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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Pouca fé






Falo com um cara por telefone e lhe envio um e-mail e, do nada, ele surge como uma sugestão de amizade na minha página no Facebook. Um amigo comenta que viveu algo parecido. Entro numa página e vejo um anúncio de uma outra coisa que pesquisei dias, meses atrás. 

Claro que o leitor sabe que em se tratando de internet, isso não é coincidência e sim o poder dos algorítimos. As palavras que digitamos, as pessoas que visitamos ou curtimos, os e-mails que enviamos, e até mesmo nossos desejos são mapeados e codificados através desses algorítimos. Somos direcionados àqueles que escrevem, sentem e pensam parecido com a gente. Os algorítimos nos colocam em bolhas.

Quer um exemplo? Quando eu acordei no dia 9 de novembro e fui avisada de que Trump seria o novo presidente dos EUA, um estarrecimento se apossou de mim. Achava que era improvável isso, porque TODOS os textos e notícias e pessoas que habitavam a telinha do meu computador, se riam daquele ridículo.

Sempre fui declaradamente contrária ao golpe do PMDB "et caterva" e da retirada nefasta e criminosa da presidenta eleita. Embora eu visse uma massificação do pensamento contrário ao meu, me custava acreditar, já que, de novo, a bolha me mostrava pessoas contrárias ao golpe. Num dia que resolvi sair um pouco da bolha e escarafunchei algumas páginas pessoais e sites, as barbaridades que li e assisti me deram um choque de realidade. A quantidade de gente que odeia, que é fascista, que quer a volta de militares e donas de um analfabetismo político de dar dó, é muito grande.

Mas não é só no mundo virtual que isso existe não. Quem dera. Por esses dias meu companheiro sofreu um acidente de carro envolvendo três veículos. Um saldo de um ferimento nas costas, um braço provisoriamente enfaixado e um carro destruído. Dá para superar os danos materiais? Sempre dá. Mas, o ocorrido deixou marcas em nossas crenças na humanidade. Todos os envolvidos na colisão, inclusive a responsável, agiram de forma civilizada e cordata. 

Porém, enquanto tivemos de esperar por três horas para a Secretaria de Mobilidade da Prefeitura chegar e lavrar o boletim de ocorrência, fomos vítimas da crueldade e do fascismo. Motoristas passavam e vaiavam. Outros batiam palma sarcasticamente. Outras passavam bem devagar, tornando o trânsito ainda mais caótico. Outros soltavam piadas. Nenhum gesto de solidariedade no trânsito. O que me faz pensar que o problema dos algorítimos virtuais e das bolhas em que estamos nos entranhando nos tira, além da visão panorâmica das coisas, a condição de nos colocarmos no lugar do outro. 

Qualquer pessoa está sujeita a tombar, a cometer erros e sofrer acidentes de trânsito. Mas, quantas sabem disso e são capazes de refletir e sair de suas bolhas? Não sei. No momento, ando com pouca fé, dentro e fora de minhas bolhas.



 Texto publicado ontem no Novo Jornal e no Substantivo Plural

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