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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Um novo tempo



A música do Ivan Lins cai bem nessa última crônica do ano. Ela diz assim: "Um novo tempo, apesar dos castigos". Ninguém duvida que estamos passando por situações gravíssimas mundo afora. Aqui ou acolá. Em Natal ou em Aleppo, não está fácil de compreender, nem de sorrir, ou até mesmo de sentir esperança. Mas é final de ano, deixemos ao menos acesa essa luz que aquece nossos sonhos.

Em "Cadernos do Cárcere", o filósofo Antonio Gramsci diz: "O velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer, e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros". Será que estamos vivendo a escuridão desse fim de mundo? Não recomendo a leitura desse texto aos que pensam que o capitalismo tal qual como se apresenta é bom, e que medidas como a PEC do Fim do Mundo são necessárias para o "crescimento". Não percam seu tempo.

"Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta". Não concordo e tremo inteira por dentro quando vejo ou imagino um sujeito comprar um produto por 19,99 e revendê-lo por 199,90 usando o argumento de que nesse novo preço estão embutidos "impostos", "encargos trabalhistas", etc. Esse modelo não se sustenta mais. As pessoas não são bobas. É urgente que o pertencimento do mundo precisa ser mais igualitário.

"No novo tempo, apesar dos castigos/ De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga". O "produtivismo" desse sistema predatório, ligado à poluição global, ao trabalho escravo, ao aumento dos monopólios, às benesses para banqueiros e grandes empresários não representam mais o monstro forte e imbatível. Pelo contrário, o monstro está cansado, fraco, o neoliberalismo se esgota. O mundo não é regido somente por sistemas econômicos. Não é somente o capitalismo que está agonizando. "De todos os pecados, de todos enganos/ estamos marcados/ Pra sobreviver". A mesma sociedade que se engana é uma humanidade que sofre.

A tentativa da direita e da extrema direita de impor um pensamento hegemônico cultural, social e econômico não é de agora. Vivemos isso há pelo menos uns 40 anos. “No novo tempo, apesar dos castigos/ Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas”. Mas a gente resiste. Nossas revoluções internas não sucumbem tão fácil às fantasias do mundo da propaganda. Os soldados voltam mutilados das guerras. E as mulheres seguem enfrentando suas correntes, em busca de um pensamento livre, de um ventre livre e por igualdade de gênero.

São tempos de ações e de conjugações verbais como: resistir, acreditar, insistir, rever, transformar. O predatório capitalismo definha. É o fim do mundo para essa barbárie. Em tempos escuros, o que mais nos vêm à tona é a certeza e a necessidade de luz. Mulheres, homens, gays, negros, índios, crianças, jovens, idosos, estudantes, trabalhadores, pessoas. Somos muito mais fortes do que eles querem que acreditemos. Eles têm poder, nós temos o tempo!

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

já vai tarde, 2016!



Eu sei que a gente ainda não acabou o ano, mas eu preciso fazer minha retrospectiva pessoal. E dizer que 2016 já vai mais do que tarde. Aliás, 2016 começou a dar com os burros n´água lá pelos idos de abril.  De lá para cá foi só ladeira abaixo.

E que já não é mais tão pessoal assim, uma vez que eu estou aqui dividindo com vocês, eu não vou falar somente de coisas pessoais. Aliás, eu acredito que tudo é pessoal. Não dá para dissociar uma opinião ou atitude do nosso corpo e mente e dizer "não é pessoal" e daí se transformar numa gaveta ou numa berinjela e deixar de ser uma pessoa toda vez que falar o que se pensa. Então, evitarei intimidades do tipo dizer que tenho intolerância a lactose, e o que acontece quando eu como comidas impróprias para um intolerante à lactose.

E por que que eu acho que 2016 já vai tarde? Seguem alguns singelos exemplos: Donald Trump venceu as eleições nos Estados Unidos; e acredito que nessa muita gente vai concordar comigo. Pessoas caçando Pokémon pelas ruas. Sem comentários. E, esse não é um mal de 2016, grupos de WhatsApp. Afora os intermináveis "bom dia" que a gente tem que ler, agora tem também as correntes. Eu já quebrei tantas delas me sinto uma assessora direta da Princesa Isabel.

Coisas nada a ver do ano: o excesso de homem de barba grande e de coque tipo samurai, todos pensando que são o cara da Trivago (e não são); mulheres vestindo caudas de sereia (como assim? Uma síndrome tardia de Ariel?) e a Janaína Paschoal babando a “hashtag-alôca-simbólica-mãe-do-golpe-pelo-bem-das-criancinhas”. Momento bem feito do ano: o salafrário do “Malafa” revoltadinho com a condução coercitiva.

Frases do ano: “primeiramente Fora Temer”, “o choro é livre”, “primeiro a gente tira a Dilma, depois tira o resto”, “Vai morar em Cuba”. Momento mais musical do ano, o Bob Dylan ganhar o Nobel de Literatura. Momento mais poético do ano, o Nobel de Literatura ser para um compositor musical. Momento mais a cara do Temer do ano, o ministro da Educação do Governo golpista receber projeto do Alexandre Frota para melhorar a gestão.

Momento do ano em que percebi que os capitalistas empresários estão lucrando (e muito) com a crise: o quilo do feijão ultrapassar os oitos reais nas prateleiras dos supermercados.

Medos em 2016 que permanecerão em 2017: desemprego, crise, recessão, o Congresso Nacional, a rede Globo, os neo-pentecostais fazendo e aprovando leis, a bancada da bala e dos bois aprovando o uso de metralhadoras nas vaquejadas. Frase fofa do ano: "Tchau, querida”. Arrependimento do ano: muito pessoal, não vou falar. Mas acho realmente uma pena que o meteoro não tenha passado em 2016.


Publicado no Novo Jornal, na versão impressa; e no portal Substantivo Plural

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Pouca fé






Falo com um cara por telefone e lhe envio um e-mail e, do nada, ele surge como uma sugestão de amizade na minha página no Facebook. Um amigo comenta que viveu algo parecido. Entro numa página e vejo um anúncio de uma outra coisa que pesquisei dias, meses atrás. 

Claro que o leitor sabe que em se tratando de internet, isso não é coincidência e sim o poder dos algorítimos. As palavras que digitamos, as pessoas que visitamos ou curtimos, os e-mails que enviamos, e até mesmo nossos desejos são mapeados e codificados através desses algorítimos. Somos direcionados àqueles que escrevem, sentem e pensam parecido com a gente. Os algorítimos nos colocam em bolhas.

Quer um exemplo? Quando eu acordei no dia 9 de novembro e fui avisada de que Trump seria o novo presidente dos EUA, um estarrecimento se apossou de mim. Achava que era improvável isso, porque TODOS os textos e notícias e pessoas que habitavam a telinha do meu computador, se riam daquele ridículo.

Sempre fui declaradamente contrária ao golpe do PMDB "et caterva" e da retirada nefasta e criminosa da presidenta eleita. Embora eu visse uma massificação do pensamento contrário ao meu, me custava acreditar, já que, de novo, a bolha me mostrava pessoas contrárias ao golpe. Num dia que resolvi sair um pouco da bolha e escarafunchei algumas páginas pessoais e sites, as barbaridades que li e assisti me deram um choque de realidade. A quantidade de gente que odeia, que é fascista, que quer a volta de militares e donas de um analfabetismo político de dar dó, é muito grande.

Mas não é só no mundo virtual que isso existe não. Quem dera. Por esses dias meu companheiro sofreu um acidente de carro envolvendo três veículos. Um saldo de um ferimento nas costas, um braço provisoriamente enfaixado e um carro destruído. Dá para superar os danos materiais? Sempre dá. Mas, o ocorrido deixou marcas em nossas crenças na humanidade. Todos os envolvidos na colisão, inclusive a responsável, agiram de forma civilizada e cordata. 

Porém, enquanto tivemos de esperar por três horas para a Secretaria de Mobilidade da Prefeitura chegar e lavrar o boletim de ocorrência, fomos vítimas da crueldade e do fascismo. Motoristas passavam e vaiavam. Outros batiam palma sarcasticamente. Outras passavam bem devagar, tornando o trânsito ainda mais caótico. Outros soltavam piadas. Nenhum gesto de solidariedade no trânsito. O que me faz pensar que o problema dos algorítimos virtuais e das bolhas em que estamos nos entranhando nos tira, além da visão panorâmica das coisas, a condição de nos colocarmos no lugar do outro. 

Qualquer pessoa está sujeita a tombar, a cometer erros e sofrer acidentes de trânsito. Mas, quantas sabem disso e são capazes de refletir e sair de suas bolhas? Não sei. No momento, ando com pouca fé, dentro e fora de minhas bolhas.



 Texto publicado ontem no Novo Jornal e no Substantivo Plural