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domingo, 27 de março de 2016

Matéria para compor sonhos



Fotos: Sheyla Azevedo



A importância das coisas não se mede com fita métrica ou aparelho de pressão. As coisas só são importantes mesmo quando dobram as nossas esquinas e nos percorrem por dentro, a quem damos o nome de emoção. Só é realmente importante o que nos toca, nos emociona e nos faz ver um algo mais. Era assim com o circo da nossa infância. O que poderia ser mais importante para a gente naquela época? A altura de uma pedra que arranca o chaboque dos nossos dedos ou a altura da Torre Eiffel? Éramos uma turma de uns nove meninos e meninas quase todos da mesma idade e uma ideia fixa na cabeça: montar um circo. Nossos pais chamavam aquilo de "invenção". Tudo bem. Não tínhamos inclinações para certezas científicas ou grandes cálculos matemáticos mas, naquela hora, éramos inventores. 

Havia passado um circo na nossa cidade por aqueles dias e, quando foi embora, nos deixou uma sensação de que era preciso fazer alguma coisa para não deixar o riso e o encanto tomarem a estrada também, deixando a cidade vazia de espantos e gargalhadas. Um se encarregaria de conseguir os lençois. Na verdade, pensando bem agora, não tínhamos a menor pretensão de montar uma lona, mas queríamos lençois circundando o local da apresentação: um beco entre a minha casa e a casa de uma outra menina, para tentar reproduzir aquele envoltório mágico dos panos do circo na nossa pequena caixa de magia improvisada. 

Teco começou a treinar em cima dos fios mais baixos da cerca, imaginando-se o equilibrista do circo. Zuca queria ficar na bilheteria porque tinha jeito com negócios e vivia nos emprestando dinheiro para comprar grapete na escola. A cachorrinha Biloca, de um dos amigos, começou a ser treinada para apresentar o grande feito de comer bolachas jogadas no ar. Dida, era a mais bonita, então seria a bailarina. Chico de Lola queria tocar guitarra na abertura da grande noite, mas não tinha nem um violão de brinquedo. E todos nós queríamos ser palhaços. Faríamos uma grande apresentação no final, um número - que seria pensado e escrito por mim - para que todos pudéssemos entrar no picadeiro com a cara pintada e roupas coloridas. Éramos crianças experimentando todos os lados da nossa imaginação, da nossa infância: a pasta de dente virou maquiagem; o pijama e os sapatos grandes do pai se transformaram em adornos do palhaço. Nossos olhos eram uma constelação de encantamentos e o sol sentiria inveja do calor da nossa empolgação. O circo teve duas apresentações e nós - artistas - também éramos o respeitável público. Tudo meio bagunçado mesmo, com poucos ensaios, cada um fazendo do seu jeito e sendo devidamente respeitado e apreciado em seu momento no picadeiro.

Depois daquela experiência, voltamos às nossas vidas e outros circos e os mesmos voltaram a nos visitar. Quem conhece a magia do circo sabe do que estou falando. É um tipo de importância que nos frequenta mesmo depois de não estar mais lá. É uma emoção que afaga. Uma admiração que nos abre os olhos para as "quixotices" dos que vivem mambembeando por aqui e acolá. O circo, seja ele grandioso ou pequeno e surrado, nos desperta um moleque disposto a aprender a se achar, a se descobrir, a olhar a vida e acreditar que essa magia de que tanto falam realmente é palpável e se mimetiza num sorriso, no coração que acelera pelo salto mortal, na piada de duplo sentido que agrada às crianças pela inocência e aos adultos pela falta dela.

O circo da minha infância é matéria que compõe meus sonhos. Até hoje.
O circo, com sua música, seu teatro e sua dança, traz essa crença de que podemos ir além e, através da arte, chegar mais perto daquilo que não ouso dizer o nome. Foi assim na China, no Egito, no Japão, na Grécia, muitos anos antes de aquela turminha de nove meninos e meninas descobrirem a importância das coisas.


Esse texto foi escrito a convite do meu amigo José Correia, editor do Caravela Selo Cultural, organizador desse livro que faz um panorama da história atual do circo no Estado. O livro é uma compilação de diversas matérias que tive a honra de editar, realizada por diversos profissionais do jornalismo, e foi feito com tanto carinho que a Funarte patrocinou a segunda edição que foi lançada ano passado. A primeira foi abraçada pela Fundação José Augusto. 

3 comentários:

Débora Oliveira disse...

Sempre que passo lá no Café Salão fico namorando esse livro. Em breve espero adquiri-lo e vai ter um sabor todo diferente sabendo que vc foi a editora dele. :)
Beijo

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

Circo é sempre circo, Mme. Shangai, seja de lona mais surrada ou com bailarinas cobertas de lantejoulas brilhantes. É mágico. E mágica também sua história de circo.

Mme. S. disse...

Débora, é um livro muito legal. Vale à pena ter até mesmo para consulta. Temos uma matéria com o palhaço Facilita, dentre outros circos pequeninos. É um material bem vasto.


Nika, foi um prazer tão grande rememorar essa estória que eu contei na apresentação, porque a magia do circo ficou realmente na gente naquela época.