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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pensamentos bons




Eu era do tipo que deixava a carne para comer no final. Queria aliar a despedida do prato em grande estilo. Com o melhor gosto ficando por último nas papilas gustativas. Muito embora só agora é que possa pensar sobre isso com mais clareza. Naquela época eu era mais sensação que palavras, nem sabia o que eram papilas gustativas. Mas as palavras viviam grudadas a algo que estava sempre comigo: a imaginação. Como em toda criança, por suposto. Não raro, eu dava uma topada e pensava, será que alguém em outro lugar do mundo, levou uma topada ao mesmo tempo que eu? Será que essa dor fina e aguda que resplandece até nas minhas orelhas vai demorar quanto tempo nessa outra pessoa? E eu me concentrava na dor para ver quanto tempo ela iria passar. Contava alguns segundos, daí me distraía com alguma coisa e quando me apercebia, a dor já tinha passado e eu tinha perdido a conta.

Eu pensava que todas as coisas poderiam ser interligadas. Se alguém morria na cidade, logo eu buscava o consolo de que talvez alguém estivesse nascendo naquele exato momento. E, sendo assim, haveria um equilíbrio entre as vontades de Deus.

Seguindo esse raciocínio, a sincronicidade entre os fatos nem sempre é harmoniosa. Hoje em dia, toda vez que lá em casa alguma comida estraga na geladeira e tenho de jogar fora, eu penso que tem algum estômago vazio perambulando por aí, padecendo do desperdício dos nossos dias tão distraídos com a fome dos outros. Sinceramente, acho uma afronta o desperdício. Uma afronta a quem tem fome, um despautério à natureza que nos entrega sua energia para que dela sobrevivamos. Meu peito pousa em uma vergonha sem dimensões, quase inconfessional porque sei que pode ser uma vergonha compartilhada com outros homens, cuja humanidade, quase todo dia escorrega para dentro da lixeira da cozinha. E talvez eles pensem que isso que eu penso seja uma grande bobagem. E isso me dá mais razão para ter vergonha.

Quanto menos mapa de navegação, mais a imaginação ganha força no vento. Aliás, vento é um negócio danado para nos dar de presente pensamentos bons.

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