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segunda-feira, 28 de março de 2016

Orelha com vírgulas







"Certa vez, há muito tempo, Adriano me disse entremeio aos silêncios: "pode não parecer, diante de toda essa calmaria, mas eu implodo". E seguiu com seu rosto bonito e sereno que, de vez em quando, enrubesce demonstrando a timidez que se revela selvagem e involuntária. Mais de duas décadas depois, me chega às mãos a rebentação dessa implosão interna. Uma chuva fluida e emissária de suas palavras. Matéria de um homem que desde cedo tornou-se consciente da poesia e dos seus efeitos, no profundo e na superfície.

Durante um tempo me pareceu insano alguém que poderia cultivar um jardim, deixar o terreno intato. Ledo engano. Adriano nunca estivera ausente do seu fardo. Não negara sua formação. Cultivava rosas e girassóis pela estrada, em segredo. Formado em Medicina pela UFRN desde 1999, com Especialização em Psiquiatria em 2002, pela Escola de Saúde Pública do Ceará, atualmente coordenador de Saúde Mental do Estado, professor do curso de Medicina da UnP e psiquiatra assistente do Centro de Atenção Psicossocial, Álcool e outras Drogas (Caps) da Zona Norte de Natal, Adriano deu um jeito de cruzar esses caminhos, levando arte e literatura para seus pacientes. Um jardineiro plantando no insólito, e livre, solo dos que atravessam as margens da razão. Ele, um moço que implode, mas que não inibe sua razão emocionada pela vida, pelo outro e pelos tantos "eus" que nos habitam.

O Mundo que me Cabe é só o começo. Moram nesse livro estilhaços de uma coragem de trazer à tona palavras decantadas de vários tempos e mundos que fazem dele o que é e sempre será. Fragmentos de pedras, dores, pétalas, lembranças, amores e outra sorte de coisas que para alguns são só um estado de vivência. Mas, para os poetas, são o que atormenta e ao mesmo tempo ampara".


Escrevi a orelha (o porquê do título é que eu havia mando a primeira vez para o editor sem vírgulas...kkkk) do livro "O mundo que me cabe", do poeta por primeiro, e médico psiquiatra Adriano Araújo. Foi uma honra para mim porque o admiro a longa data e quando éramos adolescentes Adriano já escrevia muito bem. O livro é uma edição do Caravela Selo Cultural. 

2 comentários:

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

Belíssima orelha, Mme. Shangai. Quando eu for uma escritora, voc^vai "orelhar" meu livro. Aceita?

Mme. S. disse...

Nika, minha diva, "orelho" com muito prazer! Aaaafff