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terça-feira, 5 de abril de 2016

Um conto de Borges

Foto: minha 


Faz muito tempo que li pela primeira vez "Emma Zunz", um conto de O Aleph (1949), de Jorge Luís Borges. Desde então, vez por outra, caem sobre meus pensamentos imagens e ações contidas naquela estória. Os motivos, a trama, o desfecho elegantemente construído pelo autor. O que é dito e, sobretudo, o que não é dito explicitamente, compondo um labirinto rico da natureza humana. "No dia 14 de janeiro de 1922, Emma Zunz, ao voltar do local de trabalho, a fábrica de tecidos Tarbuch e Loewenthal, encontrou no fundo do vestíbulo uma carta, datada do Brasil, pela qual soube que seu pai tinha morrido". Assim começa o conto.

Emma não teve muito contato com seu pai por circunstâncias de que ele fora acusado de um crime no trabalho - que não cometera - e, por isso, teve de fugir da Argentina, deixando a família para trás. Anos depois, ao receber a carta em que lê que o pai havia ingerido "por engano" uma grande dose de barbitúrico, Emma recorda os dias de felicidade, a antiga casa onde morava, a mãe ainda viva, a acusação, a fuga, a jura de inocência, a  revelação de quem seria o verdadeiro responsável pelo desfalque. Informação que ela guardou somente para si e jamais revelou a qualquer pessoa. A partir dessa informação, a personagem tímida e quase despercebida pelos outros começa a arquitetar um plano de vingança acalentado pela dor do suicídio do pai e por um senso de oportunidade.

É isso. A estória é sobre vingança. E como uma moça, aparentemente pacata e ordeira, planeja a morte do verdadeiro culpado do crime que levou seu pai ao destino de isolamento físico e, depois, espiritual. O que mais me impressiona e sempre volta à tona nos meus pensamentos é a legitimação dessa atitude, a princípio, rechaçada pela sociedade. Vingança é uma palavra feia; é uma atitude conectada ao despeito e à represália. No entanto, nesse caso específico, a vingança é fortemente agarrada ao sentimento de justiça e de acerto de contas.

"Narrar com alguma realidade os fatos dessa tarde seria difícil e talvez improcedente. Um atributo do infernal é a irrealidade, um atributo que parece diminuir seus terrores e que talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação na qual quase não acreditou quem executava, como recuperar esse breve caos que hoje a memória de Emma repudia e confunde?". Borges tem uma narrativa absolutamente certeira dentro da desordem inerente aos pensamentos humanos. Dúvidas e certezas andando de mãos dadas. É comum ele usar nomes verdadeiros em situações inventadas, ou o contrário. Emma Zuns mudou minha forma de ver o ódio e o desejo de vingança. Ela está certa ou errada? Não cabe a mim essa resposta. É a literatura permitindo-nos o complexo exercício da existência humana.

Publicado também no Novo Jornal nessa terça, 5 de abril

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