Google+ Followers

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Desenhos da Alma



Eu jamais me descabelaria por conta de um cantor de tecno-brega, forró universitário ou axé qualquer coisa. Mas entendo o frenesi que algumas pessoas sentem quando se veem diante de seus ídolos. No meu caso, meu descabelamento - ao menos mental - se dá quando fico próxima de algum escritor do qual sou leitora e admiro sua escrita. De alguns que já tive a chance de conversar, cito três: Milton Hatoum, José Eduardo Agualusa e Francisco Alvim. E, pensando agora sobre o comportamento dos três, acho que se eles percebessem que eu estava me descabelando por dentro, decerto eles ficariam muito retraídos. Porque são, acima de tudo, seres humanos simples, acessíveis, quase que agradecendo ou pedindo desculpas por estarem falando desse ofício, que é tão solitário.

Quando entrevistei Agualusa, por exemplo, ele falava muito baixo e pausadamente. Mas o tom não era monótono, era só um mecanismo para que pudéssemos ruminar as palavras com o mesmo prazer com a qual as mastigamos em uma leitura boa. Em princípio, ao invés de falar de si mesmo, ele me perguntou se eu já tinha lido o Mia Couto - um grande amigo seu, por sinal. Eu disse que só tinha lido o livro "O fio das miçangas" e ele insistiu: "Você deveria ler mais o Mia. Ele é um grande escritor".

Com Chico Alvim, chegamos a trocar alguns e-mails, após a entrevista que foi rica e cheia de significados de vida e aprendizado para mim. Ele queria ver como ficara a matéria e, nessas horas, é meu momento de ficar tímida. Ele me foi tão acolhedor que senti vontade de falar sobre esse encontro do meu jornalismo e a poesia daquele homem elegante, tempos depois no meu blog. E, qual não foi minha surpresa que recebo tempos depois o e-mail que transcrevo: "Minha cara Sheyla, outro dia dei com suas palavrinhas no seu blogue de título formidável. Como agradecer tanta bondade, carinho? Falta agora você cumprir sua parte do nosso trato: quero conhecer o Newton Navarro. Você me manda um abraço repleto de maresia.Em troca, receba o meu, com uma braçada de céu". Bom, nem precisa dizer que eu mandei meu livro para ele e que, depois, ele me presenteou com alguns exemplares seus, como por exemplo, "o metro nenhum" da Companhia das Letras.

Hatoum é um homem grandão, com uma voz grave e afável. Disse-me que não gostava de fazer qualquer mistificação com relação ao seu trabalho na linguagem. Que era mais leitor que escritor - aliás uma característica típica de um verdadeiro escritor. E a revelação que mais me surpreendeu: que escrevia todos os dias à mão. Falou isso sem imaginar que essa poderia ser uma informação valiosa para uma jornalista. Mas não era de imenso valor só porque eu tomaria essa informação como mote. Era rico saber desse seu hábito, porque as palavras escritas a mão são desenhos da alma do escritor. São palavras virgens de tinta, sem a pretensão da gráfica. São faíscas simples da grande explosão que as precede.

Nenhum comentário: