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terça-feira, 21 de junho de 2016

O silêncio daquela estação




A notícia saiu no Daily Mail, portal de notícias inglês, escrito por Georgia Diebelius. Dizia que uma companhia de trem do Japão decidiu fechar uma de suas linhas. Porém, durante o processo, descobriram que uma única pessoa, a adolescente Kana Harada, dependia daquele transporte para ir e voltar da escola, em determinada estação daquele trem. Nesse local, a única pessoa que precisava do trem era ela, que demorava cinco minutos para ir de sua casa até lá. Depois, em outras estações, outras pessoas subiam ao modal. A notícia foi veiculada há seis meses. Em março, depois que Harada se formou, a linha deixou de operar.

Eu leio a reprodução da matéria numa rede social. Alguns ficam embevecidos com o gesto da companhia, acham que até daria um conto. Eu também acho. Então eu leio um comentário mais ou menos assim: "muito mais inteligente e prático se a menina tivesse mudado de escola". E eu penso, quando foi que a inteligência e a praticidade tomaram o lugar do respeito; do direito de ser indivíduo único e de ter suas próprias necessidades respeitadas? Independente das conveniências do mercado? Em tempos de praticidade, as necessidades individuais têm tomado o lugar do quase impossível, da terra prometida, que já está ocupada por alguma outra vontade que vise lucro, poder, ou os dois juntos.

Tenho uma inclinação de compreender as coisas depois das coisas feitas, realizadas. Antes, tudo não passa de especulação ou quimera. Imagino esse gesto da companhia de trens como algo que humanizou minha vida. Mesmo sendo tão distante de mim. A foto mostra a menina num lugar repleto de neve e eu nunca fui tocada pela neve. Mas a garantia do transporte daquela menina me permitiu enxergar uma beleza que surgirá de vez em quando à minha mente e me mostrará que muito além de ver e ouvir – ou ler – as coisas que me enlevam são sobretudo as sentidas, compartilhadas, dobradas em camadas pelas mãos de outros seres. Porque me ocorre agora que os passarinhos, por exemplo, fecundam de sementes a terra com seus excrementos. E isso é absolutamente “prático” e “inteligente” embora a lógica humana dos “práticos e inteligentes” não consiga perceber de imediato a poesia que há nesse gesto.

No silêncio daquela estação, eu imagino como a menina construía seus sonhos. Alugando espaços nos seus pensamentos para retribuir aquele gesto, um dia quem sabe, à outra pessoa. O silêncio pode ser, tal qual a bosta do passarinho, algo profundamente fecundo. No idioma que perambula por nossa mente, e não sai de dentro da boca, o normal e prático não tem vez. O desacostume é mais produtivo do que o que dizem que é certo para gente. Se a poesia é o mel das palavras, o pensar livremente é a foz do fazer.

Publicado no Novo Jornal

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