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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Pagamento à vista



Almoço de domingo na casa da minha tia é sempre sinônimo de que vamos levar marmita para o jantar. Já no sábado, ela manda WhatsApp perguntando se queremos suco de cajá ou uva. Quando chegamos lá, tem cerveja, suco de cajá, de uva e chá verde com gengibre e canela. E ai de quem não tomar todos os líquidos oferecidos. Tem bobó de camarão, carne, arroz integral com açafrão da terra, salada e um feijão grande e branco que eu só encontro em sua casa. Ela é assim, uma profusão de tiradas sarcásticas, risadas largas e uma força descomunal para quem só chegou perto de um metro e meio. Lembra muito a minha avó. Aliás, todas as filhas da minha avó preservam notáveis pedaços dela: as piadas genuínas, os assobios afinados, uma vaidade descomunal em cuidar dos cabelos e o olhar marrom. Quando chegar a minha vez, quero ter esses pedaços delas todos impregnados em mim, muito embora me ache incapaz de um dia acumular a metade da vaidade que elas têm com os cabeços e unhas.

As melhores heranças não são as deixadas em cofres ou propriedades. São aquelas que têm cheiros. Como quando abrimos o armário de alguém que amamos e sentimos a presença dela naquele lugar. Ou aquelas que ficam guardadas em pequenos recados de memória. A primeira receita de bolo; as dicas certas de como fazer um feijão. O balé ritmado das conchas do mar em cima da mesa, embaladas pela música "escravos de Jó, jogavam caxangá". Um jogo ganho de dominó depois que você aprende, com a sua avó, a contar as peças. A primeira mochila emborrachada que aquela mesma tia do almoço me deu, e que era vermelha. A cor das memórias vivas e pulsantes, que fazem das pessoas que têm o mesmo sangue jorrando nas veias, grandes amigos e que, no fim das contas são as que mais importam, porque elas sobretudo, se importam com você. São as que choram o choro solidário de uma perda. As que ligam se você está doente, as que perguntam se você botou o guarda-chuva na bolsa, porque parece que o tempo vai fechar. As que falam qualquer coisa e se fazem presentes nem nenhuma necessidade à vista. Pessoas que fazem marmitas para você continuar comendo da comida delas depois que você volta para sua casa.


Afora a família, às vezes temos a sorte de encontrar essas almas afins além fronteiras sanguíneas. Elas te aceitam sem necessidade de promoção ou desconto. Nada mais cansativo que você se dividir em mil prestações para ser aceito ou aceitar os outros. Cuidado com gente que se valoriza demais enquanto desdenha dos seus atributos. E te passa uma fatura de amizade. Mesmo que isso seja feito de maneira sutil, se alguém quiser te comprar barato, não aceite. Todos temos nossas avarias. É delas que nascem nossas singularidades. Só aceite pagamento à vista, no quesito amizade sincera.

Crônica publicada hoje no Novo Jornal

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