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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A poesia não serve para nada


A poesia não serve para nada. É diferente de qualquer outro tipo de manifestação artística e outro tipo de olhar sobre as coisas, reais e imaginárias. É diferente da música, propriamente dita - aquela feita com o auxílio de instrumentos - porque os ouvidos estão sempre abertos. São janelas escancaradas a escutar. Já a poesia, essa precisa do olhar. Aquele que não se encerra simplesmente em algumas piscadas. Tem de ser um olhar por dentro.

A poesia não é uma atividade prazerosa. É trabalho. Duro e sem salário. E pouco importam as circunstâncias que levam a esse trabalho. Poesia não é antídoto contra dor de corno; nem cura de ressaca. Poesia não é carta de amor. Nem de desamor. Poesia é arrancar a unhas o ritmo contido no tempo. E matar o tempo, que é narrativa. Poesia não serve para deixar ninguém famoso; ou para aparecer em foto ou listinhas. O título de poeta geralmente é exposto nas prateleiras de quem mais fala ser poeta e menos escreve. Repare bem nos poetas. São, por vezes, tímidos. Quietos. Econômicos na verborragia metalinguística do seu labor. Amargurados em sua condição de enxergar o mundo sob a ótica de uma realidade pouco compreendida e bastante ignorada. 

Escrever poesia é fazer uma corrida de costas, olhando nos olhos dos chavões que jorram fáceis e são convidativos. É cuspir um a um, e falar a mesma coisa, mas de um jeito único. Falar sobre nada e dar importância às coisas sem importância. 

Aliás, poesia é o desnudamento da palavra, não do poeta. Poesia é se refugiar no mato, para encontrar no meio das ervas um trevo de quatro folhas. Ou inventar um, que seja. Poesia não é crença, nem faz milagres, nem salva ninguém.

Por isso que a poesia não serve para nada. O mundo está muito ocupado para carecer de poesia. Quem diabos quer saber de Bob Dylan e de T.S. Eliot? Quem quer saber de Wislawa Szymborska?(a gente não sabe nem pronunciar direito o nome da criatura!). De quem eu peço emprestado um poema para encerrar essa crônica. “Somos filhos da época/ e a época é política/ Toda as tuas, nossas, vossas coisas/ são coisas políticas/ Querendo ou não querendo,/ teus genes têm um passado político,/ tua pele um matiz político,/ teus olhos, um aspecto político./  Até caminhando e cantando a canção/ você dá passos políticos/ sobre um solo político./ Versos apolíticos também são políticos./ e no alto a lua ilumina/ com um brilho já pouco lunar./ Ser ou não ser, eis a questão./ Qual questão, me dirão./ Uma questão política./ Não precisa nem mesmo ser gente/ para ter significado político./ Basta ser petróleo bruto,/ ração concentrada ou matéria reciclável./ Enquanto isso matavam-se os homens,/ morriam os animais,/ ardiam as casas,/ ficavam ermos os campos,/ como em épocas passadas/ e menos políticas.

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