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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Tabuada dos Nove





Quando eu era pequena, uma das coisas mais difíceis do mundo era decorar a tabuada dos nove. Eu também ficava muito confusa sobre quem era o pai ou o filho, quando se tratava de Deus e Jesus. 

Bom, só bem depois foi que eu vim perceber que era a tabuada mais fácil do mundo. Bastava decorar a penúltima fila das tabuadas de 2 a 8, que estávamos ali, diante de toda a tabuada dos nove. Uma espécie de resumo das tabuadas anteriores.

Sempre que me deparo com situações difíceis na vida adulta eu me lembro dessa besteira. E penso que uma hora ou outra, independente da complexidade, os problemas se resolverão.

Meses atrás, quando eu assistia na TV aquele homem branco e feio, esbravejando palavras de ordem e recuperação dos Estados Unidos, revestido de um populismo falso e sem apresentar de fato soluções concretas e minimamente razoáveis para seu país, tendo expostas suas declarações misóginas e suspeitas de abuso sexual eu pensava: Não. Os norte-americanos não são malucos de eleger um sujeito como esse. Não acredito que isso seja possível.

Mas foi. E o que isso tem a ver com meus problemas? Tem muito a ver quando eu percebo que o mesmo discurso de ódio está aqui! Quando eu vejo que tudo e qualquer sentimento, pensamento ou reação que pareça ameaçar os privilégios dos brancos - ricos e ainda "donos" simbólicos das capitanias hereditárias no Brasil - são rechaçadas com discursos de ódio. 

O mesmo discurso que quer aniquilar com o multiculturalismo, com a vozes plurais das religiões, com as melhorias ou efetivação de direito das minorias, o discurso que quer acabar com a filosofia, a arte, a sociologia e o pensamento crítico nas escolas; o direito de ir e vir (e de ser e de amar) dos homossexuais, a militarização violenta da "ordem", o direito à pluralidade de informações.

Então, eu vejo um representante desses do ódio a tudo que não é espelho, do ódio ao negro, ao homossexual, ao pobre, ao pensamento de esquerda, sendo eleito nos EUA, e vejo que aqui no meu país, gente com esse mesmo pensamento comemora e aponta um sujeito ainda mais perigoso que o Trump como possível candidato das eleições presidenciais em 2018. Eu não vou dizer o nome dele aqui, porque me recuso mesmo. Mas ele é pior que o Trump, porque em seu currículo nefasto ele ainda carrega nas palavras e gestos o fundamentalismo religioso.

Vivemos tempos de uma tabuada muito difícil. Se Deus é pai e Jesus é filho, mas o filho é Deus ao mesmo tempo, isso não me parece mais um problema. O que me aflige é que sejamos filhos de uma nação que mais odeia, do que pensa; uma nação que não consegue vislumbrar que direito não é só aquele adquirido para si. Não existe amor numa nação misógina, homofóbica, racista, fascista, reacionária  e que não consegue enxergar os outros números, as outras cores, e as outras aritméticas da vida.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Será que o sol vai voltar amanhã?





Será que o sol vai voltar amanhã?


"Nosso dia vai chegar/ Teremos nossa vez/ Não é pedir demais/ Quero justiça".

Cantei muito na minha adolescência esses primeiros versos, e os outros, da música “Fábrica”, escrita pelo saudoso Renato Russo. 

Eram tempos de sonhos, de vontade de ver meu país sendo mais igualitário e de ser menos acossado pelo “mérito” e mais acolhido em oportunidades de direitos.

Renato Russo nos deixou há 20 anos. 

Mas suas músicas nunca foram tão atuais. Se ele estivesse vivo, provavelmente estava fazendo parte do coro dos inconformados com essa triste realidade que nosso povo vem passando. Ora anestesiado por um ódio que eu não encontro explicação, ora pela ignorância alimentada por uma mídia que mais desforma que informa. 

Com certeza, Russo teria feito campanha para o Freixo no Rio.

A volta de slogans como "Ordem e Progresso" e "Criança Feliz" nunca me cheirou tanto a mofo e enxofre. 

Outubro se foi, mas o dia das bruxas segue assombrando nossa democracia e todas as conquistas que tivemos ao longo dos anos. 

Vivemos uma "ordem" que legitima atrocidades policiais contra adolescentes, que ocupam escolas; que exalta um juiz obcecado pelo delírio de poder, que só aponta suas canetadas para um único partido, em meio à corja de políticos envolvidos num esquema de propina secular no nosso país. 

O "progresso" que somente acolhe e afaga o topo da pirâmide e a criança feliz que invoca um primeiro-damismo assistencialista, num papel coadjuvante da mulher "voluntária" e acéfala.

É. Acreditar que "é claro que o sol vai voltar amanhã" tem ficado cada vez mais difícil.

Vejo um céu menos cinza quando assisto ao discurso da menina Ana Júlia, na Assembleia Legislativa do Paraná que comoveu o mundo pela firmeza e hombridade. 

Mas não podemos esperar tanto, menina Júlia. 

Não podemos esperar por 20 anos, que pessoas decentes como você estejam no comando da nossa política.

É preciso uma revolução agora. 

A destituição desse governo ilegítimo, eleições diretas, para que possamos voltar a acreditar que ferramentas sociais da vida moderna como trabalho e voto não podem ser usadas contra nós. 

Oxalá Russo estivesse aqui para fazer novos versos sobre velhas práticas e abrir nossos olhos, e dos nossos pais e das gerações futuras.

E que ficasse fulo da vida em ouvir seu refrão “Que país é esse?” sendo entoado por uma gente que vai para manifestação vestido de verde e amarelo, contra uma corrupção que só tem uma cor, com uma babá devidamente fardada, empurrando carrinho de criança, numa clara divisão de castas. 

E é isso que Russo e muitos dos que ouvíamos suas canções jamais desejaríamos para nosso país: dividido, individualista, histérico, truculento, fundamentalista, corrupto. 

Da minha parte, seguirei cantando os versos da Legião Urbana. E, com chuva ou com sol, procurarei evitar "culpar meus pais por tudo". E, de tanto acreditar, "em tudo que achávamos tão certo, teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais".