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domingo, 3 de julho de 2016

A Natureza das Coisas





A pessoa chega na parada de ônibus passando um filme na cabeça. Até ali tinha sido um dia exaustivo. Quando as linguagens não se comunicam, os interesses não se coadunam, os sonhos são diferentes. Todo mundo passa por isso. Sabe quando você pensa, pôxa, esse dia não foi favorável? Tem alguma coisa errada no meu universo particular? O que diabos eu estou fazendo aqui? 

Eu estava atrasada para um encontro com um amigo, daqueles que só pelo olhar, a gente já se sente acolhido. Era necessário, muito que eu fosse me encontrar com ele, embora em alguns momentos pensasse em desistir, voltar para casa logo, me enfiar debaixo dos l lençois e chorar para aliviar as tensões. Os planos de sair mais cedo não tinham dado certo. Eu estava 30 minutos atrasada. O trânsito estava estranhamente lento naquele momento. Depois vim a confirmar aquela lentidão, uma colisão de dois carros há menos de um quilômetro de onde eu estava. Bom, eis que passam no carro, um casal que conheço desde minha infância. Eles nem estavam na via expressa. Cumprimento-os amigavelmente e, antes que o sinal abrisse eles perguntam para onde vou e me oferecem uma carona para mais adiante. Aceito. Corro para dentro do carro. Sair daquele lugar já parecia uma boa opção.

Quando sento, me apercebo que antigamente eles moravam razoavelmente perto do meu destino naquele momento. E continuavam no mesmo endereço. Ou seja, aquela carona era mais que um gesto amigável, era mais que uma brincadeira do acaso, aquela carona fora um pedaço de esperança que deslizou sobre meus ombros cansados naquele dia triste. Eles me deixaram na porta do lugar onde, anteriormente, nos meus planos, eu teria que caminhar uns 10 minutos para chegar, depois de descer do ônibus. Mas não foi só isso. Dentro do carro, eles ouviam Flávio José. Ouviam a plenos pulmões, mal dava para conversar. E foi assim que eu tive a oportunidade de ouvir atentamente a música "A Natureza das Coisas", que eu tive o cuidado de pesquisar para saber de quem era, e foi composta por Accioly Neto. E eu replico alguns trechos para vocês:


Se avexe não...
Amanhã pode acontecer tudo
Inclusive nada.

Se avexe não...
Que a lagarta rasteja
Até o dia em que cria asas.

Se avexe não...
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa.

Se avexe não...
Amanhã ela pára
Na porta da tua casa

Se avexe não...
Toda caminhada começa
No primeiro passo
A natureza não tem pressa
Segue seu compasso
Inexoravelmente chega lá...

Se avexe não...
Observe quem vai
Subindo a ladeira
Seja princesa ou seja lavadeira...
Pra ir mais alto
Vai ter que suar.


Bom, eu me emocionei profundamente, não vou mentir. E chorei um pouquinho. Não era debaixo das minhas cobertas, então era um choro rápido, discreto, civilizado, aliviado. Um choro longe de críticas, curiosidade e escárnio. O casal amigo percebeu, mas fingiram que não. Era um choro de reconhecimento, de agradecimento e um choro que me dizia mais ou menos assim: "Se avexe não, mulher, se avexe não!".

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