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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Remar é preciso






Da janela do escritório corre um vento quase frio. Ao fundo, ouço uma tevê ligada num programa que não assisto há anos. Perto daqui, existe uma pessoa que não tem a menor noção de que tem sérios, drásticos, inconfundíveis problemas auditivos. Só pode. Somos obrigados a ouvir tudo o que ela assiste e ponto! Não adianta ir reclamar porque ela não nos entende. Se perguntarmos sobre a guerra na Síria ou sobre o que ela comeu no jantar, não faz diferença. Ele sempre responde com um "heeeeimmm?". E depois sorri e segue sua vida muito acima dos 90 decibéis aceitáveis. Uma vez fui a uma cabeleireira que também sofria de problemas auditivos. Afora o barulho chato do secador, a quentura machucando o casco da cabeça, ela ainda gritava feito uma hiena louca no pé do meu ouvido. Só consegui ir uma vez. Tortura chinesa era fichinha.

Mas enquanto sinto o vento quase frio lambendo minhas pernas, um pensamento não me sai da cabeça. A incrível capacidade que temos de reorganizar as prioridades na vida. Há duas semanas, ao acordar, escolhia a roupa com cuidado e não saía de casa sem passar base com protetor. Agora, com a vida dando outros passos em direção ao desconhecido, acordo pensando se já não passou a hora de dar o apyron, o ursacol, a ranitidina e o buscopan para um de meus gatos que resolveu passar 20 dias sem comer, mais enjoado que gestante de três meses e que mobilizou toda a casa para que conseguíssemos descobrir o que tinha e salvar a sua vida. Tarefa tão importante para nós quanto a vida dos bípedes da casa. Somos uma família grandiosa: três humanos e cinco gatos. Somos uma família simples, unida e solidária. Somos uma família que grita às vezes, mas se beija e se abraça muito para compensar; que conversa bastante e toma decisões em conjunto. Somos uma família que fica feliz com pipoca e filme na Netflix. Somos uma família com poucos selfies e um álbum de família que já foi herança da minha avó. Somos tão normais às vezes que nos tornamos excepcionais. Somos uma família com vários outros membros em outras casas que nos amam e cuidam da gente, que tem grupo no WhatsApp, que se comunica muito, principalmente através de emojis.

Às vezes a gente precisa reorganizar as prioridades; mas tem coisas que estão além das importâncias momentâneas. A vida é como um barco; ora precisa de vento e vela; ora precisa de um motor potente. Mas jamais deixa de prescindir de quem saiba remar. Sem motor, sem vela e sem vento o barco até pode diminuir seu ritmo. Mas a força que vem dos nossos braços é capaz de seguir o caminho. Navegar é preciso, meus amigos; mas, viver, aí, é outra história.


Publicado também no Novo Jornal e no Substantivo Plural

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