, e o que acontece quando eu como comidas impróprias para um intolerante à lactose.

E por que que eu acho que 2016 já vai tarde? Seguem alguns singelos exemplos: Donald Trump venceu as eleições nos Estados Unidos; e acredito que nessa muita gente vai concordar comigo. Pessoas caçando Pokémon pelas ruas. Sem comentários. E, esse não é um mal de 2016, grupos de WhatsApp. Afora os intermináveis "bom dia" que a gente tem que ler, agora tem também as correntes. Eu já quebrei tantas delas me sinto uma assessora direta da Princesa Isabel.

Coisas nada a ver do ano: o excesso de homem de barba grande e de coque tipo samurai, todos pensando que são o cara da Trivago (e não são); mulheres vestindo caudas de sereia (como assim? Uma síndrome tardia de Ariel?) e a Janaína Paschoal babando a “hashtag-alôca-simbólica-mãe-do-golpe-pelo-bem-das-criancinhas”. Momento bem feito do ano: o salafrário do “Malafa” revoltadinho com a condução coercitiva.

Frases do ano: “primeiramente Fora Temer”, “o choro é livre”, “primeiro a gente tira a Dilma, depois tira o resto”, “Vai morar em Cuba”. Momento mais musical do ano, o Bob Dylan ganhar o Nobel de Literatura. Momento mais poético do ano, o Nobel de Literatura ser para um compositor musical. Momento mais a cara do Temer do ano, o ministro da Educação do Governo golpista receber projeto do Alexandre Frota para melhorar a gestão.

Momento do ano em que percebi que os capitalistas empresários estão lucrando (e muito) com a crise: o quilo do feijão ultrapassar os oitos reais nas prateleiras dos supermercados.

Medos em 2016 que permanecerão em 2017: desemprego, crise, recessão, o Congresso Nacional, a rede Globo, os neo-pentecostais fazendo e aprovando leis, a bancada da bala e dos bois aprovando o uso de metralhadoras nas vaquejadas. Frase fofa do ano: "Tchau, querida”. Arrependimento do ano: muito pessoal, não vou falar. Mas acho realmente uma pena que o meteoro não tenha passado em 2016.


Publicado no Novo Jornal, na versão impressa; e no portal Substantivo Plural

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Pouca fé






Falo com um cara por telefone e lhe envio um e-mail e, do nada, ele surge como uma sugestão de amizade na minha página no Facebook. Um amigo comenta que viveu algo parecido. Entro numa página e vejo um anúncio de uma outra coisa que pesquisei dias, meses atrás. 

Claro que o leitor sabe que em se tratando de internet, isso não é coincidência e sim o poder dos algorítimos. As palavras que digitamos, as pessoas que visitamos ou curtimos, os e-mails que enviamos, e até mesmo nossos desejos são mapeados e codificados através desses algorítimos. Somos direcionados àqueles que escrevem, sentem e pensam parecido com a gente. Os algorítimos nos colocam em bolhas.

Quer um exemplo? Quando eu acordei no dia 9 de novembro e fui avisada de que Trump seria o novo presidente dos EUA, um estarrecimento se apossou de mim. Achava que era improvável isso, porque TODOS os textos e notícias e pessoas que habitavam a telinha do meu computador, se riam daquele ridículo.

Sempre fui declaradamente contrária ao golpe do PMDB "et caterva" e da retirada nefasta e criminosa da presidenta eleita. Embora eu visse uma massificação do pensamento contrário ao meu, me custava acreditar, já que, de novo, a bolha me mostrava pessoas contrárias ao golpe. Num dia que resolvi sair um pouco da bolha e escarafunchei algumas páginas pessoais e sites, as barbaridades que li e assisti me deram um choque de realidade. A quantidade de gente que odeia, que é fascista, que quer a volta de militares e donas de um analfabetismo político de dar dó, é muito grande.

Mas não é só no mundo virtual que isso existe não. Quem dera. Por esses dias meu companheiro sofreu um acidente de carro envolvendo três veículos. Um saldo de um ferimento nas costas, um braço provisoriamente enfaixado e um carro destruído. Dá para superar os danos materiais? Sempre dá. Mas, o ocorrido deixou marcas em nossas crenças na humanidade. Todos os envolvidos na colisão, inclusive a responsável, agiram de forma civilizada e cordata. 

Porém, enquanto tivemos de esperar por três horas para a Secretaria de Mobilidade da Prefeitura chegar e lavrar o boletim de ocorrência, fomos vítimas da crueldade e do fascismo. Motoristas passavam e vaiavam. Outros batiam palma sarcasticamente. Outras passavam bem devagar, tornando o trânsito ainda mais caótico. Outros soltavam piadas. Nenhum gesto de solidariedade no trânsito. O que me faz pensar que o problema dos algorítimos virtuais e das bolhas em que estamos nos entranhando nos tira, além da visão panorâmica das coisas, a condição de nos colocarmos no lugar do outro. 

Qualquer pessoa está sujeita a tombar, a cometer erros e sofrer acidentes de trânsito. Mas, quantas sabem disso e são capazes de refletir e sair de suas bolhas? Não sei. No momento, ando com pouca fé, dentro e fora de minhas bolhas.



 Texto publicado ontem no Novo Jornal e no Substantivo Plural

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Tabuada dos Nove





Quando eu era pequena, uma das coisas mais difíceis do mundo era decorar a tabuada dos nove. Eu também ficava muito confusa sobre quem era o pai ou o filho, quando se tratava de Deus e Jesus. 

Bom, só bem depois foi que eu vim perceber que era a tabuada mais fácil do mundo. Bastava decorar a penúltima fila das tabuadas de 2 a 8, que estávamos ali, diante de toda a tabuada dos nove. Uma espécie de resumo das tabuadas anteriores.

Sempre que me deparo com situações difíceis na vida adulta eu me lembro dessa besteira. E penso que uma hora ou outra, independente da complexidade, os problemas se resolverão.

Meses atrás, quando eu assistia na TV aquele homem branco e feio, esbravejando palavras de ordem e recuperação dos Estados Unidos, revestido de um populismo falso e sem apresentar de fato soluções concretas e minimamente razoáveis para seu país, tendo expostas suas declarações misóginas e suspeitas de abuso sexual eu pensava: Não. Os norte-americanos não são malucos de eleger um sujeito como esse. Não acredito que isso seja possível.

Mas foi. E o que isso tem a ver com meus problemas? Tem muito a ver quando eu percebo que o mesmo discurso de ódio está aqui! Quando eu vejo que tudo e qualquer sentimento, pensamento ou reação que pareça ameaçar os privilégios dos brancos - ricos e ainda "donos" simbólicos das capitanias hereditárias no Brasil - são rechaçadas com discursos de ódio. 

O mesmo discurso que quer aniquilar com o multiculturalismo, com a vozes plurais das religiões, com as melhorias ou efetivação de direito das minorias, o discurso que quer acabar com a filosofia, a arte, a sociologia e o pensamento crítico nas escolas; o direito de ir e vir (e de ser e de amar) dos homossexuais, a militarização violenta da "ordem", o direito à pluralidade de informações.

Então, eu vejo um representante desses do ódio a tudo que não é espelho, do ódio ao negro, ao homossexual, ao pobre, ao pensamento de esquerda, sendo eleito nos EUA, e vejo que aqui no meu país, gente com esse mesmo pensamento comemora e aponta um sujeito ainda mais perigoso que o Trump como possível candidato das eleições presidenciais em 2018. Eu não vou dizer o nome dele aqui, porque me recuso mesmo. Mas ele é pior que o Trump, porque em seu currículo nefasto ele ainda carrega nas palavras e gestos o fundamentalismo religioso.

Vivemos tempos de uma tabuada muito difícil. Se Deus é pai e Jesus é filho, mas o filho é Deus ao mesmo tempo, isso não me parece mais um problema. O que me aflige é que sejamos filhos de uma nação que mais odeia, do que pensa; uma nação que não consegue vislumbrar que direito não é só aquele adquirido para si. Não existe amor numa nação misógina, homofóbica, racista, fascista, reacionária  e que não consegue enxergar os outros números, as outras cores, e as outras aritméticas da vida.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Será que o sol vai voltar amanhã?





Será que o sol vai voltar amanhã?


"Nosso dia vai chegar/ Teremos nossa vez/ Não é pedir demais/ Quero justiça".

Cantei muito na minha adolescência esses primeiros versos, e os outros, da música “Fábrica”, escrita pelo saudoso Renato Russo. 

Eram tempos de sonhos, de vontade de ver meu país sendo mais igualitário e de ser menos acossado pelo “mérito” e mais acolhido em oportunidades de direitos.

Renato Russo nos deixou há 20 anos. 

Mas suas músicas nunca foram tão atuais. Se ele estivesse vivo, provavelmente estava fazendo parte do coro dos inconformados com essa triste realidade que nosso povo vem passando. Ora anestesiado por um ódio que eu não encontro explicação, ora pela ignorância alimentada por uma mídia que mais desforma que informa. 

Com certeza, Russo teria feito campanha para o Freixo no Rio.

A volta de slogans como "Ordem e Progresso" e "Criança Feliz" nunca me cheirou tanto a mofo e enxofre. 

Outubro se foi, mas o dia das bruxas segue assombrando nossa democracia e todas as conquistas que tivemos ao longo dos anos. 

Vivemos uma "ordem" que legitima atrocidades policiais contra adolescentes, que ocupam escolas; que exalta um juiz obcecado pelo delírio de poder, que só aponta suas canetadas para um único partido, em meio à corja de políticos envolvidos num esquema de propina secular no nosso país. 

O "progresso" que somente acolhe e afaga o topo da pirâmide e a criança feliz que invoca um primeiro-damismo assistencialista, num papel coadjuvante da mulher "voluntária" e acéfala.

É. Acreditar que "é claro que o sol vai voltar amanhã" tem ficado cada vez mais difícil.

Vejo um céu menos cinza quando assisto ao discurso da menina Ana Júlia, na Assembleia Legislativa do Paraná que comoveu o mundo pela firmeza e hombridade. 

Mas não podemos esperar tanto, menina Júlia. 

Não podemos esperar por 20 anos, que pessoas decentes como você estejam no comando da nossa política.

É preciso uma revolução agora. 

A destituição desse governo ilegítimo, eleições diretas, para que possamos voltar a acreditar que ferramentas sociais da vida moderna como trabalho e voto não podem ser usadas contra nós. 

Oxalá Russo estivesse aqui para fazer novos versos sobre velhas práticas e abrir nossos olhos, e dos nossos pais e das gerações futuras.

E que ficasse fulo da vida em ouvir seu refrão “Que país é esse?” sendo entoado por uma gente que vai para manifestação vestido de verde e amarelo, contra uma corrupção que só tem uma cor, com uma babá devidamente fardada, empurrando carrinho de criança, numa clara divisão de castas. 

E é isso que Russo e muitos dos que ouvíamos suas canções jamais desejaríamos para nosso país: dividido, individualista, histérico, truculento, fundamentalista, corrupto. 

Da minha parte, seguirei cantando os versos da Legião Urbana. E, com chuva ou com sol, procurarei evitar "culpar meus pais por tudo". E, de tanto acreditar, "em tudo que achávamos tão certo, teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais".



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Saia do Armário


Quando vejo alguém defendendo essa PEC 241 do governo ilegítimo, usando dois argumentos cabais: o primeiro é que é necessário parar com a "gastança" feita pelo Governo anterior e, segundo, comparando com os gastos de nossa casa, me vêm alguns pensamentos: ignorância total ou, o que é mais provável, má fé, oportunismo, canalhice e politicagem. E, atenção, essas informações você não terá acesso assistindo ao Willian Bonner. 

Corremos riscos de congelamento em políticas públicas, certo? Salário mínimo, saúde, educação, assistência social, cultura. O que ninguém fala é que se a arrecadação continuar caindo mais do que o corte que foi feito, nada disso vai adiantar. Utilizemos os mesmos argumentos dos defensores dessa PEC cruel  para que o Brasil "volte a crescer". Se um dono de casa resolve fazer economia em seu lar, ele vai diminuir gastos com a educação, com a saúde, a comida e o transporte? Ou ele cortaria o que, digamos, é excedente? 

Estranho pensar em corte de gastos justamente quando esses cortes atingem tão somente a classe trabalhadora? E não falo só de operários. Falo com você, que vive de salário, que tem carro e casa financiados, que faz compra divididas em cartão de crédito, que planeja férias dois anos antes e que pensa que porque tem um SUV financiado em 36 meses, faz parte da casta de ricos e da "elitche". Você já parou para pensar que enquanto estão planejando congelar os recursos do SUS - aquele serviço público que manda a ambulância socorrer os acidentados de trânsito, por exemplo, antes da sua home care pensar em atender seus telefonemas, o Judiciário e o Legislativo não estão sofrendo nenhum tipo de corte na gastança pública? Muito pelo contrário.

Você que é pensionista e está chateado por conta dos parcos reajustes, já percebeu que estão botando a culpa na Previdência? Ou, já se tocou que, sem investimentos na segurança, policiais civis e militares, agentes e delegados terão argumentos de paralisação ainda mais contundentes? E haja violência. Você que reclama de passar duas ou três horas numa clínica médica, esperando seu médico, já pensou que se os Planos de Saúde - que já repassam tão mal para os profissionais cooperados - tiverem ainda mais mercado, que isso piorará ainda mais? A PEC 241, que limita o aumento das despesas do governo à inflação do ano anterior por um período de 20 anos é uma crueldade.

O descontrole das contas governamentais não é fruto da despesa, e sim da receita, da arrecadação. Tem ideia de que enquanto você paga imposto da garrafa de água mineral à alíquota anual do IRPF; o rico ganhador de dividendos não tem taxação alguma, nos milhares de reais que embolsa? Você sabe o quanto de juros pagamos para a dívida externa? Saia do armário da ignorância, meu amigo. Pense. Diga não à proposta que vai aniquilar o que você já conquistou em 27 anos de Constituição.

A poesia não serve para nada


A poesia não serve para nada. É diferente de qualquer outro tipo de manifestação artística e outro tipo de olhar sobre as coisas, reais e imaginárias. É diferente da música, propriamente dita - aquela feita com o auxílio de instrumentos - porque os ouvidos estão sempre abertos. São janelas escancaradas a escutar. Já a poesia, essa precisa do olhar. Aquele que não se encerra simplesmente em algumas piscadas. Tem de ser um olhar por dentro.

A poesia não é uma atividade prazerosa. É trabalho. Duro e sem salário. E pouco importam as circunstâncias que levam a esse trabalho. Poesia não é antídoto contra dor de corno; nem cura de ressaca. Poesia não é carta de amor. Nem de desamor. Poesia é arrancar a unhas o ritmo contido no tempo. E matar o tempo, que é narrativa. Poesia não serve para deixar ninguém famoso; ou para aparecer em foto ou listinhas. O título de poeta geralmente é exposto nas prateleiras de quem mais fala ser poeta e menos escreve. Repare bem nos poetas. São, por vezes, tímidos. Quietos. Econômicos na verborragia metalinguística do seu labor. Amargurados em sua condição de enxergar o mundo sob a ótica de uma realidade pouco compreendida e bastante ignorada. 

Escrever poesia é fazer uma corrida de costas, olhando nos olhos dos chavões que jorram fáceis e são convidativos. É cuspir um a um, e falar a mesma coisa, mas de um jeito único. Falar sobre nada e dar importância às coisas sem importância. 

Aliás, poesia é o desnudamento da palavra, não do poeta. Poesia é se refugiar no mato, para encontrar no meio das ervas um trevo de quatro folhas. Ou inventar um, que seja. Poesia não é crença, nem faz milagres, nem salva ninguém.

Por isso que a poesia não serve para nada. O mundo está muito ocupado para carecer de poesia. Quem diabos quer saber de Bob Dylan e de T.S. Eliot? Quem quer saber de Wislawa Szymborska?(a gente não sabe nem pronunciar direito o nome da criatura!). De quem eu peço emprestado um poema para encerrar essa crônica. “Somos filhos da época/ e a época é política/ Toda as tuas, nossas, vossas coisas/ são coisas políticas/ Querendo ou não querendo,/ teus genes têm um passado político,/ tua pele um matiz político,/ teus olhos, um aspecto político./  Até caminhando e cantando a canção/ você dá passos políticos/ sobre um solo político./ Versos apolíticos também são políticos./ e no alto a lua ilumina/ com um brilho já pouco lunar./ Ser ou não ser, eis a questão./ Qual questão, me dirão./ Uma questão política./ Não precisa nem mesmo ser gente/ para ter significado político./ Basta ser petróleo bruto,/ ração concentrada ou matéria reciclável./ Enquanto isso matavam-se os homens,/ morriam os animais,/ ardiam as casas,/ ficavam ermos os campos,/ como em épocas passadas/ e menos políticas.

Férias no Cabelo


O filme “La Delicatesse” começa assim, Nathalie (Audrey Tautou) e François (Pio Marmai) são um casal apaixonado e têm muito em comum. Se casam, fazem planos, viagens e sonham em um dia ter filhos. Mas, o filme dirigido pelos irmãos David e Stéphane Foenkinos, está longe de ser um filme comédia romântica adocicada, do tipo "Comer, Rezar, Amar". Logo no início, o marido de Nathalie morre num trágico acidente de carro. Sentimos um baque, claro, porque quando a perfeição parece tão próxima e tão plástica, difícil aceitar que ela não existe mais. Dá para sentir a dor contida e quase insuportável da personagem. E agora? O que é que se faz com o peso de uma perda desse monta? O filme mostra uma dor silenciosa. Sem sentimentalismos, a lá novela das sete, ou cenas em que ela se encostaria na parede em prantos e deslizaria lentamente até o chão agarrada com um cachecol do marido.

Nathalie se joga no trabalho. Vira uma workaholic. Aparentemente nada muda em sua vida, seu apartamento, seu cabelo, durante três anos, até que ela num impulso beija o colega de trabalho, sueco e sem graça, Markus (François Damiens). Parece mais uma brincadeira. Tive a impressão que ela estava testando sua capacidade de sentir desejo por alguém que não fosse o marido morto há tanto tempo. Mas, Markus não vê assim. A partir do momento em que é beijado por ela, sua vida que parecia uma película em preto e branco (nada contra os filmes noir, isso é só uma figura pobre de linguagem), ele parece que está num passeio à Disney, de tanta cor que se lhe apresenta. Markus é uma pessoa infinitamente doce, simples e benevolente com todos à sua volta. Tem um momento do filme em que ele confessa que está tão fascinado pela chefe que seria capaz de "tirar férias no cabelo dela".

Eu acho que foi a maior declaração de amor que eu assisti em um filme em toda a minha vida. Querer tirar férias no cabelo de alguém é uma coisa absolutamente inusitada e quase devocional. "A delicadeza do amor", tradução para o português, protagonizado pela mesma moça que fez "O fabuloso destino de Amélie Poulain" não é somente um filme de amor. É um filme sobre recomeço. A suposta "feiura" de Markus também revela o preconceito que algumas pessoas cultuam em querer encaixar casais em determinadas formas. Markus é doce e sabe que essa doçura é permissiva para que os desrespeitem. 

O filme revela, sutilmente, a chance que as pessoas veem umas nas outras de poderem ser ouvidas, compreendidas, de não se sentirem ridículas ou frágeis por estarem descobrindo no amor uma chance de viver de maneira absolutamente igual, mas totalmente diferente, percebe? Não há salvação para ninguém no filme. Eles só estão se permitindo viver e amar. Amar e viver.

Desenhos da Alma



Eu jamais me descabelaria por conta de um cantor de tecno-brega, forró universitário ou axé qualquer coisa. Mas entendo o frenesi que algumas pessoas sentem quando se veem diante de seus ídolos. No meu caso, meu descabelamento - ao menos mental - se dá quando fico próxima de algum escritor do qual sou leitora e admiro sua escrita. De alguns que já tive a chance de conversar, cito três: Milton Hatoum, José Eduardo Agualusa e Francisco Alvim. E, pensando agora sobre o comportamento dos três, acho que se eles percebessem que eu estava me descabelando por dentro, decerto eles ficariam muito retraídos. Porque são, acima de tudo, seres humanos simples, acessíveis, quase que agradecendo ou pedindo desculpas por estarem falando desse ofício, que é tão solitário.

Quando entrevistei Agualusa, por exemplo, ele falava muito baixo e pausadamente. Mas o tom não era monótono, era só um mecanismo para que pudéssemos ruminar as palavras com o mesmo prazer com a qual as mastigamos em uma leitura boa. Em princípio, ao invés de falar de si mesmo, ele me perguntou se eu já tinha lido o Mia Couto - um grande amigo seu, por sinal. Eu disse que só tinha lido o livro "O fio das miçangas" e ele insistiu: "Você deveria ler mais o Mia. Ele é um grande escritor".

Com Chico Alvim, chegamos a trocar alguns e-mails, após a entrevista que foi rica e cheia de significados de vida e aprendizado para mim. Ele queria ver como ficara a matéria e, nessas horas, é meu momento de ficar tímida. Ele me foi tão acolhedor que senti vontade de falar sobre esse encontro do meu jornalismo e a poesia daquele homem elegante, tempos depois no meu blog. E, qual não foi minha surpresa que recebo tempos depois o e-mail que transcrevo: "Minha cara Sheyla, outro dia dei com suas palavrinhas no seu blogue de título formidável. Como agradecer tanta bondade, carinho? Falta agora você cumprir sua parte do nosso trato: quero conhecer o Newton Navarro. Você me manda um abraço repleto de maresia.Em troca, receba o meu, com uma braçada de céu". Bom, nem precisa dizer que eu mandei meu livro para ele e que, depois, ele me presenteou com alguns exemplares seus, como por exemplo, "o metro nenhum" da Companhia das Letras.

Hatoum é um homem grandão, com uma voz grave e afável. Disse-me que não gostava de fazer qualquer mistificação com relação ao seu trabalho na linguagem. Que era mais leitor que escritor - aliás uma característica típica de um verdadeiro escritor. E a revelação que mais me surpreendeu: que escrevia todos os dias à mão. Falou isso sem imaginar que essa poderia ser uma informação valiosa para uma jornalista. Mas não era de imenso valor só porque eu tomaria essa informação como mote. Era rico saber desse seu hábito, porque as palavras escritas a mão são desenhos da alma do escritor. São palavras virgens de tinta, sem a pretensão da gráfica. São faíscas simples da grande explosão que as precede.

Levante-se!



A imagem divulgada numa rede social era bem interessante, remetia, acho, a uma pintura renascentista, uma mulher deitada sob umas almofadas e um enorme couro de tigre e, uma outra mulher, de pé, tentava despertá-la. Mas, a frase que colocaram para acompanhar a imagem me impressionou mais ainda: "Vamos levantar, que os paradigmas não se desconstroem sozinhos".

Às vezes, levantar para desconstruir um paradigma é difícil. Quando me lembro que passei seis longos anos da minha vida esticando o meu cabelo com química, e queimando o casco da cabeça naquelas sessões de tortura que era fazer escova quase toda semana, para me sentir "lisa" e aceita pelos outros, sei que ao assumir de vez meus cachos foi sim uma quebra de paradigma. Muito antes dessa onda - muito favorável a meu ver - de valorizar os cachos das madeixas femininas. Atitude essa, a meu ver, que é a afirmação de uma identidade negra e crespa que eu e tantas outras mulheres carregamos na genética. E não há problema algum em sustentar isso.  Afinal, antes de tudo a gente precisa assumir quem é, saber de onde viemos e para onde queremos ir. Não sou contra qualquer tipo de tratamento, cuidado ou estética que a pessoa queira fazer para se sentir melhor. Mas discordo veementemente da ditadura da estética imposta pela futilidade do consumo e da busca desesperada por um modelo ideal jamais alcançado. Porque, o que o mercado quer, é que jamais alcancemos a felicidade. Ou, melhor, a liberdade de não precisar ser feliz o tempo todo. Uma pessoa plena e consciente de seu corpo, seu rosto e suas marcas não se frustra e, logo, não continua no desespero de comprar e buscar novas fórmulas de perfeição e aceitação. É um ciclo vicioso e cruel e todos estamos fadados a cair nele, até decidirmos quebrar o paradigma. 

Vamos a mais uma quebra de paradigma: não somos obrigados a ser felizes o tempo inteiro. Segundo, admitir-se não ser feliz full time não é sinônimo de “drama” ou de infelicidade. É sinal de que estamos conscientes de nossas fraquezas, angústias, falhas e que o mundo não gira na órbita do nosso querido umbiguinho. Ok, as pessoas podem fazer o que quiserem com seus umbigos (inclusive drenar e lipar); mas, para isso, não precisam anular como funcionam e vivem os umbigos dos outros. Mais trabalho, respeito e menos narcisismo, por favor!

O que é engraçado no mundo dos narcisistas de plantão é que tudo de ruim que lhes acontece, eles colocam culpa na “inveja” dos outros. Esquecem que ninguém é capaz de sustentar 24 horas do dia, um mundo de fantasia e falsidade. Todo mundo tem remela, meleca, solta gazes e problemas, inclusive os que tentam sustentar que suas vidas são perfeitas. Incapazes de perceber que as pessoas, de um modo geral, estão vivendo suas vidas e “andando” para quem nada tem nada mais a oferecer a não ser velhos paradigmas.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Pelo direito de chorar e outras coisitas más...




Eu poderia falar sobre a crise política, ruptura da democracia, do abismo conservador e direitista ao qual escorregamos profundezas abaixo, eu poderia falar sobre a vergonha que sinto sobre o jornalismo praticado pelos jornalões e televisões Brasil afora, eu poderia falar sobre a crise hídrica que agora assola também Brasília, ou poderia até falar sobre o lobysta João Dólar, que ganhou as eleições no maior centro "cultural" do Brasil, eu poderia falar sobre o noticiário local de hoje, que deu conta de um assaltante fugitivo quatro vezes de Alcaçuz, eu poderia falar do estado de exceção, golpe, o papa Francisco, as crianças que continuam morrendo na Síria, poderia falar das palestras água com açúcar do padre Fábio de Melo. Eu poderia até mesmo me calar. Mas eu quero falar de um tema que a mim me é inerente: ser mulher.

E vou retransmitir uma declaração que Jorge Luis Borges fez na Rádio Nacional Argentina, ao entrevistador Osvaldo Ferrari, cujo conjunto de entrevistas virou três livros que transcrevem essas conversas, numa coleção chamada Borges/Osvaldo Ferrari. No título "Sobre a Amizade e outros diálogos", eles estão falando sobre Quevedo e o ceticismo que esse tinha com relação às mulheres, ao ponto de recomendar "prevenção" a elas. E Borges discorda: "Bom, eu não posso concordar com Quevedo sobre isso... para mim, há algo tão grato numa mulher, em qualquer mulher, algo evidentemente não pode ser definido, mas existe um agrado no simples fato de estar com uma mulher. Não tem nada a ver com o amor, nem com a sensualidade; é o fato, bem, de algo que é levemente diferente, mas não muito diferente, suficientemente diferente para ser percebido e, ao mesmo tempo, suficientemente próximo para que essa diferença não nos separe. Agora, eu penso que isso acontece em todo relacionamento de amizade, mas eu diria que há algo na amizade de uma mulher, ou simplesmente na presença de uma mulher, que não existe na presença de um homem".

Eu pensava a mesma coisa intuitivamente. Nunca conseguiria transmitir dessa maneira genial e simples do Borges. Mas, quando eu li, foi como se estivesse a tomar um copo de água gelada no meio do deserto. As mulheres têm um quê de acolhedor em sua existência como quando você pisa com os pés descalços em grama verde. Em reuniões com homens e mulheres, por exemplo, eu sinto facilmente essa diferença. Não quero alimentar nenhum tipo de estereótipo com isso, claro. Nem fazer guerrinha de gênero. Mas, às vezes a intuição e sensibilidade precisam tomar a frente à dialética, esse pilar construído à luz da argamassa masculina. Lamento que algumas mulheres ainda olhem umas para as outras como concorrentes; que disputem espaços de poder como se fossem cavaleiros armados. Meninas, lembrem-se: armaduras ferem a carne! Conheci algumas mulheres que conquistaram espaços de poder fazendo piadinhas sexistas e se identificando principalmente com o pensamento dos cuecas, para se sentirem "aceitas". Morrerei (de cólicas) defendendo o direito de sentirmos TPM; defendendo o direito de sentirmos diferente dos homens; de chorarmos ao invés de colocar o "pau na mesa". Uma amiga me confessou que esse ano, ouviu de um homem, que ela pensava ser amigo, que tinha lhe dado espaço na empresa para ela se "empoderar". Mas havia um detalhe nessa benevolência toda: embora no papel eles tivessem as mesmas atribuições, deveres e direitos, suas opiniões não eram respeitadas em igual peso que as dele e, enquanto ele desfrutava dos louros de ser um homem de negócios, ela fazia a faxina e lavava o banheiro do local de trabalho. E nunca sobrava dinheiro para ela receber algum "salário" pelas suas horas trabalhadas, porque o poder que ele lhe conferiu, sustentava-a num fio de humilhação e subserviência. Ela quebrou o fio, claro! Triste esse tipo de poder. Triste a figura feminina ainda ter de ser medida pelos gomos malhados de seu abdômem ou na firmeza de sua bunda.

Por isso, quando eu vejo mulheres resolvidas, livres e trabalhadoras, construindo algo que é delas mas que é ao mesmo tempo algo compartilhado, eu tenho vontade de ficar perto; tenho essa sensação de agrado da qual Borges fala. Estarei sempre atenta ao direito de sermos quem somos. Homens e mulheres, podem chorar de vez em quando. Podem até mesmo gritar, espernear e se descabelar. É feminino isso. É humano.






segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Remar é preciso






Da janela do escritório corre um vento quase frio. Ao fundo, ouço uma tevê ligada num programa que não assisto há anos. Perto daqui, existe uma pessoa que não tem a menor noção de que tem sérios, drásticos, inconfundíveis problemas auditivos. Só pode. Somos obrigados a ouvir tudo o que ela assiste e ponto! Não adianta ir reclamar porque ela não nos entende. Se perguntarmos sobre a guerra na Síria ou sobre o que ela comeu no jantar, não faz diferença. Ele sempre responde com um "heeeeimmm?". E depois sorri e segue sua vida muito acima dos 90 decibéis aceitáveis. Uma vez fui a uma cabeleireira que também sofria de problemas auditivos. Afora o barulho chato do secador, a quentura machucando o casco da cabeça, ela ainda gritava feito uma hiena louca no pé do meu ouvido. Só consegui ir uma vez. Tortura chinesa era fichinha.

Mas enquanto sinto o vento quase frio lambendo minhas pernas, um pensamento não me sai da cabeça. A incrível capacidade que temos de reorganizar as prioridades na vida. Há duas semanas, ao acordar, escolhia a roupa com cuidado e não saía de casa sem passar base com protetor. Agora, com a vida dando outros passos em direção ao desconhecido, acordo pensando se já não passou a hora de dar o apyron, o ursacol, a ranitidina e o buscopan para um de meus gatos que resolveu passar 20 dias sem comer, mais enjoado que gestante de três meses e que mobilizou toda a casa para que conseguíssemos descobrir o que tinha e salvar a sua vida. Tarefa tão importante para nós quanto a vida dos bípedes da casa. Somos uma família grandiosa: três humanos e cinco gatos. Somos uma família simples, unida e solidária. Somos uma família que grita às vezes, mas se beija e se abraça muito para compensar; que conversa bastante e toma decisões em conjunto. Somos uma família que fica feliz com pipoca e filme na Netflix. Somos uma família com poucos selfies e um álbum de família que já foi herança da minha avó. Somos tão normais às vezes que nos tornamos excepcionais. Somos uma família com vários outros membros em outras casas que nos amam e cuidam da gente, que tem grupo no WhatsApp, que se comunica muito, principalmente através de emojis.

Às vezes a gente precisa reorganizar as prioridades; mas tem coisas que estão além das importâncias momentâneas. A vida é como um barco; ora precisa de vento e vela; ora precisa de um motor potente. Mas jamais deixa de prescindir de quem saiba remar. Sem motor, sem vela e sem vento o barco até pode diminuir seu ritmo. Mas a força que vem dos nossos braços é capaz de seguir o caminho. Navegar é preciso, meus amigos; mas, viver, aí, é outra história.


Publicado também no Novo Jornal e no Substantivo Plural

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Pagamento à vista



Almoço de domingo na casa da minha tia é sempre sinônimo de que vamos levar marmita para o jantar. Já no sábado, ela manda WhatsApp perguntando se queremos suco de cajá ou uva. Quando chegamos lá, tem cerveja, suco de cajá, de uva e chá verde com gengibre e canela. E ai de quem não tomar todos os líquidos oferecidos. Tem bobó de camarão, carne, arroz integral com açafrão da terra, salada e um feijão grande e branco que eu só encontro em sua casa. Ela é assim, uma profusão de tiradas sarcásticas, risadas largas e uma força descomunal para quem só chegou perto de um metro e meio. Lembra muito a minha avó. Aliás, todas as filhas da minha avó preservam notáveis pedaços dela: as piadas genuínas, os assobios afinados, uma vaidade descomunal em cuidar dos cabelos e o olhar marrom. Quando chegar a minha vez, quero ter esses pedaços delas todos impregnados em mim, muito embora me ache incapaz de um dia acumular a metade da vaidade que elas têm com os cabeços e unhas.

As melhores heranças não são as deixadas em cofres ou propriedades. São aquelas que têm cheiros. Como quando abrimos o armário de alguém que amamos e sentimos a presença dela naquele lugar. Ou aquelas que ficam guardadas em pequenos recados de memória. A primeira receita de bolo; as dicas certas de como fazer um feijão. O balé ritmado das conchas do mar em cima da mesa, embaladas pela música "escravos de Jó, jogavam caxangá". Um jogo ganho de dominó depois que você aprende, com a sua avó, a contar as peças. A primeira mochila emborrachada que aquela mesma tia do almoço me deu, e que era vermelha. A cor das memórias vivas e pulsantes, que fazem das pessoas que têm o mesmo sangue jorrando nas veias, grandes amigos e que, no fim das contas são as que mais importam, porque elas sobretudo, se importam com você. São as que choram o choro solidário de uma perda. As que ligam se você está doente, as que perguntam se você botou o guarda-chuva na bolsa, porque parece que o tempo vai fechar. As que falam qualquer coisa e se fazem presentes nem nenhuma necessidade à vista. Pessoas que fazem marmitas para você continuar comendo da comida delas depois que você volta para sua casa.


Afora a família, às vezes temos a sorte de encontrar essas almas afins além fronteiras sanguíneas. Elas te aceitam sem necessidade de promoção ou desconto. Nada mais cansativo que você se dividir em mil prestações para ser aceito ou aceitar os outros. Cuidado com gente que se valoriza demais enquanto desdenha dos seus atributos. E te passa uma fatura de amizade. Mesmo que isso seja feito de maneira sutil, se alguém quiser te comprar barato, não aceite. Todos temos nossas avarias. É delas que nascem nossas singularidades. Só aceite pagamento à vista, no quesito amizade sincera.

Crônica publicada hoje no Novo Jornal

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pensamentos bons




Eu era do tipo que deixava a carne para comer no final. Queria aliar a despedida do prato em grande estilo. Com o melhor gosto ficando por último nas papilas gustativas. Muito embora só agora é que possa pensar sobre isso com mais clareza. Naquela época eu era mais sensação que palavras, nem sabia o que eram papilas gustativas. Mas as palavras viviam grudadas a algo que estava sempre comigo: a imaginação. Como em toda criança, por suposto. Não raro, eu dava uma topada e pensava, será que alguém em outro lugar do mundo, levou uma topada ao mesmo tempo que eu? Será que essa dor fina e aguda que resplandece até nas minhas orelhas vai demorar quanto tempo nessa outra pessoa? E eu me concentrava na dor para ver quanto tempo ela iria passar. Contava alguns segundos, daí me distraía com alguma coisa e quando me apercebia, a dor já tinha passado e eu tinha perdido a conta.

Eu pensava que todas as coisas poderiam ser interligadas. Se alguém morria na cidade, logo eu buscava o consolo de que talvez alguém estivesse nascendo naquele exato momento. E, sendo assim, haveria um equilíbrio entre as vontades de Deus.

Seguindo esse raciocínio, a sincronicidade entre os fatos nem sempre é harmoniosa. Hoje em dia, toda vez que lá em casa alguma comida estraga na geladeira e tenho de jogar fora, eu penso que tem algum estômago vazio perambulando por aí, padecendo do desperdício dos nossos dias tão distraídos com a fome dos outros. Sinceramente, acho uma afronta o desperdício. Uma afronta a quem tem fome, um despautério à natureza que nos entrega sua energia para que dela sobrevivamos. Meu peito pousa em uma vergonha sem dimensões, quase inconfessional porque sei que pode ser uma vergonha compartilhada com outros homens, cuja humanidade, quase todo dia escorrega para dentro da lixeira da cozinha. E talvez eles pensem que isso que eu penso seja uma grande bobagem. E isso me dá mais razão para ter vergonha.

Quanto menos mapa de navegação, mais a imaginação ganha força no vento. Aliás, vento é um negócio danado para nos dar de presente pensamentos bons.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Ratos na bodega



Era uma bodega a poucos metros de casa. Tinha um balcão de madeira que, na minha infância ficava além da altura dos meus olhos. Às vezes, para que me vissem eu precisava dar um impulso e me dependurar com os cotovelos e gritar o nome, "ei, Seu Zé" ou "ei, Dona Maria", minha mãe tá pedindo oito "pães franceses" e um quilo de açúcar. Desde a infância eu tinha um saquinho de vários "esses" dentro da cabeça para sair distribuindo a cada exigência dos plurais da vida. E todas as pessoas do mundo, da bodega e da feira, se chamavam Zé e Maria. E era uma decepção grande quando eu descobria que eles se chamavam Sebastião ou Terezinha.

Daí, teve uma vez que a minha mãe queria que eu voltasse para devolver os pães. Acusava a bodega de que lá tinha ratos. Lá tinha de tudo é certo. Tinha panela de alumínio; canecas de ágata; feijão em sacos de estopa; açúcar; carne de boi e de porco; fumo; vassoura de palha; pano de prato; cocada; balas de coco; biscoito sete capas, tudo cheirando de uma vez só, formando um sistema complexo de um cheiro inigualável. Como aquilo era mágico! Eu adorava entrar e sentir aquela atmosfera pesada e substantiva. Um cheiro que quase se podia tocar. Diferente de outros cheiros marcantes como poeira da rua ou da chuva fina quando molha o chão quente, o cheiro da bodega era uma entidade que nos dominava e atraía.

Por mais que eu tentasse convencê-la de que não tinham ratos na bodega, eu não conseguia dizer a verdade pura e simples. Que aquele pequeno pedaço quase redondo que ela identificara como uma mordida de rato, tinha sido eu mesma - provocada por uma fome repentina de travessura no caminho de casa – que fizera um minúsculo beliscão e tirara do pão um pouco de sua dignidade de pão não passeado por ratos.

Devo admitir que eu tinha a disciplina às avessas de fazer travessuras, como quebrar o nariz de gesso de Nossa Senhora com o dente ou arrancar numa curiosidade só, o pedaço da parede da porta, minuciosamente esculpido pelo meu pai, em cimento ainda fresco, onde receberia a trava do ferrolho; mas me faltada a manha da mentira. Eu era uma incompetente nesse quesito. Nem sonsa, nem mordaz. Eu era translúcida no silêncio. Percebendo minha relutância em voltar na bodega, ela sentou na desconfiança e eu já agradecia por isso, porque bastaria a pergunta simples: “foi você?” e eu me libertaria com um sim.

Naquela noite eu fui proibida de comer pão. Somente sopa. E se reclamasse, a sopa poderia ser regada a uma boa sandália japonesa nos quartos. O pedacinho de pão, já totalmente diluído nas minhas papilas gustativas, dançava na memória. Junto com os cheiros contidos na minha infância agora.



segunda-feira, 4 de julho de 2016

Mais Ana C., menos mi mi mi



Ana Cristina César é a homenageada da Flip desse ano. Nunca fui na Flip. Li pouco Ana Cristina César, fato. Não sou crítica literária, fato. Não sou doida varrida (ou desocupada o bastante) para sair por aí falando sobre algo (poemas, poesia &/ou estilos) só para demonstrar conhecimento e encher a vida das pessoas de imbecilidades mascaradas de úteis quando, na verdade, não passam de verborragia amanteigada com vaidade de gente que não sabe escrever e, frustrada, resolve falar do trabalho (árduo) dos outros.

Parece meio tolo tentar dar estofo a duas situações que me são superficiais, portanto. Ana Cristina César e Flip. A primeira, bonita, fotogênica, poeta, trágica, suicida. A segunda, uma Feira, Festa sei lá o quê que o que menos se propôe - declaradamente - é ser uma feira sobre literatura. Já ouvi um CD sobre a Flip. Alguns amigos já foram à Flip. E só. 

Mas, me sinto muito à vontade para pedir: mais Ana Cristina César, menos culto ao suicídio; mais Ana Cristina César, menos performances tolas no meio do palco; mais Ana Cristina César, menos frases de efeito; mais César, menos Brutus; mais sexo oral, menos punheta literária; mais noite, menos entardeceres românticos ouvindo Ravel; mais Ana C., menos personagens; mais Ana C., menos teorias; mais Ana C., menos décadas passadas. Mais Ana C., menos textos reunidos. Mais mais mais silêncio, porra!

domingo, 3 de julho de 2016

A Natureza das Coisas





A pessoa chega na parada de ônibus passando um filme na cabeça. Até ali tinha sido um dia exaustivo. Quando as linguagens não se comunicam, os interesses não se coadunam, os sonhos são diferentes. Todo mundo passa por isso. Sabe quando você pensa, pôxa, esse dia não foi favorável? Tem alguma coisa errada no meu universo particular? O que diabos eu estou fazendo aqui? 

Eu estava atrasada para um encontro com um amigo, daqueles que só pelo olhar, a gente já se sente acolhido. Era necessário, muito que eu fosse me encontrar com ele, embora em alguns momentos pensasse em desistir, voltar para casa logo, me enfiar debaixo dos l lençois e chorar para aliviar as tensões. Os planos de sair mais cedo não tinham dado certo. Eu estava 30 minutos atrasada. O trânsito estava estranhamente lento naquele momento. Depois vim a confirmar aquela lentidão, uma colisão de dois carros há menos de um quilômetro de onde eu estava. Bom, eis que passam no carro, um casal que conheço desde minha infância. Eles nem estavam na via expressa. Cumprimento-os amigavelmente e, antes que o sinal abrisse eles perguntam para onde vou e me oferecem uma carona para mais adiante. Aceito. Corro para dentro do carro. Sair daquele lugar já parecia uma boa opção.

Quando sento, me apercebo que antigamente eles moravam razoavelmente perto do meu destino naquele momento. E continuavam no mesmo endereço. Ou seja, aquela carona era mais que um gesto amigável, era mais que uma brincadeira do acaso, aquela carona fora um pedaço de esperança que deslizou sobre meus ombros cansados naquele dia triste. Eles me deixaram na porta do lugar onde, anteriormente, nos meus planos, eu teria que caminhar uns 10 minutos para chegar, depois de descer do ônibus. Mas não foi só isso. Dentro do carro, eles ouviam Flávio José. Ouviam a plenos pulmões, mal dava para conversar. E foi assim que eu tive a oportunidade de ouvir atentamente a música "A Natureza das Coisas", que eu tive o cuidado de pesquisar para saber de quem era, e foi composta por Accioly Neto. E eu replico alguns trechos para vocês:


Se avexe não...
Amanhã pode acontecer tudo
Inclusive nada.

Se avexe não...
Que a lagarta rasteja
Até o dia em que cria asas.

Se avexe não...
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa.

Se avexe não...
Amanhã ela pára
Na porta da tua casa

Se avexe não...
Toda caminhada começa
No primeiro passo
A natureza não tem pressa
Segue seu compasso
Inexoravelmente chega lá...

Se avexe não...
Observe quem vai
Subindo a ladeira
Seja princesa ou seja lavadeira...
Pra ir mais alto
Vai ter que suar.


Bom, eu me emocionei profundamente, não vou mentir. E chorei um pouquinho. Não era debaixo das minhas cobertas, então era um choro rápido, discreto, civilizado, aliviado. Um choro longe de críticas, curiosidade e escárnio. O casal amigo percebeu, mas fingiram que não. Era um choro de reconhecimento, de agradecimento e um choro que me dizia mais ou menos assim: "Se avexe não, mulher, se avexe não!".

terça-feira, 21 de junho de 2016

O silêncio daquela estação




A notícia saiu no Daily Mail, portal de notícias inglês, escrito por Georgia Diebelius. Dizia que uma companhia de trem do Japão decidiu fechar uma de suas linhas. Porém, durante o processo, descobriram que uma única pessoa, a adolescente Kana Harada, dependia daquele transporte para ir e voltar da escola, em determinada estação daquele trem. Nesse local, a única pessoa que precisava do trem era ela, que demorava cinco minutos para ir de sua casa até lá. Depois, em outras estações, outras pessoas subiam ao modal. A notícia foi veiculada há seis meses. Em março, depois que Harada se formou, a linha deixou de operar.

Eu leio a reprodução da matéria numa rede social. Alguns ficam embevecidos com o gesto da companhia, acham que até daria um conto. Eu também acho. Então eu leio um comentário mais ou menos assim: "muito mais inteligente e prático se a menina tivesse mudado de escola". E eu penso, quando foi que a inteligência e a praticidade tomaram o lugar do respeito; do direito de ser indivíduo único e de ter suas próprias necessidades respeitadas? Independente das conveniências do mercado? Em tempos de praticidade, as necessidades individuais têm tomado o lugar do quase impossível, da terra prometida, que já está ocupada por alguma outra vontade que vise lucro, poder, ou os dois juntos.

Tenho uma inclinação de compreender as coisas depois das coisas feitas, realizadas. Antes, tudo não passa de especulação ou quimera. Imagino esse gesto da companhia de trens como algo que humanizou minha vida. Mesmo sendo tão distante de mim. A foto mostra a menina num lugar repleto de neve e eu nunca fui tocada pela neve. Mas a garantia do transporte daquela menina me permitiu enxergar uma beleza que surgirá de vez em quando à minha mente e me mostrará que muito além de ver e ouvir – ou ler – as coisas que me enlevam são sobretudo as sentidas, compartilhadas, dobradas em camadas pelas mãos de outros seres. Porque me ocorre agora que os passarinhos, por exemplo, fecundam de sementes a terra com seus excrementos. E isso é absolutamente “prático” e “inteligente” embora a lógica humana dos “práticos e inteligentes” não consiga perceber de imediato a poesia que há nesse gesto.

No silêncio daquela estação, eu imagino como a menina construía seus sonhos. Alugando espaços nos seus pensamentos para retribuir aquele gesto, um dia quem sabe, à outra pessoa. O silêncio pode ser, tal qual a bosta do passarinho, algo profundamente fecundo. No idioma que perambula por nossa mente, e não sai de dentro da boca, o normal e prático não tem vez. O desacostume é mais produtivo do que o que dizem que é certo para gente. Se a poesia é o mel das palavras, o pensar livremente é a foz do fazer.

Publicado no Novo Jornal

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Depois das gérberas


Eu era do tipo que deixava a carne para comer no final. Queria fechar a despedida do prato em grande estilo. Com o melhor gosto ficando por último nas papilas gustativas. Muito embora só agora é que possa pensar sobre isso com mais clareza. Naquela época eu era mais sensação que palavras, nem sabia o que eram papilas gustativas. Mas as palavras viviam grudadas a algo que estava sempre comigo: a imaginação. Como em toda criança, por suposto. Não raro, eu dava uma topada e pensava, será que alguém em outro lugar do mundo, levou uma topada ao mesmo tempo que eu? Será que essa dor fina e aguda que resplandece até nas minhas orelhas vai demorar quanto tempo nessa outra pessoa? E eu me concentrava na dor para ver quanto tempo ela iria passar. Contava alguns segundos, daí me distraía com alguma coisa e quando me apercebia, a dor já tinha passado e eu tinha perdido a conta.

Eu pensava que todas as coisas poderiam ser interligadas. Se alguém morria na cidade, logo eu buscava o consolo de que talvez alguém estivesse nascendo naquele exato momento. E, sendo assim, haveria um equilíbrio entre as vontades de Deus.

Seguindo esse raciocínio, a sincronicidade entre os fatos nem sempre é harmoniosa. Hoje em dia, toda vez que lá em casa alguma comida estraga na geladeira e tenho de jogar fora, eu penso que tem algum estômago vazio perambulando por aí, padecendo do desperdício dos nossos dias tão distraídos com a fome dos outros. Sinceramente, acho uma afronta o desperdício. Uma afronta a quem tem fome, um despautério à natureza que nos entrega sua energia para que dela sobrevivamos. Meu peito pousa em uma vergonha sem dimensões, quase inconfessional porque sei que pode ser uma vergonha compartilhada com outros homens, cuja humanidade, quase todo dia escorrega para dentro da lixeira da cozinha. E talvez eles pensem que isso que eu penso seja uma grande bobagem. E isso me dá mais razão para ter vergonha.

Aliás, em tempos de GPS, quanto menos mapa de navegação, mais a imaginação ganha força. Eu gosto de sorrir para estranhos na rua que não sabem para onde ir ou como chegar. Se eu sei o caminho, quase os pego pelo braço e os levo até lá. Mulher que sou, desconheço nome de ruas ou o que é direita ou esquerda. Então, me valho dos detalhes: o senhor sabe aquele prédio de vidraças azuis de mais ou menos uns oito andares naquela esquina com a farmácia? Pois não é ali, é um pouco mais adiante. O senhor segue mais umas três quadras; quando passar diante de uma casa de muro lilás e gérberas no jardim, mais duas calçadas adiante, cuidado com o buraco entre elas, e é lá onde o rio vai estar, digo a rua com nome de rio que o senhor procura. E sigo meu caminho, achando que pode ser tudo muito confuso para ele entender. Mas se ele encontrar as gérberas, então já terá valido à pena.


Dedico esse texto ao Davi Boruszewski, porque sim.


domingo, 22 de maio de 2016

O sexo dos anjos não é da sua conta



Reprodução de Henri de Toulouse-Lautrec


Sou casada. Gosto do borogodó. Ponto final. No meio do pátio, às vezes, eu e ele nos abraçamos, nos beijamos, namoramos como adolescentes no meio da praça. Até agora não recebemos qualquer notificação condominial pelos nossos carinhos explícitos no meio do jardim, dividido com os outros condôminos. Normal né? Então, por que não é normal o carinho, o namoro, o beijo entre iguais? Digo, entre pessoas do mesmo sexo. Confesso que quando vi a primeira vez dois amigos se beijando, senti uma espécide de felicidade envergonhada, primeiro porque eu nunca tinha visto dois homens se beijando, segundo, porque era absolutamente normal e não cabia ali qualquer sentimento de repulsa, nojo ou estranhamento.

Minha mãe foi assistir ao filme do Cazuza comigo no cinema. Saiu de lá embevecida com as cenas de beijos. Acho que foi a primeira vez dela em ver beijos entre iguais. Embora não tenha sido ao vivo, provavelmente ela percebeu a mesma coisa: que era somente duas pessoas se beijando. Somos os únicos seres a "sexualizar" a boca. Nenhum outro animal tem esse aparelho constituído especificamente para a nutrição como uma zona erógena. Os bororos parecem que praticam orgias, entretanto, não rola beijo. Usar a boca para esse fim é coisa de humanos. Assim como também é coisa de humano desenvolver sua sexualidade em diversas maneiras e de forma absolutamente individual. Por que o amor do outro incomoda? Por que existem regras para o que está indubitavelmente no campo do desejo? E, sendo assim, não tem regras, não tem jeito certo ou errado, nem cabresto que segure. Se houver, podem ficar claros os rastros profundos de frustração e angústia.

Se eu começasse esse texto assim: Sou casada. Com uma mulher. Ela tem o melhor beijo que existe na face da terra. Onde estaria o erro? A menos que ela me batesse, me magoasse, abusasse de mim ou me extorquisse - sem o meu consentimento - existiria algum erro. O amor não tem cor definida, nem forma, nem sexo. Muitos dos heterozinhos - homens e mulheres - que fazem carinha de nojo ou chistes sobre a homossexualidade estão loucos por dentro para experimentar. Só não têm coragem de encarar o desejo que os anima por dentro, que poderia até trazer algum sentido para suas vidinhas insossas de "papai e mamãe" nas quintas-feiras. Há também o inverso, não nos enganemos. Conheço alguns homossexuais que fazem questão de ojerizar a genitália que não é igual. Como se rejeitar e ridicularizar o que não é espelho fosse uma forma de compensar o muro de rejeição da sociedade pelas suas orientações, pelos caminhos do seu desejo. 

Na boa, gente bem resolvida com o que quer e o que gosta não pega no pé do outro. Gente bem resolvida goza e quer que os outros gozem também. Como será, aí é com cada um. Ninguém tem nada a ver com isso.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Clube do Bolinha



Desde semana passada, quando o presidente golpista em exercício assumiu o comando do Brasil, muito tem se falado sobre o fato de que só homens brancos assumiram as cadeiras dos ministérios. Não me surpreende. Depois da matéria na revista exaltando os dotes de sua esposa 40 anos mais jovem, "bela, recatada e do lar", alguém duvida de como pensa esse Governo? 

Em se tratando de presença feminina no parlamento ocupamos o 155º lugar no ranking de 185 países. Dados da Uni-ão Interparlamentar (IPU), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo eles, temos a pior posição na América Latina. O Executivo não está refletindo uma nova realidade. Pelo contrário, ele retrocede em não dar espaço algum à mulher. E vai além, ele não nomeou ninguém para o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Pre-cisa desenhar? Se você que está lendo esse texto agora, acha que isso que estou falando é bobagem, que lugar da mulher é na cozinha, ou que direitos humanos é coisa para defender bandido, coloque sua alienação no saco e vá refletir sobre o presente e o futuro que você quer para suas filhas e netas.

Estamos em 2016, século XXI e somos mais de 50% da população. Posso usar um exemplo rasteiro e simples para explicar qual a importância da presença feminina nos espaços de poder. Quando você vai ao supermercado, e leva seu filho ou filha junto, de cinco anos, eles opinam sobre o que querem comer? Ou no cinema, sobre o que querem assistir? Sim. Opinam e são atendidos. Porque isso é respeito. Isso é dar espaço. Entretanto, algo tão simples não é seguido nos espaços políticos do país, com relação à presença feminina, que cor-responde apenas a 10% do parlamento, embora sejamos 74 milhões de votos.

E mesmo que essas mulheres que ocupam os espaços, eminentemente masculinos, reflitam os conceitos machistas, ainda assim defenderei a presença delas nesses na esfera política. Porque sei que é um processo lento e que exige paciência a conquista pela igualdade de direitos. E infelizmente muitas mulheres ainda não entenderam sua importância e papel na luta por esses direitos. E essa minha “cantiga de grilo” só vai aca-bar no dia em que os jornais, revistas e televisões não repe-tirem dados ano a ano – geralmente no dia 8 de março antes da distribuição de flores - que as mulheres são maioria, mas ganham menos nos trabalhos, são mais responsáveis – e cobradas - por tarefas domésticas e por aí vai.

A estrutura conservadora tende a ridicularizar ou intimidar o que o feminismo representa. Mulher no poder deve ter “pele de rinoceronte” ou então se contentar em ser parte da decoração que embeleza a sala. Nem uma coisa nem outra. Chega de clubes fechados. Esse dia vai chegar.


Texto publicado ontem no Novo Jornal