Google+ Followers

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Depois das gérberas


Eu era do tipo que deixava a carne para comer no final. Queria fechar a despedida do prato em grande estilo. Com o melhor gosto ficando por último nas papilas gustativas. Muito embora só agora é que possa pensar sobre isso com mais clareza. Naquela época eu era mais sensação que palavras, nem sabia o que eram papilas gustativas. Mas as palavras viviam grudadas a algo que estava sempre comigo: a imaginação. Como em toda criança, por suposto. Não raro, eu dava uma topada e pensava, será que alguém em outro lugar do mundo, levou uma topada ao mesmo tempo que eu? Será que essa dor fina e aguda que resplandece até nas minhas orelhas vai demorar quanto tempo nessa outra pessoa? E eu me concentrava na dor para ver quanto tempo ela iria passar. Contava alguns segundos, daí me distraía com alguma coisa e quando me apercebia, a dor já tinha passado e eu tinha perdido a conta.

Eu pensava que todas as coisas poderiam ser interligadas. Se alguém morria na cidade, logo eu buscava o consolo de que talvez alguém estivesse nascendo naquele exato momento. E, sendo assim, haveria um equilíbrio entre as vontades de Deus.

Seguindo esse raciocínio, a sincronicidade entre os fatos nem sempre é harmoniosa. Hoje em dia, toda vez que lá em casa alguma comida estraga na geladeira e tenho de jogar fora, eu penso que tem algum estômago vazio perambulando por aí, padecendo do desperdício dos nossos dias tão distraídos com a fome dos outros. Sinceramente, acho uma afronta o desperdício. Uma afronta a quem tem fome, um despautério à natureza que nos entrega sua energia para que dela sobrevivamos. Meu peito pousa em uma vergonha sem dimensões, quase inconfessional porque sei que pode ser uma vergonha compartilhada com outros homens, cuja humanidade, quase todo dia escorrega para dentro da lixeira da cozinha. E talvez eles pensem que isso que eu penso seja uma grande bobagem. E isso me dá mais razão para ter vergonha.

Aliás, em tempos de GPS, quanto menos mapa de navegação, mais a imaginação ganha força. Eu gosto de sorrir para estranhos na rua que não sabem para onde ir ou como chegar. Se eu sei o caminho, quase os pego pelo braço e os levo até lá. Mulher que sou, desconheço nome de ruas ou o que é direita ou esquerda. Então, me valho dos detalhes: o senhor sabe aquele prédio de vidraças azuis de mais ou menos uns oito andares naquela esquina com a farmácia? Pois não é ali, é um pouco mais adiante. O senhor segue mais umas três quadras; quando passar diante de uma casa de muro lilás e gérberas no jardim, mais duas calçadas adiante, cuidado com o buraco entre elas, e é lá onde o rio vai estar, digo a rua com nome de rio que o senhor procura. E sigo meu caminho, achando que pode ser tudo muito confuso para ele entender. Mas se ele encontrar as gérberas, então já terá valido à pena.


Dedico esse texto ao Davi Boruszewski, porque sim.


Nenhum comentário: