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domingo, 23 de abril de 2017

Ditadura política





Eu estava diante de pessoas bacanas. Dessas que quando a gente sai de perto delas, levamos conosco um cheiro de decência, misturada à gratidão. Eram pessoas legais, de mesa posta e coração generoso. Dos dois tipos de bolo, porque na casa havia dois aniversariantes, ao pão assado e o café, nem forte nem fraco, bolo de rolo, brigadeiro feito com a ajuda da caçula de nove anos, tudo tinha sabor de acolhimento. No entanto, em alguns momentos, nos entreolhávamos quase que perplexos, incrédulos. O senhor de grandes olhos azuis, que só usa branco e completava 74 anos, quebrou o silêncio e traduziu o que nos afligia, falando do porvir com certa melancolia. "O futuro do Brasil é sombrio", disse.

Em outros tempos talvez eu procurasse imediatamente por uma saída mental que refutasse aquela sentença. Afinal, ser jovem é sobretudo achar que o futuro é longe e demora a chegar. Só que depois dos 40, o futuro está sempre ao alcance do toque. E ficamos mais sensíveis aos espinhos que por ventura nos espetam os dedos.

Há qualquer coisa de comovente nos dias. Quando as trevas do passado voltam a roubar a luz que nos apontava para um mundo melhor. Pode até ser que não fosse o mundo todo. Mas o mundo de dona Maria e seu João, com feijão e mistura à mesa, todos os dias. E o neto entrando na faculdade, com sapatos novos e uma cabeça aberta para o futuro fértil das descobertas. E não como agora, sob a ameaça de sentar no deserto das mordaças daqueles sacripantas, ladrões do direito de pensar e questionar - como se já não fosse o suficiente nos roubar em recursos e em privilégios políticos. Essa gente tosca e protocolar, donas das emendas que drenam até mesmo os suores do povo brasileiro.

Há uma alegria triste nos olhos da menina que faz biquinho e tenta parecer a Gisele, não percebem? Há algo de triste no tilintar das caixas registradoras, quando o homem descobre que deixou mais da metade de sua vida sentado diante dela, enquanto ela permaneceu absolutamente indiferente ao toque dos seus dedos.

Há qualquer coisa de muito indecente nesse barulho egoico das câmeras digitais, dos instantes “eternizados” por quinze segundos, que ganham mais importância nos cliques do que na vida real. Não se pode negar, há alguma coisa de muito comovente na ignorância que nos tolhe a imaginação e a poesia.

E eu também gostaria muito de discordar quando aquele mesmo senhor falou que vivemos tempos de ingratidão. Eu acrescentaria falta de educação também. Os novos vizinhos não nos cumprimentam no jardim. Os adolescentes não reconhecem a força do trabalho dos pais. E os pais. Bom esses, eu espero que um dia cheguem aos 70 anos e que olhem para o futuro com menos melancolia.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Tempo de sofrer


Ilustração de quadro de Brugel


Fui à Ribeira dia desses. Em uma das ruas perpendiculares da Duque de Caxias, havia estacionado um carro do Itep. Dentro dele alguns homens que pareciam capturados, sendo vigiados por policiais. Na verdade, estacionado é eufemismo porque o carro, sob a condição do uso (e abuso) estatal estava parado no meio da rua. Mas não foi isso que mais me chamou a atenção. Um dos detidos estava visivelmente abatido. Como se tivesse levado uma grande surra, ele oscilava para um lado e outro, prestes a desabar. A cena chamou roubou a atenção de muitos outros, causando um certo frenesi.

"É pra ser assim mesmo! Tem que dar com força. Quando esses caras assaltam uma pessoa, eles não têm pena de ninguém. Tem mais é que botar pra *@#$%$#", esbravejava um ambulante.

Eu não acho que mais violência dessangre a violência nossa de todos os dias. Eu não acredito que tratar com a mesma moeda o agressor vai torná-lo uma pessoa melhor ou um pacifista. Essa ideia de punição, de olho por olho, dente por dente, legitima uma opressão que só tem crescido no nosso país nas últimas décadas. É um tipo de fascismo substantivo que incendeia os ânimos de alguns homens de bem. 

A diferença é que agora, em evidente crise, o estado de exceção, a violência periférica, a falta de estrutura e de direitos não atingem somente as classes menos favorecidas - historicamente o alvo dessa violência. O estado de exceção chegou na classe média. Aumentaram os crimes, os assassinatos em padarias e farmácias, execuções nas esquinas de importantes avenidas da cidade em bairros nobres. Somos todos alvos, ou pelo menos 97,3% de nós. Porque sim, existe uma pequena casta blindada, apenasmente observadora e donatária de tantos privilégios que são capazes de ficar mais ricas e "prósperas" nessa crise que tem drenado até mesmo nossas esperanças.

Aliás, os últimos dias não têm sido fáceis. Vivemos num tempo de sofrer constante no quesito crueldade política, social, econômica, conjuntural, midiática e patriarcal. Estamos sempre diante de aberrações. O deputado energúmeno que eu me recuso a falar o nome, disse em um discurso no Rio que teve uma filha porque “fraquejou” na hora do sexo; um sujeito no BBB que só foi expulso após alavancar por meses a audiências com sua atitude abusiva contra a namorada; o homem do aviãozinho de dinheiro das noites de domingo achacando e humilhando a funcionária Sheherazade (que costuma achacar e humilhar em seu telejornal quem pensa diferente dela); estudantes de medicina fazendo fotos com as calças arriadas e simulando vaginas com as mãos. Enfim, frente a esse estado de coisas, resta-nos ficar mais atentos a o que dizemos, pensamos e fazemos. Sermos também mais compreensivos e solidários uns com os outros. Talvez um mundo mais justo ainda possa surgir.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ai que preguiça que eu tenho dessa tal felicidade ...

https://www.youtube.com/watch?v=R0gAO-YM5qA&feature=youtu.be

A felicidade é ou não é uma quimera?

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Um desenho


Das escolhas




Desde que nos percebemos fazendo parte de uma engrenagem na qual somos uma peça única, não sabemos ao certo se escolhemos nascer. Ao menos, a grande maioria de nós atribui esse fato a um fato anterior entre duas pessoas as quais, na melhor das hipóteses, se amavam e desejavam esse outro ser (nós). Muito embora, já depois descobertos humanos e falhos, a gente perceba que nem sempre é assim que a coisa funciona.

De lá para cá, somos responsáveis por nossas escolhas. Até mesmo aquelas que chegam como um vento forte, nos tomando o corpo por completo, nos forçando a fechar os olhos, estender os braços para a frente e sair tentando tocar o ar e se agarrar ao próximo segundo que trará a calmaria de volta. Escolher é principalmente viver. E viver é inevitavelmente saber que nem sempre conseguimos fazer as escolhas certas. Viver não é certo. Nem certeiro. Vez em quando a coisa sai de controle.

Difícil não é escolher. Difícil é estar pronto para encarar os dois movimentos que emolduram a decisão. Antes da escolha, a angústia da dúvida, a busca por respostas, as conjecturas, os sonhos decifráveis, o cartomante que atropela o destino, o destino que não se assusta com sua pressa, e segue seu caminho, incólume. Assim que tomada a decisão, o alívio, o prazer, o deleite de ser senhor dos seus domínios. Nem que seja por alguns instantes, talvez apenas dias.

Mas aí, o trem sai dos trilhos. O que antes era rocha se esvai em pó, o vento leva pra longe as certezas. E você de novo se angustia se tomou o rumo certo. E torna a esperar o resultado. Como é preciso esperar para deixar a vida se instalar. A questão é que ela está em constante manutenção. Deveríamos ter uma placa pendurada no pescoço: "Vida aberta para reformas", "Disponível para reparos".

Somos fadados a viver desafiando as dúvidas, buscando as respostas, encarando os erros, seguindo com a esperança, acreditando nas palavras dadas, lamentando as palavras desditas, sussurrando desculpas a si mesmo, gritando perdões ao mundo, abrindo buracos fundos na compreensão e rasos na mágoa.


Ser gente é doer no espelho e arder no silêncio. Ser gente é abrir pontes com o sorriso e alargar as margens para deixar que a embarcação dos outros ancorem. Ou passem de uma vez por todas. Eu ando com uma ressaca danada do mundo virtual. Dessa urgência que as pessoas têm em dar opiniões, em aparecer, em parecer o que não acredita que é. Sei que isso vai passar. Nem que eu tenha que tomar um antiácido. Aliás, deveria vender na farmácia inibidores de opiniões e estimulantes para a reflexão.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Direitos iguais




Quando eu era menina, brincava de boneca, de casinha, de cozinhado e costurava vestidinhos com as coleguinhas. Eu lembro que os meninos colocavam o bilauzinho pra fora e faziam xixi no meio da rua. Puxavam carrinhos feitos de madeira, brincavam de biloca e não andavam, saíam por aí a correr, "dirigindo" seus carros imaginários, passando marcha e acelerando. Enquanto isso, nós mulheres não podíamos sequer sentar de pernas abertas.

Mesmo com essas restrições, eu me sentia livre. E se usasse uma tiarinha na cabeça de cor rosa, era como se o universo sorrisse para mim. Eu ainda não sabia o que viria pela frente.

Certa vez, em uma loja, uma amiga que levava a filha pequena para escolher uma sandália ficou constrangida tamanha foi a insistência da vendedora em impor a cor rosa para ela. Mas, a pequena levou a sandália na cor certa. Aquela que ela escolheu. O rosa ficou lá preso às amarras culturais de uma sociedade que ainda insiste em envolver as mulheres em embalagens meiguinhas, recatadinhas e do lar.

Mas, desde minha infância, algumas coisas têm mudado. Apesar de o mercado calabriar o 8 de março na cor rosa e perfumar com flores mortas esse dia. Já ouço algumas amigas mais jovens com discursos e atitudes de não submissão e não se curvando diante das ordens do patriarcado. E vejo também alguns homens correndo atrás do prejuízo. Buscando dividir tarefas e (quase) não pedindo um pirulito como prêmio por isso.


O processo é lento. Ainda há muita violência que mancha de sangue a cor rosa. A cada agressão, assassinato ou tentativa de contra uma mulher pelo seu companheiro, namorado, irmão, pai ou amigo, a cada “pegada” na nossa bunda sem consentimento no meio de um bloco de carnaval ou numa festa, a cada cantada grosseira e desrespeitosa, a cada ordem dada a uma mulher – num claro tratamento diferenciado, se comparado ao tratamento dado a um “cueca” do trabalho - mais se amontoam rosas murchas e podres que são distribuídas no dia 8 de março. 

texto publicado em março, no Novo Jornal

domingo, 2 de abril de 2017

Gente, acorda!

ilustração de Maria Eugênia - Caderno de Desenhos


Nesse momento da minha vida, gostaria de botar um lençol na "cara" da relação tempo e espaço e, como se fosse um bebê, acreditar piamente que ali não há nada. Que o tempo e espaço não existem, que evaporaram. E, ao contrário da crença dos bebês que choram quando a mãe ou quem quer que seja brinca de esconde-esconde, e desaparecem por detrás do lençol, eu respiraria aliviada. Eu esperaria realmente que esse tempo sombrio e esse pedaço grandioso de terra chamado Brasil se reinventasse. Saísse desse pesadelo interminável que tanto mais caímos no buraco, maior ele fica.

Tá difícil de não falar de política. E além da dificuldade inerente, é assustador descobrir que dia-a-dia o conde Drácula e seus asseclas do Judiciário e Legislativo escavam o buraco com as próprias mãos. O buraco no qual o povo trabalhador está sendo enterrado vivo.

Aqui acolá eu me deparo com algumas pessoas comparando a vida que os trabalhadores brasileiros levam com as que levam as pessoas dos EUA. Os argumentos são patéticos. A impressão que eu tenho é que alguns passam sete dias em Orlando, se empanturram de comida processada, conhecem alguns pontos turísticos e se tornam especialistas em economia e política social. Entretanto, em seus argumentos inexiste qualquer crítica sobre os pressupostos neoliberais e sua relação nefasta com o setor produtivo. Para o sistema nós somos mero joguete, quando não, escravos.

É como se reduzissem em seus elogios rasgados aos EUA e ao fato de que as pessoas de lá vivem “super bem” - mesmo não desfrutando de férias, 13º salário ou licenças de saúde – que bem estar e felicidade se resumem somente a poder de compra. Quando sabemos que não é bem assim. Mas, ok, não vamos problematizar o sentido de felicidade, vamos falar só de política e de modelo econômico.

Quem é que em sã consciência pode jactar-se de ter dinheiro gerando dinheiro em suas vidas? Contemos nos dedinhos mindinhos de nossas mãos as pessoas que conhecemos e que vivem de aplicações, dividendos e de lucros. Aquelas que fazem parte do mito que “ganham dinheiro enquanto dormem”.

Gente, acorda! Essa galera só existe nas novelas ou esbanjando futilidade em alguma rede social. A imensa maioria de nós está no patamar daqueles que são vilipendiados pelo sistema. Seja a diarista, o vigilante noturno, ou  você que financia seu carro, e que se sacrifica para manter seus filhos em escola particular mas, no entanto, jamais saiu do pedestal para reclamar na porta da secretaria de educação que você paga impostos, mas seu representantes político não faz a parte dele. Esse entorpecimento está precarizando ainda mais sua existência, como também o futuro das próximas gerações.

domingo, 12 de março de 2017

Sobre o Grito que há no Silêncio




"Moonlight: Sob a luz do luar" é um filme que trata da infância, de bullying, preconceito, mãe solteira e drogada (meio clichê, é vero), homossexualidade, descobertas, amor, solidariedade, etc., e eu poderia desfilar ainda mais um rosário de substantivos e adjetivos para continuar descrevendo o que é o trabalho escrito e dirigido por Barry Jenkins e que brilhou no Oscar de 2017, levando a estatueta do melhor filme.

Mas não é só isso. Moonlight é um filme sobre silêncios. Sobre ser gente, sobre sofrer em saber ou não saber o que se é. É um filme que tem atuações fragmentadas que compõem um personagem que vai da infância até a vida adulta com atuações que mantém muita coerência entre todas as fases.

Logo nos primeros takes do filme, em que o personagem central, o menino Chiron (apelidado do "Little" por ser realmente franzino e tímido) é acossado por garotos maiores e se tranca num apartamento vazio é, simplesmente, de partir o coração. E ele não diz uma única palavra para que compreendamos o que ele está passando. Mas sabemos o que é, porque todo mundo já se sentiu angustiado, acuado, encrencado na vida.

Ambientado numa Miami que mergulhava no mundo das drogas e das pedras nos anos 1990 (1980? não tenho certeza), Moonlight tem atuações primorosas, como a do ganhador do Oscar de ator coadjuvante, Mahershala Ali, que faz Juan, um cubano que chegou nos EUA ainda criança e que é chefe do tráfico. Um persongem que faz as vezes de figura paterna para um menino calado, que visivelmente sofre em silêncio e fala mais com os olhos angulosos e tristes do que com a boca.

É um filme com e sobre homens. O universo feminino apenas orbita por entre a trama densa e carregada de questionamentos, sem exibir qualquer movimento panfletário. É sim um recorte social sobre aqueles que vivem à margem, seja porque nasceu na periferia, porque o marido abandonou cedo com um filho pequeno, porque se é homossexual ou porque a escolha de viver no mundo do crime é, invariavelmente, uma escolha nefasta.

O filme é intenso em alguns momentos, sem ser piegas. Sem explicar demais. A câmera muitas vezes parece nervosa, sob a ótica de um olhar que tateia a atmosfera dos ambientes e das pessoas, como se fosse o olhar de alguém, a observar a cena.


Moonlight tem violência, tristeza e diálogos profundos. Sem carregar nas tintas, sem perder de vista a sutileza do que podemos sentir ao assistir um filme e tirar nossas próprias conclusões, rebuscando nossos sentimentos, encontrando ressonâncias em nossas próprias vidas, mesmo que não haja uma relação direta com o que se passa na película. Porque apesar de estarmos diante de uma grande tela, de estarmos diante de grandes atuações, o fio condutor de Moonlight é o silêncio que nos permite respirar, suspirar e sentir a vida.


Mural



Foto extraída daqui



na falta do que dizer, a gente se abraça com o silêncio. e deixa os outros sentidos mais aguçados. meus olhos veem coisas que querem dividir com vocês. por isso está inaugurada uma nova sessão no Bicho. na falta do que dizer, eu busco palavras, desenhos e experimentos. meus e, principalmente, alheios. esse é da artista regina parra. lá no site dela tem muita coisa bacana.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Só se for por timidez



Sempre gostei de insetinhos, borboletas, soldadinhos, joaninhas e lagartixas (que não são insetinhos, eu sei). Quando os aladinhos passam pelo meu jardim, sinto como se fosse um bom presságio. E, mesmo que não ocorra nada de diferente, pra mim só a presença deles já me parece um bom presságio. Não precisa ser uma loteria ganha na quarta-feira, vai. Hoje tive a sorte de receber dois visitantes em casa: um imbuá na cozinha e agora (esse da foto) um insetinho verde que super contrastou com a caixa onde ficam os livrinhos sobre cinema, que eu ganhei de uma amiga.

Antes, ele tinha passado pelos livros do Borges. Mas, como se pressentisse minha vibe paparazzi, voou ligeiro para mais acima das prateleiras. Eu gostaria que ele encontrasse o caminho dele e voltasse para o jardim. Lugar mais adequado para um insetinho verde morar. Ele pode fazer o puxadinho que quiser no meu jardim. Chamar amigos e tal. Só não vale comer as rosas do deserto.


Assim como também gostaria de encontrar o meu. É que eu ando meio perdida ultimamente. Acho que o mundo tem muitas pontes do bom senso quebradas, as pessoas estão se distanciando umas das outras e às vezes até de si mesmas, navegando seus barquinhos de papel, furados, solitárias. E ao invés de buscar uma margem segura e sensata, se dirigem para o precipício da queda d´água.

A esperança ou o desespero são construídos em pequenos, ínfimos, instantes. Difícil não sorrir ou não se enternecer com sorriso de criança. Assim como difícil não costurar o canto da boca com silêncios profundos quando você solicita alguém e essa pessoa mente pra você. Algumas são até educadas. "Vou ver sim". "Ficarei atento". "Claro! Vai dar tudo certo". E você sente que no próximo instante a ponte entre a fala e o gesto será quebrada. Como se você ficasse de braços abertos para um abraço vazio. Um beijo que estalou seco no ar, sem as almofadas da bochecha para amortecê-lo. 


O mundo já está cheio de exércitos. Tem pessoas armadas de ódio; tem exércitos de pessoas tristes. Exércitos de gente maledicente que não consegue sorrir sem passar promissória. A gente precisa aumentar o exército das pessoas que acreditam na humanidade. Pessoas que entendam que a dor não passa só com aspirina ou com cocaína. Pessoas que gostam de pisar em folhas secas, que leem poe-mas em voz alta, ou algo do tipo. 

Montarmos um exército de gente que ao invés de super-valorizar carrões importados, que se enterneçam com a presença das Xananas nos cantei-ros. Pessoas que no lugar de fazer discursos, façam gentilezas a estranhos na rua. Gente que não desvie o olhar. Mas se o fizer, que seja apenas por timidez.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Tédio nosso de cada dia




Nossos gatos nos acordam todos os dias praticamente no mesmo horário. Sabemos o porquê: reivindicam com seus bigodes o primeiro passeio matinal. Depois, cada um deles volta e come ração. Em seguida, tiram uma soneca de umas três horas. Acordam. Comem. Tomam água. 

Por volta das 16h, novo apelo para o segundo passeio. Voltam. Comem. Bebem. Dormem. Quase tudo corre igualmente idêntico no transcorrer dos dias. Dos anos. O primogênito já tem mais de uma década da mesma rotina diária. Se fossem eles pessoas, certamente, já teriam gritado ao mundo que vivem no mais genuíno e profundo tédio. Essa coisa pela qual não estamos treinados a suportar. Mas eles são gatos.

Não estamos treinados mas, invariavelmente, somos compelidos ao tédio na grande maioria do tempo. Afinal, nem todo dia é dia santo ou quatro dias de carnaval em Olinda. 

A repetição é absolutamente inerente à condição humana. E, acredite, caro leitor, morre-se menos de tédio do que de frustração em não querer admiti-lo. Criatividade, originalidade e a apotheósis não dão em árvore, nem são tão fáceis de se manifestar. Tal qual um bom orgasmo, ninguém suportaria uma existência apoteótica em inventividade e criatividade. São necessárias a calmaria e a repetição para que nossa vida seja compreensível.

A ideia de "Livin´ La Vida Loca" só na música do Ricky Martin. Até a arte, que seria uma espécie de oposto do tédio, da mesmice, da repetição, tem cada vez mais perdido espaço para o abismo da falta de criatividade. 



Não tome isso como se eu tivesse um trunfo na manga, caro leitor, mas, por exemplo, eu não assisto ao BBB. O programa mais chato, vazio e repetitivo da história da televisão brasileira há mais de uma década de exibição. Seria uma afronta às minhas agonias, fastios, apatias e molezas pessoais, se as substituísse pela dos outros. E, pior, vindas de um programa de tv tão vulgar.

Mas há quem goste de fazer de sua vida um programa de TV. Nem que ele tenha dez segundos, ou alguns minutos. Vale tudo: mostrar o café da manhã; mostrar que está puxando ferro; mostrar a cor do esmalte; mostrar que está pisando numa calçada; mostrar que mudou a cortina; mostrar que acordou de cara amassada; mostrar a boca em bico; mostrar, mostrar, mostrar. Mais do que viver. 

Vale mais que os outros saibam como transcorre aquele interminável minuto de sua vida, do que você parar um pouco para pensar ao menos um minuto na sua vida. É o êxtase da exibição engolindo a profundidade de ser e estar em algum lugar, sendo alguém. Não uma coisa à mostra. Não um objeto a ser consumido pelo olhar alheio. Não uma pessoa que passa pela timeline, mas nunca fica para um café. Uma pessoa que dribla o tédio com doses cavalares de repetição do próprio tédio.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Bon Iver - For Emma, Forever Ago (Extended)





Eu amo esse álbum... as canções me acompanhavam pelas trilhas que eu fazia com a minha velha bike de cestinha que descansa preguiçosamente no quartinho coletivo do prédio. Cada canção ouvida é uma esquina dobrada ou uma subida ou descida. Nossa! Como eu gosto dessa sensação.

Chet Faker - No Diggity (Live Sessions)

deer stop

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

E eu com isso?




As pessoas comemoram os corpos esquartejados no presídio, do mesmo jeito que comemoram o AVC e agora a morte da ex-primeira dama do Brasil. Gente que se diz cidadã de bem, que trabalha, paga impostos, vai à missa ou ao culto, que é temente a Deus. Aliás, "Good Citizen", era o nome do jornal veiculado pelos grupos que deram origem ao Ku Klux Klan (que pregava a superioridade branca, era ultra-reacionário e extremista), e que me parece ser reeditado todos os dias nas opiniões e posturas nas redes sociais, quando o assunto é a  condição humana daqueles que não são espelho.


A gente só é e faz aquilo que chegou primeiro em pensamentos e palavras. A barbárie começa quando olhamos para o menino que está pedindo esmola no canteiro e pensamos que ele vai nos roubar e, em seguida, dizemos: "tão novinho, já se encaminhando para o crime". Se eu não tenho a capacidade de transferir para outras pessoas os mesmos sentimentos e sentidos que me tornam humana, que me fazem ter fome, sede, frio, medo, dor, desejos, necessidades, satisfação, essa outra pessoa passa a ser uma coisa que pode ser decepada, esquartejada e queimada. Ela não é mais um ser humano. E eu nem sinto culpa em julgá-la inepta ou inapta pra vida, e de desejar ou vibrar com sua morte. E me esqueço também de que viver em condições subumanas, sem água, com comida precária, sem o convívio da família, dentro de verdadeiras jaulas, na companhia de estranhos perigosos, não será uma situação que se encaixe como antídoto contra a violência e a recuperação social.

E se alguém que me lê agora, está pensando em me mandar "levar um assassino para casa", eu peço que antes de me julgar por eu não compactuar com falsos discursos moralistas e nem incitar a violência, ou não concordar com a barbárie, com a pena capital ou com o extermínio dos violentos com mais violência, que leve pra rua um pouco mais de tolerância e empatia. Se você, cidadão de bem, se imagina acima do mal e que não comete erros ou deslizes, que ao menos se coloque no lugar daqueles que são pais, filhos, mães, irmãos e amigos de pessoas criminosas e que estão "pagando" suas penas nos presídios "resorts" brasileiros. Pense na dor dessas pessoas antes de sair comemorando a morte de seres humanos. A barbárie dos gestos começa no discurso. 

O que acontece por lá tem muito a ver com o que você pensa e diz  por aqui.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Sobre uma noite de conversas, chá e descobertas




é porque eu quero que elas me olhem e vejam através de mim
e vão além de mim
que sou só poeira e vento.
que sejam "curuminhas" livres em pêlo
e filhas, mães, avós e filhas de novo, 
se assim for preciso

é porque eu gosto da fumaça que sai das palavras doces delas
e têm gosto defumado de descoberta
e a devassidão das coisas incrivelmente puras
que cabem dentro de uma sala clara
nas teclas de uma máquina de escrever portátil olivetti
e numa máquina de costura

é porque essa minha inclinação para os gatos pretos, 
as ovelhas negras e os manjericões
me levam para além de mim e para dentro



para ísis e mari, com carinho e admiração.


Sem alma, suor e amor





Responda rápido essa pergunta: o que é mais opressor? Uma burqa, um biquíni ou um burkini? Provavelmente a maioria de nós pense em responder de imediato que o que mais oprime é a burqa, ou o burkini (um neologismo que une as vestimentas burqa e biquini, utilizado por mulheres muçulmanas. A peça foi criada há quase 17 anos, na Austrália, pela estilista Aheda Zanetti, muçulmana nascida no Líbano, e é popular entre as mulheres que necessitam cobrir todo o corpo ao sair de casa). Essa regra não vale para todas as muçulmanas. Sé em algumas regiões.

 Mas, numa reflexão mais apurada, pergunto novamente, o que seria mais opressor? Uma vestimenta que esconde ou uma vestimenta que te julga? Quantas de nós mulheres - e incluo os homens também, cada vez mais paranoicos com essa questão de beleza - não se sentiu mal em tirar a roupa na praia? Não sentiu olhos imaginários catalogando sua bunda e cada celulite que possa existir nela? Lembro-me de uma repercussão que ocorreu anos atrás, quando nossa top Fernanda Tavares desfilou de biquíni e apareceu uma celulite em seus glúteos magrinhos. Isso mesmo, UMA celulite. Pauta nos jornais televisivos, gente horrorizada!

A burqa é sem dúvida um controle sobre o corpo feminino. Aliás, questões culturais e religiosas há muito tempo, controlam o corpo feminino, colocando-o como uma propriedade do masculino, do patriarcado, do pai e do espírito santo. Mas, e o biquíni não é? Se nem todas as mulheres se sentem à vontade para expor suas curvas na praia, e se sujeitariam até mesmo a usar um burkini para fugir dos olhares, será que não somos também oprimidas pela fantasia do corpo perfeito? Pela exigência de padrões alcançados somente por uma ínfima parcela de seres humanos que têm tempo largo para gastar em academias, ou com médicos, esteticistas, cremes, drenagens e uma boa dose de falta do que fazer?

Se algumas muçulmanas perdem sua identidade visual por conta das burqas, muitas de nós ocidentais, perdemos nossa identidade visual por conta das atrizes de novelas que, milagrosamente, após três meses que pariram, aparecem em fotos na praia sem um pingo de barriga, ou por causa de outras moças que têm como profissão fazer do corpo um produto, uma vitrine da moda ou do fitness. Elas estão erradas? Precisam ser excomungadas? Claro que não!

Entretanto, esse sistema de dominação, seja ele religioso, seja ele consumista não nos representa! Saiamos desse corpo fantasioso que não nos pertence! Aliás, não pertence a ninguém. Antes um corpo imperfeito que sente, que pulsa, que um corpo desenhado, mas sem alma, sem suor na cama e sem amor.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quando não é sorte




Contraditoriamente, o "salve-se quem puder" tão comum nas grandes cidades, tem matado muita gente. Todos os dias ouvimos, lemos ou assistimos histórias de violência. E por trás dessa violência, tem muito silêncio, alheamento e bolhas de enclausuramento. Ora, se existem aqueles que fingem dormir no assento preferencial de idosos, para não ceder-lhes o lugar, imagine quando o circo pega fogo. A tendência é ninguém interferir, fingir que não está vendo.

O fenômeno da violência geralmente, recai sobre pobres, negros, adolescentes, mulheres, gays. Não é menos grave quando ocorre com outras classificações sociais, lógico. Mas nessas citadas é bem mais gritante. E mais evidente ainda a diferença de tratamento quando a violência atinge a irmã de um juiz ou o filho de um empresário. Milagrosamente, os casos são resolvidos mais rápido.

Vou tomar como exemplo, o caso do vendedor ambulante, Luiz Carlos Ruas, mais conhecido como “Índio”, que no final do ano passado morreu espancado por dois trogloditas, por tentar defender travestis perseguidos por eles, num metrô em São Paulo. Para continuar vivo, Ruas deveria ter ficado calado, quieto e indiferente à dor alheia.

Ao contrário, ele fez o que qualquer pessoa na face da terra aconselharia não fazer: se importar com o outro; ir de encontro à violência, tentando usar o argumento da solidariedade. Colocar-se no meio da brutalidade e da estupidez. Apontar para um outro caminho que não seja o ataque ou a fuga.

Lembro que quando fui assaltada em Petrópolis, o moço que pastorava os carros viu; os motoristas que dirigiam seus carros pela via movimentada, viram; o porteiro do prédio viu. Ninguém se meteu. Diante da violência nua e crua, acionamos aquela voz que diz: "alguém vai surgir e vai resolver esse problema". Mas, se esse alguém por acaso for o Estado e a Polícia, só nos resta contar com a sorte.

Porque o Estado - e falo do brasileiro em geral, já que cito um exemplo de São Paulo e um daqui de nossa cidade - já assinou seu atestado de incompetência faz tempo. Os espaços públicos pertencem a todo mundo e não pertencem a ninguém. Logo, se os espaços púbicos não têm dono, nem o Estado consegue ocupá-los com o mínimo de segurança, então só nos resta a solidão no meio das gentes.

E, se não passarmos incólumes ao outro, corremos o risco de olhar para dentro do olho da violência e torcer para não morrermos na calçada movimentada de pedestres.

Salvar-se na sorte não é salvamento, é penitência. É só adiar o azar, sabendo que a qualquer momento ele pode voltar.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Escrever

Reprodução internet


Sobre o verbo que titula esse post, eu diria que faz parte da minha vida como faz parte o sol para tudo o que há. A primeira vez que escrevi eu nem conhecia as letras então eu desenhava. Eu contava histórias na ponta dos lápis de cor e penso que isso já era uma forma de escrever o que eu vejo no mundo. E o que eu vejo no mundo nem sempre é o que o mundo vê. É tão somente, eu acho, uma forma de ver o mundo que não é melhor ou disforme. É só outra forma.

Eu tenho vergonha de dizer coisas do tipo, estou escrevendo um livro de contos. Na verdade eu tenho vergonha de não estar escrevendo o livro de contos como eu gostaria. De sempre arrumar uma desculpa para começar aquele conto ou terminar aquele outro já iniciado. Eu tenho vergonha porque, sobretudo, eu tenho muitos livros para ler e em todos esses muito livros para ler existem mil razões para só me manter leitora ou para desfiar outras linhas e tramas das palavras que já foram ditas. Mas isso é bem difícil, porque eu acho que tudo já foi muito bem dito ou está muito mal dito para ser dito de novo, e não que tenha de ser dito de novo de maneira melhor ou disforme. Só dito de novo, de um outro jeito.

É que às vezes a vida atrapalha. Tal como os pensamentos que não se acalmam ou se organizam, e não dão trégua para o silêncio necessário antes da dança da escrita. Tenho preocupações de sobrevivência que me tiram o sono e me tiram o sossego. E eu não nasci Arthur Rimbaud que conseguiu fugir para a África do Sul depois de levar um tiro do amor.

Eu me sinto num jogo de não começar a escrever meus contos, para fazer meu primeiro livro de contos e para continuar pisando nas linhas das calçadas, colocando vírgulas, pontos e parágrafos nos meus pensamentos, porque é assim que um escritor caminha. É assim que ele vê a vida. Mas às vezes a concentração chega antes ou depois da transpiração. 

Isso tudo parece uma grande desculpa, e eu já vou me desculpando. Fato é que não estou inventando a roda da procrastinação. E todo escritor um dia desprendeu minutos, horas, dias, anos fazendo coisinhas inúteis, pequenas emergências, arquivos abertos ou perdidos, anotações nunca encontradas, lápis sem ponta, caneta sem tinta, barulho do vizinho, o gato que desapareceu, como amontoados de coisas que vão se acumulando entre o ser e o fazer.

Antes, eu achava que para ser escritor era preciso ter vários livros e fazer lançamentos e tomar doses de uísque e paquerar com algum desocupado vestido de blazer. Agora eu sei que para ser escritor não é preciso quase nada. Ou são necessárias coisas diferentes e singulares a quem estiver disposto a segurar esse fardo. Mas, para ser isso que vos falo, por primeiro, é preciso admitir-se no vazio, no limbo, no silêncio, na incompetência de não sair da dor ou de não extrair dela a constância das palavras.




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O nome





O nome é o traço mais marcante na vida de uma pessoa. Pode ser o nome mais comum. No entanto, ele é único. É o que reveste a existência nua de cada um de nós.

Inventaram de botar um “y” no meu nome. Pois, partindo dessa premissa, se a pessoa me escreve o nome com “i”, eu já fico 50% desinteressada sob qualquer aspecto dela.

Pior é que isso já aconteceu com um chefe que tive, com um namorado a quem eu tinha muito apreço e agora, recentemente, com uma moça muito gentil e talentosa – que é amiga virtual – e que não se importa com a grafia correta do meu nome. É meu nome pô. É o único que tenho. Até porque nem é composto. Não quer escrever meu nome com “y”, então me invente um apelido.

Eu acho que jamais conseguiria trabalhar feliz num telemarketing. Por várias razões. Mas a principal delas seria pelo fato de que é raro as pessoas do outro lado da linha se lembrarem do nome da pessoa que está ali querendo vender um novo pacote de telefonia.

Faço um esforço brutal para me lembrar do nome. Embora nem sempre consiga: “boa tarde, senhora, meu nome é “Pridsdurals” e a senhora gostaria de estar fazendo conosco o novo pacote plus delta azul blá blá blá?”. E eu, que não entendi da primeira vez qual o nome criatura, prendo a respiração de vergonha. Afinal, acho que mesmo que seja para dispensar um serviço -  que você não pediu, que você não está a fim, que você nem sabia que existia – de uma pessoa que é só um nome inaudível – mas que tem metas, que precisa conseguir convencer outros desconhecidos, cujo nome é só mais um em tantos de uma lista catalogada por um robô, é preciso ter um pouco de educação e candura.

Então, para me redimir eu digo: “Desculpe, eu não entendi seu nome”. E a pessoa repete. E eu, com toda delicadeza, digo que não tenho interesse. Invento uma desculpa ou digo a mais absoluta verdade, mas com doçura. E ela entende.

Meus gatos entendem seus nomes. Claro que eles estão sempre acompanhados de “bora”, “vamos”, “não”, “aqui”, ou junto com o barulhinho tilintante da ração batendo na louça de suas vasilhas de comer. De modo que eu tenho cá minhas dúvidas se eles sabem que seus nomes são Fellini, Dolores, Nicco, Morgan e Zoeh, ou se eles se identificam mais com “bora”, “vamos”, “ei!”. 

Porém, garanto que eles reagem individualmente aos nomes escolhidos. Se chamo Fellini, é ele quem mexe as orelhas. Se grito o nome da Zoeh é ela quem se esconde debaixo da cama. Sem contar com os inúmeros apelidinhos que eles ganham ao longo de sua existência. Enfim, o nome é como se sussurrássemos algo que conecta a vida a e alma.