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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Férias no Cabelo


O filme “La Delicatesse” começa assim, Nathalie (Audrey Tautou) e François (Pio Marmai) são um casal apaixonado e têm muito em comum. Se casam, fazem planos, viagens e sonham em um dia ter filhos. Mas, o filme dirigido pelos irmãos David e Stéphane Foenkinos, está longe de ser um filme comédia romântica adocicada, do tipo "Comer, Rezar, Amar". Logo no início, o marido de Nathalie morre num trágico acidente de carro. Sentimos um baque, claro, porque quando a perfeição parece tão próxima e tão plástica, difícil aceitar que ela não existe mais. Dá para sentir a dor contida e quase insuportável da personagem. E agora? O que é que se faz com o peso de uma perda desse monta? O filme mostra uma dor silenciosa. Sem sentimentalismos, a lá novela das sete, ou cenas em que ela se encostaria na parede em prantos e deslizaria lentamente até o chão agarrada com um cachecol do marido.

Nathalie se joga no trabalho. Vira uma workaholic. Aparentemente nada muda em sua vida, seu apartamento, seu cabelo, durante três anos, até que ela num impulso beija o colega de trabalho, sueco e sem graça, Markus (François Damiens). Parece mais uma brincadeira. Tive a impressão que ela estava testando sua capacidade de sentir desejo por alguém que não fosse o marido morto há tanto tempo. Mas, Markus não vê assim. A partir do momento em que é beijado por ela, sua vida que parecia uma película em preto e branco (nada contra os filmes noir, isso é só uma figura pobre de linguagem), ele parece que está num passeio à Disney, de tanta cor que se lhe apresenta. Markus é uma pessoa infinitamente doce, simples e benevolente com todos à sua volta. Tem um momento do filme em que ele confessa que está tão fascinado pela chefe que seria capaz de "tirar férias no cabelo dela".

Eu acho que foi a maior declaração de amor que eu assisti em um filme em toda a minha vida. Querer tirar férias no cabelo de alguém é uma coisa absolutamente inusitada e quase devocional. "A delicadeza do amor", tradução para o português, protagonizado pela mesma moça que fez "O fabuloso destino de Amélie Poulain" não é somente um filme de amor. É um filme sobre recomeço. A suposta "feiura" de Markus também revela o preconceito que algumas pessoas cultuam em querer encaixar casais em determinadas formas. Markus é doce e sabe que essa doçura é permissiva para que os desrespeitem. 

O filme revela, sutilmente, a chance que as pessoas veem umas nas outras de poderem ser ouvidas, compreendidas, de não se sentirem ridículas ou frágeis por estarem descobrindo no amor uma chance de viver de maneira absolutamente igual, mas totalmente diferente, percebe? Não há salvação para ninguém no filme. Eles só estão se permitindo viver e amar. Amar e viver.

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