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domingo, 22 de maio de 2016

O sexo dos anjos não é da sua conta



Reprodução de Henri de Toulouse-Lautrec


Sou casada. Gosto do borogodó. Ponto final. No meio do pátio, às vezes, eu e ele nos abraçamos, nos beijamos, namoramos como adolescentes no meio da praça. Até agora não recebemos qualquer notificação condominial pelos nossos carinhos explícitos no meio do jardim, dividido com os outros condôminos. Normal né? Então, por que não é normal o carinho, o namoro, o beijo entre iguais? Digo, entre pessoas do mesmo sexo. Confesso que quando vi a primeira vez dois amigos se beijando, senti uma espécide de felicidade envergonhada, primeiro porque eu nunca tinha visto dois homens se beijando, segundo, porque era absolutamente normal e não cabia ali qualquer sentimento de repulsa, nojo ou estranhamento.

Minha mãe foi assistir ao filme do Cazuza comigo no cinema. Saiu de lá embevecida com as cenas de beijos. Acho que foi a primeira vez dela em ver beijos entre iguais. Embora não tenha sido ao vivo, provavelmente ela percebeu a mesma coisa: que era somente duas pessoas se beijando. Somos os únicos seres a "sexualizar" a boca. Nenhum outro animal tem esse aparelho constituído especificamente para a nutrição como uma zona erógena. Os bororos parecem que praticam orgias, entretanto, não rola beijo. Usar a boca para esse fim é coisa de humanos. Assim como também é coisa de humano desenvolver sua sexualidade em diversas maneiras e de forma absolutamente individual. Por que o amor do outro incomoda? Por que existem regras para o que está indubitavelmente no campo do desejo? E, sendo assim, não tem regras, não tem jeito certo ou errado, nem cabresto que segure. Se houver, podem ficar claros os rastros profundos de frustração e angústia.

Se eu começasse esse texto assim: Sou casada. Com uma mulher. Ela tem o melhor beijo que existe na face da terra. Onde estaria o erro? A menos que ela me batesse, me magoasse, abusasse de mim ou me extorquisse - sem o meu consentimento - existiria algum erro. O amor não tem cor definida, nem forma, nem sexo. Muitos dos heterozinhos - homens e mulheres - que fazem carinha de nojo ou chistes sobre a homossexualidade estão loucos por dentro para experimentar. Só não têm coragem de encarar o desejo que os anima por dentro, que poderia até trazer algum sentido para suas vidinhas insossas de "papai e mamãe" nas quintas-feiras. Há também o inverso, não nos enganemos. Conheço alguns homossexuais que fazem questão de ojerizar a genitália que não é igual. Como se rejeitar e ridicularizar o que não é espelho fosse uma forma de compensar o muro de rejeição da sociedade pelas suas orientações, pelos caminhos do seu desejo. 

Na boa, gente bem resolvida com o que quer e o que gosta não pega no pé do outro. Gente bem resolvida goza e quer que os outros gozem também. Como será, aí é com cada um. Ninguém tem nada a ver com isso.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Clube do Bolinha



Desde semana passada, quando o presidente golpista em exercício assumiu o comando do Brasil, muito tem se falado sobre o fato de que só homens brancos assumiram as cadeiras dos ministérios. Não me surpreende. Depois da matéria na revista exaltando os dotes de sua esposa 40 anos mais jovem, "bela, recatada e do lar", alguém duvida de como pensa esse Governo? 

Em se tratando de presença feminina no parlamento ocupamos o 155º lugar no ranking de 185 países. Dados da Uni-ão Interparlamentar (IPU), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo eles, temos a pior posição na América Latina. O Executivo não está refletindo uma nova realidade. Pelo contrário, ele retrocede em não dar espaço algum à mulher. E vai além, ele não nomeou ninguém para o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Pre-cisa desenhar? Se você que está lendo esse texto agora, acha que isso que estou falando é bobagem, que lugar da mulher é na cozinha, ou que direitos humanos é coisa para defender bandido, coloque sua alienação no saco e vá refletir sobre o presente e o futuro que você quer para suas filhas e netas.

Estamos em 2016, século XXI e somos mais de 50% da população. Posso usar um exemplo rasteiro e simples para explicar qual a importância da presença feminina nos espaços de poder. Quando você vai ao supermercado, e leva seu filho ou filha junto, de cinco anos, eles opinam sobre o que querem comer? Ou no cinema, sobre o que querem assistir? Sim. Opinam e são atendidos. Porque isso é respeito. Isso é dar espaço. Entretanto, algo tão simples não é seguido nos espaços políticos do país, com relação à presença feminina, que cor-responde apenas a 10% do parlamento, embora sejamos 74 milhões de votos.

E mesmo que essas mulheres que ocupam os espaços, eminentemente masculinos, reflitam os conceitos machistas, ainda assim defenderei a presença delas nesses na esfera política. Porque sei que é um processo lento e que exige paciência a conquista pela igualdade de direitos. E infelizmente muitas mulheres ainda não entenderam sua importância e papel na luta por esses direitos. E essa minha “cantiga de grilo” só vai aca-bar no dia em que os jornais, revistas e televisões não repe-tirem dados ano a ano – geralmente no dia 8 de março antes da distribuição de flores - que as mulheres são maioria, mas ganham menos nos trabalhos, são mais responsáveis – e cobradas - por tarefas domésticas e por aí vai.

A estrutura conservadora tende a ridicularizar ou intimidar o que o feminismo representa. Mulher no poder deve ter “pele de rinoceronte” ou então se contentar em ser parte da decoração que embeleza a sala. Nem uma coisa nem outra. Chega de clubes fechados. Esse dia vai chegar.


Texto publicado ontem no Novo Jornal

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A imagem amarga do retrocesso



Dentro da casa da gente quem manda é a gente, correto? Entra quem queremos, senta no sofá somente amigos e por aí vai. Entretanto, em se tratando da programação televisiva brasileira, há muito ainda o que se avançar. Estamos longe de sermos "donos" da programação, ou pelo menos respeitados pelo que assistimos e, principalmente, nossas crianças e adolescentes. Somos obrigados a engolir verdadeiras aberrações éticas, juízes e torturadores travestidos de jornalistas falando o que bem entendem e condenando pessoas antes da Justiça, dentre outros desvios. A classificação indicativa ao menos obrigou as TVs a informar sobre o conteúdo dos programas antes de sua veiculação.

“Não se engane, tem coisas que o seu filho não está preparado para ver”, é o que alerta uma campanha da Secretaria Nacional de Justiça, do Ministério da Justiça, diante de mais uma manobra das televisões brasileiras - que são concessões públicas - e que querem acabar com as multas pelo descumprimento da Classificação Indicativa, conquistada desde 2006. Países como França, Estados Unidos e Canadá já respeitam a classificação indicativa. Mas a emissoras brasileiras moveram uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 2.404 no Supremo Tribunal Federal (STF) para acabar com essa regra. Próxima quinta-feira, 12, haverá a votação dos ministros sobre a pauta. A questão é, ficaremos de braços cruzados sobre o que os programas de televisão impõem aos nossos filhos ou vamos nos posicionar?

Precisamos pensar sobre a responsabilidade de criar, orientar e proteger as crianças do nosso país e isso passa pelo que elas assistem em casa, sobretudo longe dos pais, muitas vezes ocupados, em seus trabalhos fora o dia todo. A alegação de que a Classificação Indicativa esbarra na liberdade de expressão cai por terra, quando essa liberdade viola direitos, sobretudo os da infância. Sem a regra, as televisões cruzarão os braços diante da responsabilidade de veicular em horários impróprios, conteúdos de sexo e violência, temática que tem seu tempo e espaço na vida de cada um de nós. E, definitivamente, precisamos pensar sobre o desenvolvimento infantil e que ele aconteça sem atropelos ou estímulos externos que possam traumatizar muito mais que educar.

Na página no Facebook Programa Adulto em Horário Adulto é possível ler a assistir depoimentos que esclarecem a temática e conclama pais, mães, cidadãs e cidadãos a se posicionarem e não permitirem retrocessos na legislação que protege crianças e adolescentes. Educação é um fruto que se cultiva em casa, mas o gosto doce ou amargo desse fruto é responsabilidade da família, do Estado e da sociedade.

Publicado na terça, no Novo Jornal