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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Pequenos fragmentos do cotidiano e outras distrações



Comprei uma roseira no supermercado. Não foi muito barato. Mas as oito flores rosadas e vistosas me convenceram de que valia o investimento. A coloquei num vaso maior, ao lado das outras do meu pequeno jardim de calçada. Tenho vermelhas, amarelas, rosadas. A grama "orelha de rato" está crescendo em volta de um vaso abandonado. E a minha maravilha, cujas rosas vermelhas nasciam para baixo, se desmaravilhou do mundo e morreu. Há quem acredite que foi muita água. Eu acho que foi um certo despeito das outras. Vai saber.

Dona Dulcineia esteve aqui em casa hoje. Veio sozinha, sem o Dom Quijote. Acho que essa Dulcineia nunca foi de cair na lábia de um Dom Quijote. Comeu bolo. Tomou café. Depois suco. E não parou de falar. Acho que ela gostou de ver onde o filho mora. Ela é uma dessas fortalezas que a natureza constrói. Oitenta e quatro anos. Mora só. Tem uma gata que não gosta de tomar banho. Anda esquecida das coisas. Entrecorta o que estava falando num outro assunto, depois não sabe mais o caminho de volta. Mas essa pequena falha da vida instantânela está longe de destruir as paredes rochosas de sua memória. Principalmente aquelas que realmente importam e que ela guarda dentro dos seus silêncios.

Hoje o Noel (Rosa) veio à minha casa. Ele deve ter umas cinco semanas, a contar pelas orelhas que já se estruturam acima da cabeça. Quando resolvi examiná-lo me deu uma mordida no dedo. Ainda lateja. Principalmente a empatia instantânea que um gato é capaz de me inspirar. Espero que ele tenha uma vida plena e cheia de amor. E terá. Nem que tenha começado com um atraso de cinco semanas. Muitos anos virão para ele compensar os primeiros perrengues do abandono das ruas. Acharam-no no lixo, junto com o irmão. Dessa vez deu tudo certo.

Desde que me mudei, perdi a familiaridade com os livros nas prateleiras. Eu os procuro e não os encontro. Acho que organizei demais. Perdi o tato da lembrança. Os de comunicação estão próximos dos de Biografias. Os de poema e poesia estão empilhados num só lugar. Os de leitura portuguesa, idem. No entanto, não os percebo com a rapidez de outros cantos. Passo os olhos e não os vejo. Já encontrei Clarice despedaçada em vários pontos do escritório. E não encontro Adélia Prado. Isso me dói. Mas aí eu sinto o vento que sopra da janela, respiro fundo e juro para mim mesma que essa é uma falha que eu posso consertar, com o tempo amigo. 

Deveria estar estudando para um seminário sobre o Discurso do Desejo na Interpretação dos Sonhos. "(...) todo homem possui essa capacidade estética, e, especificamente dramática que é a de sonhar", encontro em Borges (Borges/Osvaldo Ferrari - hedra - p 156). Distraio-me de Freud e busco na literatura a fuga necessária para sobreviver a um dia que de tão comum e normal, foi absolutamente extraordinário.


domingo, 14 de fevereiro de 2016

Tenho dito




Falamos muito em intolerância nos dias atuais. Fato. Mas, tenho pensado que também vivemos num mundo de tolerâncias. Aquelas convenientes que dançam na ciranda do "deixa isso pra lá" ou do medo de ser chato. Mas eu, uma chata convicta, atrevo-me a falar dessas tolerâncias. Estávamos eu e meu amigo Crico - Cristiano Félix, que escreve também nesse jornal - comentando que era provável que só eu e ele (no mundo) falássemos "meus óculos". Mas nós falamos assim porque é assim que se deve falar (e escrever). Aquele objeto com duas lentes que usamos diante dos olhos - seja para reparar defeito de fabricação na acuidade visual, seja para dar um "tapa" no visu ou para esconder uma noite mal-dormida - é um substantivo masculino plural. Portanto, não é correto afirmar "meu óculo"; sim, "meus óculos". Mas, a turma do "deixa disso", não gosta de ser corrigida. E eu que me vire com a minha intolerância ao erro movido pela preguiça ou pela falta de atenção às aulas de português dos outros.

E já que eu decidi falar sobre esses errinhos bestas e estou no segundo parágrafo, também quero dizer para vocês que "mim" não faz nada. Mim é um pronome oblíquo e só deve ser utilizado após preposições. Tipo: "entre mim e você tem de haver entendimento". Quem faz, quem age, quem conjuga sou eu, você, os outros. Pessoas. Pra mim andar, pra mim falar, pra mim escrever, pra mim errar, não é legal minha gente. Nesse momento se alguém estiver querendo me calar, o correto seria escrever assim: "A moça disse para eu calar a boca". "Mim" não cala a boca, porque "mim" não tem boca.

Outro pronome relativo mal empregado que me faz patinar deprimida na tolerância, para não dar um capilé na ignorância alheia é ouvir e ler gente falando "onde", quando não há noção de lugar. É tão difícil pra mim que nem consigo formular um exemplo com facilidade. Mas seria mais ou menos assim: "Esse tema é tão delicado, onde as pessoas geralmente entram em conflito". Tá errado. Tema não é lugar. E quando não há lugar, não se usa onde, sacou? 

Mas, tem coisa pior que português ruim, que é rima barata. Mas isso seria assunto para outro artigo. Eu não tenho nada a dizer para quem defende que o importante é ser entendido. Não sou teórica da linguagem. Sou somente uma moça que aprendeu a ler aos quatro anos, primeiro inventando os diálogos e depois juntando as letrinhas nos gibis e, desde então, tenho um apreço danado pelo vernáculo e um respeito profundo aos meus professores e às regras da minha língua mãe. E tenho dito. Mas sei que não vou mudar o mundo. Só continuarei chata.