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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Ratos na bodega



Era uma bodega a poucos metros de casa. Tinha um balcão de madeira que, na minha infância ficava além da altura dos meus olhos. Às vezes, para que me vissem eu precisava dar um impulso e me dependurar com os cotovelos e gritar o nome, "ei, Seu Zé" ou "ei, Dona Maria", minha mãe tá pedindo oito "pães franceses" e um quilo de açúcar. Desde a infância eu tinha um saquinho de vários "esses" dentro da cabeça para sair distribuindo a cada exigência dos plurais da vida. E todas as pessoas do mundo, da bodega e da feira, se chamavam Zé e Maria. E era uma decepção grande quando eu descobria que eles se chamavam Sebastião ou Terezinha.

Daí, teve uma vez que a minha mãe queria que eu voltasse para devolver os pães. Acusava a bodega de que lá tinha ratos. Lá tinha de tudo é certo. Tinha panela de alumínio; canecas de ágata; feijão em sacos de estopa; açúcar; carne de boi e de porco; fumo; vassoura de palha; pano de prato; cocada; balas de coco; biscoito sete capas, tudo cheirando de uma vez só, formando um sistema complexo de um cheiro inigualável. Como aquilo era mágico! Eu adorava entrar e sentir aquela atmosfera pesada e substantiva. Um cheiro que quase se podia tocar. Diferente de outros cheiros marcantes como poeira da rua ou da chuva fina quando molha o chão quente, o cheiro da bodega era uma entidade que nos dominava e atraía.

Por mais que eu tentasse convencê-la de que não tinham ratos na bodega, eu não conseguia dizer a verdade pura e simples. Que aquele pequeno pedaço quase redondo que ela identificara como uma mordida de rato, tinha sido eu mesma - provocada por uma fome repentina de travessura no caminho de casa – que fizera um minúsculo beliscão e tirara do pão um pouco de sua dignidade de pão não passeado por ratos.

Devo admitir que eu tinha a disciplina às avessas de fazer travessuras, como quebrar o nariz de gesso de Nossa Senhora com o dente ou arrancar numa curiosidade só, o pedaço da parede da porta, minuciosamente esculpido pelo meu pai, em cimento ainda fresco, onde receberia a trava do ferrolho; mas me faltada a manha da mentira. Eu era uma incompetente nesse quesito. Nem sonsa, nem mordaz. Eu era translúcida no silêncio. Percebendo minha relutância em voltar na bodega, ela sentou na desconfiança e eu já agradecia por isso, porque bastaria a pergunta simples: “foi você?” e eu me libertaria com um sim.

Naquela noite eu fui proibida de comer pão. Somente sopa. E se reclamasse, a sopa poderia ser regada a uma boa sandália japonesa nos quartos. O pedacinho de pão, já totalmente diluído nas minhas papilas gustativas, dançava na memória. Junto com os cheiros contidos na minha infância agora.



segunda-feira, 4 de julho de 2016

Mais Ana C., menos mi mi mi



Ana Cristina César é a homenageada da Flip desse ano. Nunca fui na Flip. Li pouco Ana Cristina César, fato. Não sou crítica literária, fato. Não sou doida varrida (ou desocupada o bastante) para sair por aí falando sobre algo (poemas, poesia &/ou estilos) só para demonstrar conhecimento e encher a vida das pessoas de imbecilidades mascaradas de úteis quando, na verdade, não passam de verborragia amanteigada com vaidade de gente que não sabe escrever e, frustrada, resolve falar do trabalho (árduo) dos outros.

Parece meio tolo tentar dar estofo a duas situações que me são superficiais, portanto. Ana Cristina César e Flip. A primeira, bonita, fotogênica, poeta, trágica, suicida. A segunda, uma Feira, Festa sei lá o quê que o que menos se propôe - declaradamente - é ser uma feira sobre literatura. Já ouvi um CD sobre a Flip. Alguns amigos já foram à Flip. E só. 

Mas, me sinto muito à vontade para pedir: mais Ana Cristina César, menos culto ao suicídio; mais Ana Cristina César, menos performances tolas no meio do palco; mais Ana Cristina César, menos frases de efeito; mais César, menos Brutus; mais sexo oral, menos punheta literária; mais noite, menos entardeceres românticos ouvindo Ravel; mais Ana C., menos personagens; mais Ana C., menos teorias; mais Ana C., menos décadas passadas. Mais Ana C., menos textos reunidos. Mais mais mais silêncio, porra!

domingo, 3 de julho de 2016

A Natureza das Coisas





A pessoa chega na parada de ônibus passando um filme na cabeça. Até ali tinha sido um dia exaustivo. Quando as linguagens não se comunicam, os interesses não se coadunam, os sonhos são diferentes. Todo mundo passa por isso. Sabe quando você pensa, pôxa, esse dia não foi favorável? Tem alguma coisa errada no meu universo particular? O que diabos eu estou fazendo aqui? 

Eu estava atrasada para um encontro com um amigo, daqueles que só pelo olhar, a gente já se sente acolhido. Era necessário, muito que eu fosse me encontrar com ele, embora em alguns momentos pensasse em desistir, voltar para casa logo, me enfiar debaixo dos l lençois e chorar para aliviar as tensões. Os planos de sair mais cedo não tinham dado certo. Eu estava 30 minutos atrasada. O trânsito estava estranhamente lento naquele momento. Depois vim a confirmar aquela lentidão, uma colisão de dois carros há menos de um quilômetro de onde eu estava. Bom, eis que passam no carro, um casal que conheço desde minha infância. Eles nem estavam na via expressa. Cumprimento-os amigavelmente e, antes que o sinal abrisse eles perguntam para onde vou e me oferecem uma carona para mais adiante. Aceito. Corro para dentro do carro. Sair daquele lugar já parecia uma boa opção.

Quando sento, me apercebo que antigamente eles moravam razoavelmente perto do meu destino naquele momento. E continuavam no mesmo endereço. Ou seja, aquela carona era mais que um gesto amigável, era mais que uma brincadeira do acaso, aquela carona fora um pedaço de esperança que deslizou sobre meus ombros cansados naquele dia triste. Eles me deixaram na porta do lugar onde, anteriormente, nos meus planos, eu teria que caminhar uns 10 minutos para chegar, depois de descer do ônibus. Mas não foi só isso. Dentro do carro, eles ouviam Flávio José. Ouviam a plenos pulmões, mal dava para conversar. E foi assim que eu tive a oportunidade de ouvir atentamente a música "A Natureza das Coisas", que eu tive o cuidado de pesquisar para saber de quem era, e foi composta por Accioly Neto. E eu replico alguns trechos para vocês:


Se avexe não...
Amanhã pode acontecer tudo
Inclusive nada.

Se avexe não...
Que a lagarta rasteja
Até o dia em que cria asas.

Se avexe não...
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa.

Se avexe não...
Amanhã ela pára
Na porta da tua casa

Se avexe não...
Toda caminhada começa
No primeiro passo
A natureza não tem pressa
Segue seu compasso
Inexoravelmente chega lá...

Se avexe não...
Observe quem vai
Subindo a ladeira
Seja princesa ou seja lavadeira...
Pra ir mais alto
Vai ter que suar.


Bom, eu me emocionei profundamente, não vou mentir. E chorei um pouquinho. Não era debaixo das minhas cobertas, então era um choro rápido, discreto, civilizado, aliviado. Um choro longe de críticas, curiosidade e escárnio. O casal amigo percebeu, mas fingiram que não. Era um choro de reconhecimento, de agradecimento e um choro que me dizia mais ou menos assim: "Se avexe não, mulher, se avexe não!".