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quarta-feira, 27 de abril de 2016

#não nos representa




Juliana está saindo com dois caras. Aparecida não faz as sobrancelhas. Kátia cria dois filhos sozinha. Branca tomou um porre e dançou em cima da mesa e beijou na boca do barman. Dalva paga um dobrado - literalmente - para conseguir esticar o dinheiro no supermercado, com tudo mais caro, a contar pelo oportunismo dos que aumentam o preço e botam a culpa na crise. Benditas sejam as moças que não fazem questão de serem belas, recatadas e do lar. Benditos sejam os homens que não sejam tão apagados e insossos a ponto de precisarem da sombra de uma mulher com adjetivos tão medonhos e antigos quanto esses para parecerem pessoas melhores.

Seria hipócrita se afirmasse que não acho estranho um casamento entre duas pessoas com diferenças de idade tão gritantes. Mais de 40 anos! Mas, enfim, não tenho também o direito de julgar os sentimentos ou as razões que levam as pessoas a ficarem juntas. Mas não estou aqui para fazer uma ode ao amor. E sim às mulheres contemporâneas. Àquelas que trabalham fora, que pagam suas contas, que decidem o que querem fazer de suas vidas, e isso inclui abolir determinados padrões burgueses de classificação de "bela, recatada e do lar". Aquelas também que decidem ficar em casa e cumprir uma das mais árduas missões e, comumente, sem remuneração, que é cuidar da casa. 

Desde a semana passada, sempre que leio ou ouço esse que virou o bordão e a chacota nacional contra a insípida tentativa da revista Veja de colocar a moçoila Marcela Temer como alternativa de primeira dama para o Brasil, me vem à cabeça um palavrão como resposta. Estamos no mercado de trabalho há pelo menos umas quatro décadas no país. Mas ainda temos muito o que conquistar, é fato. Não foi fácil a caminhada para chegarmos ao direito de termos o centésimo namorado, ou a namorada. Para optarmos por não ter filhos, ter filhos sem marido ou manter uma família com pai, mãe e filhos, biológicos ou não. Nossos corpos nos pertencem? Então deixa em paz quem quer deixar os pelos das axilas à mostra, o sutiã vermelho com a blusa azul, os fios de cabelo branco sem tintura.

Mas, se estamos falando de status masculino que precisa de uma mulher bem mais jovem para demonstrar poder e sustentar o status quo de machão; se um homem sem graça, com pecha de traidor para um pedaço significativo do povo brasileiro precisa usar a imagem da esposa "bela e recatada (custo a acreditar nesses termos, embora tenha profundo respeito pelas mulheres que tomam conta de suas casas e são reduzidas a "do lar"), vai catar coquinho que esse modelo que coloca a mulher à sombra de um homem não cola,  esse modelo não nos representa.

publicado ontem no Novo Jornal

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Plano B



Eu lia folhetins como Júlia e Bianca e livros como Fernão Capelo Gaivota e O Pequeno Príncipe lá no interior onde morava. Quando vim estudar em Natal, umas das minhas primeiras aventuras foi conhecer a (finada) Biblioteca Câmara Cascudo. O primeiro livro que eu peguei foi Feliz Ano Velho e já fazia parte da minha segunda chance como leitora contumaz. Enfim, em se tratando do tema literatura, estava diante do primeiro Plano B da minha vida. Eu poderia ter ficado no interior e lido até então livros de leitura fácil, recheados de clichês e receitas de auto-ajuda. Mas aí, a vida me deu essa oportunidade. Graças à acolhida na casa dos meus tios eu pude conhecer a Biblioteca e, depois, de estudar na Escola Técnica e encontrar os amigos mais bacanas e inteligentes que alguém teria a sorte de conhecer e de ter feito parte do Sótão 277, no início dos anos 1990. Um misto de movimento literário, performático, conceitual e de formação artística e humanística que os resquícios até hoje. Enquanto a galera da nossa idade estava preocupada em usar tenis redley, usar perfume giovanna baby e ir para festas americanas, a gente tava lendo os clássicos, os beatniks, escrevendo poesia, ouvindo rock´n´roll e "desbundando". Coloquei entre aspas porque não era um desbunde a la woodstock, mas a gente desbundava como podia.

Quem é jornalista sabe do que estou falando. Não somos como, por exemplo, médicos ortopedistas que fazem carreiras brilhantes cirurgiando mãos de pianistas e carpinteiros. Felizes em suas carreiras, sem pensar em plano B. O trabalho de jornalista é árduo, sem glamour, muitas vezes somos meros joguetes nas mãos dos interesses econômicos e políticos e, às vezes, cometemos a mais ingênua das certezas: de que sabemos das coisas ou de que não estamos sendo usados. Todo jornalista se que preze, pelo menos nos últimos 20 anos, tem que ter um Plano B. E reflete sobre não ter decidido por arquitetura ou psicologia. Alguns até fazem outros cursos e tomam outros caminhos e viram advogados, chefes de cozinha, jardineiros.

Eu mesma já passei por vários momentos de busca por um plano B. O mais estapafúrdio deles é de um dia fazer um teste para um papel num filme e o diretor perceber em mim o talento que nem eu mesma sabia que tinha. Em tempos de startups, as pessoas têm pressa. O foco não é mais na trajetória, ou nas tentativas de acerto e aprendizado com os erros, o foco é no sucesso imediato e nos 20 mil de salário mensal. E haja plano B para lidar com tantas frustrações, porque no meio da boiada, são poucos os que conseguem furar a cerca e alcançar o sonhado pasto verdejante, muito mais fantasioso que real. Talvez porque o plano B seja aprender a arar a terra, plantar as sementes certas e ter, sobretudo, paciência.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

As mentiras nossas de cada dia



De um modo geral, sentimos vergonha de admitir que mentimos para os outros. Mas o fazemos mesmo assim. Tão ruim quanto, é quando mentimos para nós mesmos. De uns tempos para cá, o cigarro tem me feito muito mais mal que me dado o prazer das tragadas. Morro de inveja dos fumantes que engolem a fu-maça como se fosse pão quente. Eu me sinto cansada, fedorenta e acordo com dor de cabeça. Então, fumar não é uma coisa boa pra mim. Mesmo assim, quando bate a fis-sura, eu penso, só um, não vai fazer tanto mal. E continuo me sentindo cansada, fedorenta e sabendo que posso acor-dar com dor de cabeça.

Alguém já disse estar de dieta e comeu cartola, brigadeiro, pizza, picanha, filé à parmegianna e diz "não, é só por hoje". Perde duzentas calorias na esteira ou no spinning e corre para um fast food para se "premiar" pelos esforços. Quem nunca? Tem aquela outra também, a pessoa está cheia de coisas para estudar, daí cancela todos os compromissos e convites para sair ou bater um papo com amigos e senta na frente do computa-dor, passa 40 minutos no facebook - bisbilhotando a vida dos outros, às vezes de gente que nem conhece - e 20 minutos lendo a apostila. Então fica com a "vista cansada" e desiste de estudar por hoje. Sei.

No campo da políticas nacional também vivemos uma grande mentira no momento. Um dos maiores escroques, crápulas e chantagistas que o Brasil já teve sentado à direita da direita do Congresso Nacional, chamado Eduardo Cunha, comanda um processo de impedimento, cujo principal argumento é o de combater a corrupção da presidenta e seu partido. De concreto não encontram nada contra ela. En-quanto Cunha tem pelo menos 22 processos no Supremo Tribunal Federal; faz manobras visíveis para aprovar e conduzir a Câmara dos Deputados a seu bel prazer, e conta com a a ajuda de jornalões e revistas que representam a direita e que sempre se locupletaram com a ausência de democracia no nosso país. No entanto, mesmo correndo sé-rios riscos de sermos comandados por esse notório mau caráter e ladrão do dinheiro público, ainda há quem brade pela legitimidade dessa manobra.

Para finalizar, tem aquela mentira de adiantarmos o relógio em 15 minutos para dormirmos um pouco mais ou não chegarmos atrasados nos compromissos. Mas, quem faz isso, jamais esquece que o relógio está adiantado 15 minutos e termina por se aproveitar desses minutos para se atrasar. Vai entender né? Mas, tomara que usemos nossos auto-enganos apenas para nos atrasar nos compromissos e que não os usemos para atrasar nosso país em anos e décadas de lutas e conquista de direitos.

Texto publicado originalmente no Novo Jornal

terça-feira, 5 de abril de 2016

Um conto de Borges

Foto: minha 


Faz muito tempo que li pela primeira vez "Emma Zunz", um conto de O Aleph (1949), de Jorge Luís Borges. Desde então, vez por outra, caem sobre meus pensamentos imagens e ações contidas naquela estória. Os motivos, a trama, o desfecho elegantemente construído pelo autor. O que é dito e, sobretudo, o que não é dito explicitamente, compondo um labirinto rico da natureza humana. "No dia 14 de janeiro de 1922, Emma Zunz, ao voltar do local de trabalho, a fábrica de tecidos Tarbuch e Loewenthal, encontrou no fundo do vestíbulo uma carta, datada do Brasil, pela qual soube que seu pai tinha morrido". Assim começa o conto.

Emma não teve muito contato com seu pai por circunstâncias de que ele fora acusado de um crime no trabalho - que não cometera - e, por isso, teve de fugir da Argentina, deixando a família para trás. Anos depois, ao receber a carta em que lê que o pai havia ingerido "por engano" uma grande dose de barbitúrico, Emma recorda os dias de felicidade, a antiga casa onde morava, a mãe ainda viva, a acusação, a fuga, a jura de inocência, a  revelação de quem seria o verdadeiro responsável pelo desfalque. Informação que ela guardou somente para si e jamais revelou a qualquer pessoa. A partir dessa informação, a personagem tímida e quase despercebida pelos outros começa a arquitetar um plano de vingança acalentado pela dor do suicídio do pai e por um senso de oportunidade.

É isso. A estória é sobre vingança. E como uma moça, aparentemente pacata e ordeira, planeja a morte do verdadeiro culpado do crime que levou seu pai ao destino de isolamento físico e, depois, espiritual. O que mais me impressiona e sempre volta à tona nos meus pensamentos é a legitimação dessa atitude, a princípio, rechaçada pela sociedade. Vingança é uma palavra feia; é uma atitude conectada ao despeito e à represália. No entanto, nesse caso específico, a vingança é fortemente agarrada ao sentimento de justiça e de acerto de contas.

"Narrar com alguma realidade os fatos dessa tarde seria difícil e talvez improcedente. Um atributo do infernal é a irrealidade, um atributo que parece diminuir seus terrores e que talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação na qual quase não acreditou quem executava, como recuperar esse breve caos que hoje a memória de Emma repudia e confunde?". Borges tem uma narrativa absolutamente certeira dentro da desordem inerente aos pensamentos humanos. Dúvidas e certezas andando de mãos dadas. É comum ele usar nomes verdadeiros em situações inventadas, ou o contrário. Emma Zuns mudou minha forma de ver o ódio e o desejo de vingança. Ela está certa ou errada? Não cabe a mim essa resposta. É a literatura permitindo-nos o complexo exercício da existência humana.

Publicado também no Novo Jornal nessa terça, 5 de abril

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Humanidade




Ando sensível por esses dias. Choro fácil. Quando me sinto assim, com essa vulnerabilidade ao toque do vento, mergulho fundo. Para ver até onde vai me levar esse labirinto de sentimentos que tanto me torna quem sou, quanto me leva a ser menos eu e pensar mais na vida dos outros. Não que precisemos negar nada de nossas vidas, até mesmo quando as coisas tristes têm um peso maior que os nacos de doçura. Mas, tirar os olhos do próprio umbigo, ter empatia com os outros, sobretudo em momentos difíceis, nos deixa menos ocupados com nossas dores.

Pois bem, eu falava em mergulho profundo. E se é para chorar, botar pra fora sentimentos indizíveis e desidratar a membrana ocular então procuro um filme. Não estou falando de Armagedon, Menina de Ouro ou Diários de uma Paixão, porque se for para ir por esse caminho, melhor descascar cebola. E já assisti umas 20 vezes, "A felicidade não se compra" (Frank Capra - 1946) escolhi, por esses dias, "O Aluno", que também pode ser encontrado como "Uma lição de vida", de Justin Chadwick, que se baseia na história real de Kimani Ng'ang'a Maruge (1920–2009), um ancião queniano que aos 84 anos quer aprender a ler. Problema é que onde ele mora só tem uma escola primária, onde das 50 vagas oficiais, já existem 200 crianças em idade escolar tentando aprender a língua dos colonizadores ingleses. Maruge quer ler porque recebeu uma carta dos ingleses.

Ele é um desses personagens que transpira dignidade. Guerreiro da tribo Mau Mau que travou uma brava batalha contra os ingleses - uma das responsáveis pelo processo de libertação do Quênia, Maruge não consegue ouvir direito e teve dedos arrancados pelos torturadores. Mas não fora isso a pior coisa que lhe aconteceu. Viu mulher e filhos serem assassinados. Mais um motivo para chorar bicas no filme é a relação que se estabelece entre ele e a professora Jane, que enfrenta resistência da comunidade, dos chefes e até do Ministério da Educação para ensinar a ler o velho e nobre guerreiro.

Não dá para negar que o diretor carrega nas tintas. É realmente um filme para chorar. Mas é um filme - que leva à reflexão de sentimentos e ações nobres. Luta pela liberdade, dignidade, solidariedade, educação e respeito são alguns motes trabalhados na película que dá para serem transportados para nosso cotidiano. Para repensarmos sobre nossas reais dificuldades e sobre quem são e como vivem os outros, mesmo que distantes da gente, as pessoas têm conexões absolutamente contundentes e, ao mesmo tempo, sujeitas à vulnerabilidade. Sorrir, chorar, sentir fome, sermos respeitados e livres são condições que fazem parte da nossa humanidade, dessa presente na vida e nos filmes e que jorram dos nossos olhos para nos lembrar de quem somos.