Google+ Followers

sábado, 17 de junho de 2017

A MULHER QUE QUEBROU TABUS


Primeira prefeita eleita de Natal, primeira governadora do Estado, casada com um oligarca da política local, quando se separou,  muitos falavam em sua ruína política. Mas não foi. Se casou mais outras duas vezes. Ao contrário da maioria dos políticos, a vida pessoal que fugia das convenções nunca atrapalhou sua vida política. Há quem a veja como mais uma figura política repetidora dos mesmos padrões de poder e corrupção. Julgamentos à parte, dona Wilma de Faria foi uma mulher memorável. Uma pessoa que vistoriava as obras do seu Governo com cuidado e atenção, que tinha uma voz mansa e um, indubitavelmente, uma mente estratégica em se tratando de política. Fiz essa entrevista com ela em janeiro de 2014, e foi publicada na edição de fevereiro daquele ano na Revista BZZ, da jornalista Eliana Lima. Republico-a agora no meu espaço pessoal, para relembrar daquela conversa franca com ela. Saí admirando ainda mais a "guerreira", sepultada ontem em Natal.


Quando ainda estava no ensino médio, ela abriu mão do sonho de dedicar-se aos estudos, tornar-se médica e só se casar depois dos 25 anos. Casou-se aos 17, virgem, com um homem que tinha o dobro de sua idade. Aos 18 anos, nasceu o primeiro filho, vieram mais três, “um atrás do outro”, como relembra. Só sentou nos bancos da Faculdade, para fazer licenciatura no curso de Letras, depois que os filhos nasceram e, mesmo assim, enfrentando uma certa resistência do então marido. Até aí, a ex-governadora do Estado, atual vice-prefeita de Natal, Wilma de Faria, 68, não foge à regra dos casamentos convencionais e do que é exigido como papel feminino para boa parte das mulheres de famílias tradicionais do Estado, oriundas do interior. Ela é mossoroense e foi criada no Seridó. Entretanto, seguir as regras convencionais, dedicar-se somente à vida doméstica e aos filhos ou manter um casamento só pela aparência estava longe de encerrar a trajetória de sua vida. Pode-se considerar que Wilma de Faria é uma mulher que, com voz mansa, porém firme, tomou as rédeas de suas decisões, sejam elas no campo público ou privado.Tornando-se uma das maiores lideranças políticas do sexo feminino no Rio Grande do Norte, cujas escolhas tomadas no âmbito doméstico e pessoal nunca afetaram sua vida pública. Alguém duvida? Das dez eleições que até hoje disputou, perdeu três e ganhou sete. Foi a primeira mulher eleita deputada federal, a primeira a governar a capital potiguar, em seguida elegeu seu sucessor (Aldo Tinôco); e também foi a primeira mulher a governar o Estado, conseguindo, inclusive, ser reeleita; em 2010 perdeu a disputa por uma cadeira no Senado Federal e, quando todos pensavam que ela pudesse estar aniquilada politicamente, se reinventou, e foi eleita a vice-prefeita de Natal, sem perder de vista e sem deixar de ser uma das principais citadas nas rodas e pesquisas como uma possível candidata nas próximas eleições, inclusive para chapa majoritária.

Depois de 27 anos casada com o primeiro marido Lavoisier Maia - um médico e tradicional político do Estado, que foi governador, senador, deputado federal e se despediu da política em 2011, quando acabou seu mandato de deputado estadual - ela decidiu dar um ponto final na união que, segundo ela, já não tinha mais sinais da paixão inicial. “Quando nos casamos, eu já o conhecia por volta de uns dois anos antes, porque ele frequentava a casa de uma amiga em comum. Aí me apaixonei e de repente parei de estudar para casar. Foi uma coisa de adolescente. Houve assim, uma interrupção do sonho (de estudar Medicina) do ponto de vista profissional”, revela, deixando claro, em vários momentos da entrevista que não estava acostumada a falar de sua vida pessoal e, portanto, não escondia um certo constrangimento e cuidado com terceiros.

Em 1976 Wilma de Faria passou no primeiro concurso de professor colaborador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para lecionar Didática no Departamento de Educação. A veia política foi se revelando primeiro nos bastidores. “Eu sempre fui da militância política, participava dos eventos, das discussões, ajudava nos planos, mas nunca pensei que poderia estar à frente. Eu estava no jogo para apoiar as pessoas que estavam ao meu redor”. Em 1985, cinco anos antes de se separar de Lavoisier, quando era secretária do Trabalho e Assistência Social, no governo de José Agripino, seu nome apareceu com alguns pontos na pesquisa com indicativos de nomes para a disputa da Prefeitura de Natal. Cedeu à pressão, já que havia uma vacância, porque o preferido na época de José Agripino, o recém falecido João Faustino não queria disputar aquelas eleições. “Eu aceitei”. Mas impôs uma condição: “Eu não queria somente subir em palanques, queria fazer uma campanha eleitoral diferente. Então eu disse, vou caminhar nas ruas, entrar na casa das pessoas e conversar com o povo para poder fazer um plano de governo que atenda às necessidades do população”, relembra. E nascia ali, segundo ela, uma nova forma de fazer política. “Revolucionamos a ponto de nossos adversários terem de fazer o mesmo que fazíamos”. Não ganhou as eleições. Entretanto, no ano seguinte, sua estratégia do tête-à-tête com o povo deu sinais de sucesso. Foi eleita a primeira deputada federal do Rio Grande do Norte com uma votação histórica, sendo a mais votada em números absolutos em todo o Nordeste e, em números proporcionais, a mais votada de todo o Brasil. Perdendo somente para Lula, candidato ao mesmo cargo em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

Nesse ínterim, a vida com o primeiro marido já não estava mais viável. Quando, em 1990, se separou, achou por bem retirar do seu nome o tradicional “Maia” de Lavoisier e passar a ser chamada pelo nome de solteira, “Faria”. “As pessoas diziam que eu iria me acabar tirando aquele nome. Mas eu achava que como eu tinha começado a minha vida pública com uma ligação de uma família que estava no poder, eu tinha que tirar o Maia, eu queria continuar o caminho político com meu próprio nome”.

Wilma de Faria reconhece que entrar para a vida política sendo mulher, confere algumas vezes, pechas nada agradáveis. Pessoas, que ela diz que sempre eram ligadas a grupos políticos nunca do povo, a taxavam disso ou daquilo, usando expressões chulas ou preconceituosas, no entanto, sempre por trás e nunca a encarando de frente. Enfrentou também discriminação de gênero. “Vivi várias etapas. No início quando só tinham duas, três, dez mulheres prefeitas entre cinco mil prefeitos, nós éramos sempre homenageadas. E isso também é uma forma de discriminação. Depois, passamos a ser questionadas em termos de capacidade. E é aí que a gente tem de manter a firmeza. Não se pode ser líder se não tiver ideias e não souber como defendê-las”.

Não existe fórmula perfeita ou jeito ideal de ser mulher na política, mas Wilma transita entre momentos de precisar ter pulso de ferro e de bater na mesa para defender suas ideias, a recuar e reconhecer, com humildade, quando deve ouvir. “Por exemplo: na minha vida política, se chegar uma pessoa e me pedir algo que eu não tenho condições de oferecer a ela, as pessoas ficam exasperadas, às vezes um ou outro assessor fica sem saber o que fazer. Eu trato diferente, eu aceito o confronto. Acalmo minha voz, faço com que ela acalme também a voz, para acharmos uma saída, sem desespero. Então às vezes eu sou um pouco psicóloga também”, e diz isso sorrindo. Transparente nos sentimentos e emoções, Wilma fica na dúvida se essa visível percepção de estar ou não bem é uma boa característica. “Eu sou muito transparente. Não sei fingir muito. Às vezes a gente tenta ser alegre, tem que demonstrar alegria. Os homens são mais blindados, as mulheres têm muito o que aprender. Mas é muito bom a gente ser quem a gente é. É ruim ficar triste, mas se não houvesse tristeza, não poderia saber como é bom buscar a alegria e a felicidade”, filosofa.

Ela só teve governanta na época em que era governadora do Estado, e porque era obrigatório. Portanto, ela mesma quem se encarrega de administrar a casa, de saber se as contas estão sendo pagas e que tipo de supermercado será feito. Com a ajuda do marido, é claro. “Meu marido ajuda, define a comida, as coisas da cozinha. Ele já se encaixou nessa parte aí sim (de ser um ‘novo homem’). Mas o machismo ainda impera em todos os homens. O mundo ainda é muito machista”, deixa escapar.

Não tem muito espaço para isso na sua vida atual, mas se tiver que ir para a cozinha, além de alguns pratos mais elaborados, ela diz que sabe fazer um bom bife acebolado com arroz. “Minha vida pública me impede de ser uma pessoa normal, de fazer uma compra na rua, que observa bem antes de comprar e pode até desistir da compra, como fazem todos os homens e mulheres. Eu não consigo fazer. Porque as pessoas me veem de uma forma diferente”. Mesmo com algumas dificuldades por ter se tornado uma espécie de “celebridade” política, Wilma diz que não abre mão de sair de casa, caminhar na rua e de ir fazer compras. Mas a liberdade já está comprometida faz tempo. Uma simples entrada numa parte mais popular de um shopping pode virar um tumulto. É tanto que às vezes recorre ao marido, e às filhas, para fazer as compras e os presentes.

Considera-se vaidosa, mas sem exageros. Usa cremes receitados pela dermatologista. Sempre que tem tempo faz ginástica e quando não tem tempo, ao menos faz caminhadas. “Não costumo repousar durante o dia. Trabalho direto, então, não durmo menos de sete horas. No mínimo, quando a agenda está cheia, seis horas por dia”, diz. A assessora acrescenta que ela gosta de estar sempre bem arrumada, mas não dá muita bola para marcas. “Não ligo para marcas A, B ou C. Às vezes você encontra roupas em lojas de departamento e que caem muito bem, então compro”.
Na vida particular, Wilma está no terceiro casamento. Na verdade, ela não chegou a casar com o advogado José Maurício, eles estão há nove anos juntos, numa “união estável”. Pouco mais do que o tempo que passou com o segundo marido, o advogado e procurador aposentado do Estado, Hérbat Spencer, de quem Wilma fala muito pouco, mas deixa claro que depois da separação ela procurou preservar o apreço e respeito. Sobre a experiência de viver a dois e de já estar encarando a terceira tentativa, ao ser indagada se vale à pena acreditar no amor ela responde: “Eu acho que vale para todos, homens ou mulheres. E acho que também na hora que não dá mais, tem que finalizar. Melhor do que ter um desgaste até na amizade. Porque a amizade tem de estar junto do amor. Se você deixa de amar, tem de separar para não deixar acabar a parte mais importante, que é a amizade. E não é só pelos filhos, tem de ser também por aquele tempo que você passou junto com a pessoa”, formula e conclui: “Eu cumpri bem (o papel) com meus maridos. Acho que toda mulher deve ir à luta para buscar a sua independência, seja a financeira, seja a emocional. Ter coragem de dizer não, sobretudo aos machistas”.

Discreta, Wilma de Faria não transparece se importar muito sobre o que pensam de sua vida privada. Principalmente quando se trata da população, que ela acredita que o povo sente algo tão forte e genuíno por ela, que vai além das questões pessoais. Quando provocada sobre qual teria sido a maior quebra de tabu de sua vida, ela relembra de sua trajetória política; das vezes em que enfrentou adversários que ela costuma chamar de “poderosos”. E a senhora não é também uma poderosa? E ela responde: “Me considero uma liderança política. Quando falo dos poderosos, falo do poder econômico, da comunicação, e também a forma de ver o mundo, achar que é possível manipular. Eu não acho que é possível manipular todo mundo, você tem que debater e dialogar”, encerrando a conversa, não sem antes responder a um rápido ping-pong, no qual ela ouvia uma expressão e falava o que lhe vinha à cabeça:


Um prazer: passear na praia, beijar um filho ou um neto;
Um arrependimento: vários... daqui a pouco eu falo;
Uma viagem: tive várias inesquecíveis. Mas no Rio de Janeiro sempre tem recantos agradáveis e que me marcaram.
Um sonho: de ver o Rio Grande do Norte crescer, se desenvolver. Como política, sofro muito de ver na capital ainda tantas áreas pobres, sobretudo nas margens do Potengi.
Um pecado: (pensa muito). O pecado da gula é muito ruim porque prejudica a mente e o corpo. Os sete pecados capitais.
Um vinho – tenho tomado vinhos chilenos
Um arrependimento (voltando ao tema): não vi praticamente meus netos crescerem. Me arrependo de não ter podido cuidar, no sentido de mimar os netos, como avó.


Observação: Nessa publicação, mantive o texto original, sem a edição da Revista BZZ.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Ele é linda, ou seria ela é lindo?



Estreou na Netflix há poucos dias o documentário “Laerte-se”, que tem como personagem principal a cartunista Laerte Coutinho.

Ela  há quase dez anos deu um esticada na corda do significado de liberdade individual e questões de gênero, após decidir pelo crossdressing (vestir-se como mulher). Ganhando, de quebra, ainda mais admiração e respeito por parte de alguns e, óbvio que também muito bullying e demonstrações de intolerância, incompreensão e ódio.

Afinal, não é todo mundo que entende o que significa para um profissional já bastante respeitado no mercado, com cerca de 40 anos de carreira como cartunista, criador de personagens como Piratas do Tietê, Palhaços Mudos e Fagundes, pai de três filhos, algumas ex-mulheres, resolve, mudar seu guardarroupa, trocando as calças masculinas por saias e as cuecas por calcinhas. Claro que esse tipo de mudança, de escolha e transformação não acontece de repente. O personagem Hugo, criado por ele, que o diga: foi trocando as vestimentas e assumindo sua transgeneridade nas tirinhas, uns passos antes que seu criador na vida real.

Eu sempre pensei em Laerte e na sua doçura de enfiar uma britadeira simbólica nos padrões convencionais como um sujeito político. Político no sentido mais puro: aquele fenômeno que nos conduz a uma posição, a uma escolha e à defesa disso.

Laerte é gay, bissexual, transgênero? Namora uma lésbica, quer colocar peitos de silicone mas jamais pensou em cortar o pinto fora. Laerte é uma mulher? Eu não sei se ela está muito preocupada em preencher todas as lacunas para esses questionamentos.

Ela é uma provocação ambulante, mesmo que não pretenda fazer isso o tempo inteiro. Aos 23 minutos do documentário de uma hora e quarenta, que durou três anos para ser feito, eu e meu companheiro damos uma pausa para falar sobre nossos limites e nossas necessidades silenciosas de ultrapassar esses limites. Eu confesso que gostaria de tatuar todo o rosto e raspar o cabelo. E que me falta coragem, óbvio. E ele, que gostaria de usar saia e experimentar essa liberdade do “ventinho” no meio das pernas. Laerte é também essa representação de nossas pausas.

Laerte-se é dirigido por outras duas mulheres, Ligya Barbosa da Silva e Eliane Brum. Essa última aparece na frente da tela, fazendo o modelo de entrevista, dos mais encantadores que eu conheço: que é quando mal se ouve a voz do entrevistador e pouco se vê da sua imagem. Afinal, o verbo é fazer notícia e não ser notícia. Levou três anos para ser produzido. E eu penso que é um filme que traz um pouco da intimidade da Laerte mulher que não está preocupada em ser mulher, e sim em trabalhar-se no processo de sentir-se mulher.

E isso nós também fazemos o tempo inteiro. Em cima dos nossos muros ou por trás deles, estamos num constante processo de escolhas, aprendizados e sentimentos com relação a quem somos, o que queremos e aonde chegaremos com isso.

Não bastava ser genial nos cartuns, um cronista do seu tempo através dos desenhos, uma referência nacional nessa área. Ele precisava ir-se além. E é por isso que ele é linda ou ela é lindo. Essa terminologia, confesso, que me confunde um pouco ainda e faz parte sim das minhas limitações. Porque ela nos dá a marreta para que possamos quebrar nossos muros. Se será apenas uma pequena fresta ou a queda do muro de Berlim, isso aí já é outra história.

fiz modificações no título aqui no bicho, mas já havia publicado no Substantivo Plural com outro título que você pode ver aqui

"Você não presta", clipe da Mallu Magalhães


Dá uma olhadinha nesse clipe


https://www.youtube.com/watch?v=hrh6zd5c0OY

agora, beleza... você assistiu e, sinceramente, você acha que ele sexualiza demais os negros ou têm uma letra que os inferioriza? eu, particularmente, achei o clipe bonito e a cantora não tem cancha para ser agressiva ou ofensiva contra qualquer que seja o movimento, sobretudo o racial. mas alguns movimentos se sentiram ofendidos e tal. e a moça, respeitosa e dona de um domínio elegante e profissional, imediatamente fez questão de se desculpar. veja aí o que ela escreveu:




Fico muito triste em saber que o clipe da música “Você não presta” possa ter ofendido alguém. É muito decepcionante para mim que isso tenha acontecido. Gostaria de pedir desculpas a essas pessoas. Meu trabalho e minha mensagem têm sempre finalidade e ideais construtivos, nunca, de maneira nenhuma, destrutivos ou agressivos.

A arte é um território muito aberto e passível de diferentes interpretações e, por mais que tentemos expressar com precisão uma ideia, acontece de alguns significados, às vezes, fugirem do nosso controle.

Sei que o racismo ainda é, infelizmente, um problema estrutural e muito presente. Eu também o vejo, o rejeito e o combato.

Li cada uma das críticas, dos posts e comentários, e o debate me fez refletir muito sobre o tema. Entendo as interpretações que derivaram do clipe, mas gostaria de deixar claro minhas reais intenções.

A ideia era ter um clipe com excelentes dançarinos que despertassem nas pessoas a vontade de dançar, de se expressar. Foram convidados pela produtora e pelo diretor os bailarinos Bruno Cadinha, Aires d´Alva, Filipa Amaro, Xenos Palma, Stella Carvalho e Manuela Cabitango. Com a última, inclusive, tive a alegria de fazer aulas para me preparar para o vídeo.

É realmente uma tristeza enorme ter decepcionado algumas pessoas, mas ao mesmo tempo agradeço a todos por terem se expressado. E reitero o meu pedido de desculpa. É uma oportunidade de aprender.

Espero que, após este esclarecimento, seja aliviado deste espaço de conversa qualquer sentimento de ofensa ou injustiça, ficando os fundamentos nos quais tanto acredito: a dança, a arte e o convite à música.

MALLU"

terça-feira, 16 de maio de 2017

Direito de ser





Minha avó aboiava dentro de casa. Isso mesmo. Era uma espécie de evocação de suas memórias. Uma forma de estar próxima do seu pai, irmãos e agregados que aboiavam para conduzir o gado pra dentro ou fora do curral, nos tempos em que ele vivia lá pelos lados da Fazenda Surrão, no semiárido da Paraíba. Minha avó se foi há 21 anos. E eu, que não tive a sorte de enxergar com seus olhos a infância no mato, guardo nas minhas memórias aquela voz afinada e um vibrato constante de um canto preenchido pela verdade infantil das vogais.

Há uma fase em que a direção dos gestos e pensamentos se aceleram em direção ao tempo ainda não vivido. Alguns dão o nome de ansiedade. Eu dou o nome de juventude. O mundo, para essas pessoas, e o que há no mundo está a um toque das mãos e a míseros três passos. No entanto, a cada real movimento dado, se instala um enorme vazio daquilo ainda não apreendido, vivido, mergulhado. É uma fase boa, pelas não ressacas, admito. De resto, prefiro essa sensação de que estou aqui e agora.

E se a poeira dos meus sapatos um dia virão do deserto do Saara não tem a menor influência sobre mim ou sobre minha decisão de tomar chá de hortelã perto da hora de dormir. Gosto desse horário porque é quando o chá se torna mais importante que a fantasia do que está por vir.

Assisti há pouco um vídeo da cantora Marina em que ela fala da passagem do tempo em sua vida e das coisas malucas que estão ocorrendo no mundo inteiro. Do surgimento de gente reacionária e da esperança de que para cada uma dessas aberrações, surge também alguém, ou vários movimentos LGBT, de mulheres, transgêneros e de negros. E que são extremamente importantes, porque abrem espaço para que as pessoas não só reclamem, mas reivindiquem, se coloquem no mundo. Ela acredita que para cada surgimento de tipos como bolsonaros e malafaias, “compensa” de um outro lado, porque surgem pessoas desses movimentos. Quase como uma resposta, uma reação. Ela não cita, mas eu o faço: pessoas como Laerte, Liniker, Gregório Duvivier e Lola Aronovich me fazem compreender o recado da Marina.


Mas, o que ela fala sobre a passagem do tempo é que é bacana de ouvir e eu replico: “Quando eu fiz 50 foi libertador; quando vi que eu já tinha me construído e já tinha direito de ser tudo o que eu quisesse, sem dar tanta satisfação. Mas, sem arrogância. Aos 60 eu sinto que comecei a envelhecer, mas eu tô gostando. Jamais voltaria atrás no tempo. Eu tinha que ser exemplo pra tudo, eu não tenho que fazer isso. Acho que o importante é ter curiosidade e gostar da vida”. E eu percebi a interseção entre duas mulheres tão diferentes e distantes. A cantora famosa e a avó aboiadora. Eis aí um recado que me representa e que eu divido com você, meu leitor.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Do alto do penhasco dá para sentir o coração batendo



A adolescência é uma fase estranha e difícil. Nos enlutamos do corpo de criança, ganhamos um turbilhão de dúvidas e sensações físicas que não sabemos muito bem como lidar e a vida se torna uma via de mão dupla, entre a ideia de invencibilidade e uma imensa incapacidade de suportá-la. Somos capazes de tomar um porre de vinho de garrafão numa noite e fazer uma prova no dia seguinte. E, no entanto, os ossos podem se desintegrar se alguém critica nosso jeito de se vestir. Há, inclusive, quem leve esse sentido de vida para o resto da existência. Ficando num limbo entre a fase imberbe e o peso da maturidade.

Os conflitos da vida de um adolescente são o mote para o filme It’s kind of a funny story (2011), dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck. A tradução literal em português seria “Tipo uma história engraçada”. Mas, infelizmente, os gênios do marketing resolveram intitular o filme no Brasil de “Se enlouquecer não se apaixone”. Talvez fazendo um trocadilho inoportuno com a comédia chata “Se beber não case”. Já que em ambas as películas o talentoso - e estranho -  ator Zach Galifianakis, faz parte do elenco.  Nesse, ele interpreta o amigo Bobby, que coleciona idas e vindas à ala psiquiátrica de um hospital, devido a uma estranha obsessão: querer morrer.

O filme trata do suicídio de uma maneira absolutamente leve e longe dos tabus que costumam acorrentar esse tema. O jovem Craig (Keir Gilchrist) tem pensado em se matar de maneira constante. Acha que está apaixonado pela namorada do melhor amigo e parece não suportar as pressões dos 16 anos e das decisões que seria obrigado a tomar nessa idade, como a escolha da profissão após o ensino médio.

O roteiro permite uma fluidez sem muito "mimimi" e clichês. Numa das cenas, o rapaz descreve como os pensamentos o estão sufocando, a ponto de achar que não vai conseguir segurar a onda e vê como única opção se jogar da ponte. O texto é muito respeitoso com os conflitos internos, aos quais todos os seres humanos estão propensos a passar.

A mesma transparência com que ele lida com o problema diante da maravilhosa psiquiatra, interpretada por Viola Davis, o faz ir por conta própria a uma clínica para pedir ajuda.

Lá, ele encontra diversos tipos de pacientes psiquiátricos, inclusive a adolescente Noelle (Emma Roberts) com quem vai descobrir que viver pode até não ser um conto de fadas ou um comercial perfeito da terra do Tio Sam, mas pode valer a pena se for uma aventura a dois.

Os personagens da ala psiquiátrica são caracterizados com os mais diversos problemas de saúde mental. Mas o bacana é que nenhum deles caricatura a doença mental, nem coloca no pódio a “loucura” apoteótica ou gente descabelada e babando.

O que é muito pertinente. Porque como diz um amigo meu, existem muitos doidinhos mansos por aí. Muito mais equilibrados do que os que se acreditam “normais” e estão patinando num mar de narcisismo, a destilar neuroses mal resolvidas em cima dos outros, ou então diluindo suas frustrações e angústias em doses constantes de álcool e outras substâncias, sem falar na dependência de pílulas para dormir, para levantar, para pensar, para ficar feliz, para levantar... a moral.

Li algumas críticas colocando como ponto alto a interpretação do ator adolescente, quando ele canta a canção Under Pressure, do David Bowie. É legal mesmo. Mas, eu não entendo muito de música então vou ficar por aqui nessa cena.

https://www.youtube.com/watch?v=F8qFALUcWnE

Mas, na verdade, para mim, o que me impressionou nessa história – que não é nada engraçada, mas também não é melodramática – é que às vezes podemos nos colocar diante do penhasco, com impulsos de “voar” para “longe”. E, ao invés de nos seduzirmos com infinito da paisagem – deveras  inalcançável e impossível – olharmos para dentro. Nos encararmos com coragem e respeito. Permitindo que a fantasia flerte com a realidade, sem que uma ou outra precise ganhar a batalha.



domingo, 23 de abril de 2017

Ditadura política





Eu estava diante de pessoas bacanas. Dessas que quando a gente sai de perto delas, levamos conosco um cheiro de decência, misturada à gratidão. Eram pessoas legais, de mesa posta e coração generoso. Dos dois tipos de bolo, porque na casa havia dois aniversariantes, ao pão assado e o café, nem forte nem fraco, bolo de rolo, brigadeiro feito com a ajuda da caçula de nove anos, tudo tinha sabor de acolhimento. No entanto, em alguns momentos, nos entreolhávamos quase que perplexos, incrédulos. O senhor de grandes olhos azuis, que só usa branco e completava 74 anos, quebrou o silêncio e traduziu o que nos afligia, falando do porvir com certa melancolia. "O futuro do Brasil é sombrio", disse.

Em outros tempos talvez eu procurasse imediatamente por uma saída mental que refutasse aquela sentença. Afinal, ser jovem é sobretudo achar que o futuro é longe e demora a chegar. Só que depois dos 40, o futuro está sempre ao alcance do toque. E ficamos mais sensíveis aos espinhos que por ventura nos espetam os dedos.

Há qualquer coisa de comovente nos dias. Quando as trevas do passado voltam a roubar a luz que nos apontava para um mundo melhor. Pode até ser que não fosse o mundo todo. Mas o mundo de dona Maria e seu João, com feijão e mistura à mesa, todos os dias. E o neto entrando na faculdade, com sapatos novos e uma cabeça aberta para o futuro fértil das descobertas. E não como agora, sob a ameaça de sentar no deserto das mordaças daqueles sacripantas, ladrões do direito de pensar e questionar - como se já não fosse o suficiente nos roubar em recursos e em privilégios políticos. Essa gente tosca e protocolar, donas das emendas que drenam até mesmo os suores do povo brasileiro.

Há uma alegria triste nos olhos da menina que faz biquinho e tenta parecer a Gisele, não percebem? Há algo de triste no tilintar das caixas registradoras, quando o homem descobre que deixou mais da metade de sua vida sentado diante dela, enquanto ela permaneceu absolutamente indiferente ao toque dos seus dedos.

Há qualquer coisa de muito indecente nesse barulho egoico das câmeras digitais, dos instantes “eternizados” por quinze segundos, que ganham mais importância nos cliques do que na vida real. Não se pode negar, há alguma coisa de muito comovente na ignorância que nos tolhe a imaginação e a poesia.

E eu também gostaria muito de discordar quando aquele mesmo senhor falou que vivemos tempos de ingratidão. Eu acrescentaria falta de educação também. Os novos vizinhos não nos cumprimentam no jardim. Os adolescentes não reconhecem a força do trabalho dos pais. E os pais. Bom esses, eu espero que um dia cheguem aos 70 anos e que olhem para o futuro com menos melancolia.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Tempo de sofrer


Ilustração de quadro de Brugel


Fui à Ribeira dia desses. Em uma das ruas perpendiculares da Duque de Caxias, havia estacionado um carro do Itep. Dentro dele alguns homens que pareciam capturados, sendo vigiados por policiais. Na verdade, estacionado é eufemismo porque o carro, sob a condição do uso (e abuso) estatal estava parado no meio da rua. Mas não foi isso que mais me chamou a atenção. Um dos detidos estava visivelmente abatido. Como se tivesse levado uma grande surra, ele oscilava para um lado e outro, prestes a desabar. A cena chamou roubou a atenção de muitos outros, causando um certo frenesi.

"É pra ser assim mesmo! Tem que dar com força. Quando esses caras assaltam uma pessoa, eles não têm pena de ninguém. Tem mais é que botar pra *@#$%$#", esbravejava um ambulante.

Eu não acho que mais violência dessangre a violência nossa de todos os dias. Eu não acredito que tratar com a mesma moeda o agressor vai torná-lo uma pessoa melhor ou um pacifista. Essa ideia de punição, de olho por olho, dente por dente, legitima uma opressão que só tem crescido no nosso país nas últimas décadas. É um tipo de fascismo substantivo que incendeia os ânimos de alguns homens de bem. 

A diferença é que agora, em evidente crise, o estado de exceção, a violência periférica, a falta de estrutura e de direitos não atingem somente as classes menos favorecidas - historicamente o alvo dessa violência. O estado de exceção chegou na classe média. Aumentaram os crimes, os assassinatos em padarias e farmácias, execuções nas esquinas de importantes avenidas da cidade em bairros nobres. Somos todos alvos, ou pelo menos 97,3% de nós. Porque sim, existe uma pequena casta blindada, apenasmente observadora e donatária de tantos privilégios que são capazes de ficar mais ricas e "prósperas" nessa crise que tem drenado até mesmo nossas esperanças.

Aliás, os últimos dias não têm sido fáceis. Vivemos num tempo de sofrer constante no quesito crueldade política, social, econômica, conjuntural, midiática e patriarcal. Estamos sempre diante de aberrações. O deputado energúmeno que eu me recuso a falar o nome, disse em um discurso no Rio que teve uma filha porque “fraquejou” na hora do sexo; um sujeito no BBB que só foi expulso após alavancar por meses a audiências com sua atitude abusiva contra a namorada; o homem do aviãozinho de dinheiro das noites de domingo achacando e humilhando a funcionária Sheherazade (que costuma achacar e humilhar em seu telejornal quem pensa diferente dela); estudantes de medicina fazendo fotos com as calças arriadas e simulando vaginas com as mãos. Enfim, frente a esse estado de coisas, resta-nos ficar mais atentos a o que dizemos, pensamos e fazemos. Sermos também mais compreensivos e solidários uns com os outros. Talvez um mundo mais justo ainda possa surgir.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ai que preguiça que eu tenho dessa tal felicidade ...

https://www.youtube.com/watch?v=R0gAO-YM5qA&feature=youtu.be

A felicidade é ou não é uma quimera?

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Um desenho


Das escolhas




Desde que nos percebemos fazendo parte de uma engrenagem na qual somos uma peça única, não sabemos ao certo se escolhemos nascer. Ao menos, a grande maioria de nós atribui esse fato a um fato anterior entre duas pessoas as quais, na melhor das hipóteses, se amavam e desejavam esse outro ser (nós). Muito embora, já depois descobertos humanos e falhos, a gente perceba que nem sempre é assim que a coisa funciona.

De lá para cá, somos responsáveis por nossas escolhas. Até mesmo aquelas que chegam como um vento forte, nos tomando o corpo por completo, nos forçando a fechar os olhos, estender os braços para a frente e sair tentando tocar o ar e se agarrar ao próximo segundo que trará a calmaria de volta. Escolher é principalmente viver. E viver é inevitavelmente saber que nem sempre conseguimos fazer as escolhas certas. Viver não é certo. Nem certeiro. Vez em quando a coisa sai de controle.

Difícil não é escolher. Difícil é estar pronto para encarar os dois movimentos que emolduram a decisão. Antes da escolha, a angústia da dúvida, a busca por respostas, as conjecturas, os sonhos decifráveis, o cartomante que atropela o destino, o destino que não se assusta com sua pressa, e segue seu caminho, incólume. Assim que tomada a decisão, o alívio, o prazer, o deleite de ser senhor dos seus domínios. Nem que seja por alguns instantes, talvez apenas dias.

Mas aí, o trem sai dos trilhos. O que antes era rocha se esvai em pó, o vento leva pra longe as certezas. E você de novo se angustia se tomou o rumo certo. E torna a esperar o resultado. Como é preciso esperar para deixar a vida se instalar. A questão é que ela está em constante manutenção. Deveríamos ter uma placa pendurada no pescoço: "Vida aberta para reformas", "Disponível para reparos".

Somos fadados a viver desafiando as dúvidas, buscando as respostas, encarando os erros, seguindo com a esperança, acreditando nas palavras dadas, lamentando as palavras desditas, sussurrando desculpas a si mesmo, gritando perdões ao mundo, abrindo buracos fundos na compreensão e rasos na mágoa.


Ser gente é doer no espelho e arder no silêncio. Ser gente é abrir pontes com o sorriso e alargar as margens para deixar que a embarcação dos outros ancorem. Ou passem de uma vez por todas. Eu ando com uma ressaca danada do mundo virtual. Dessa urgência que as pessoas têm em dar opiniões, em aparecer, em parecer o que não acredita que é. Sei que isso vai passar. Nem que eu tenha que tomar um antiácido. Aliás, deveria vender na farmácia inibidores de opiniões e estimulantes para a reflexão.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Direitos iguais




Quando eu era menina, brincava de boneca, de casinha, de cozinhado e costurava vestidinhos com as coleguinhas. Eu lembro que os meninos colocavam o bilauzinho pra fora e faziam xixi no meio da rua. Puxavam carrinhos feitos de madeira, brincavam de biloca e não andavam, saíam por aí a correr, "dirigindo" seus carros imaginários, passando marcha e acelerando. Enquanto isso, nós mulheres não podíamos sequer sentar de pernas abertas.

Mesmo com essas restrições, eu me sentia livre. E se usasse uma tiarinha na cabeça de cor rosa, era como se o universo sorrisse para mim. Eu ainda não sabia o que viria pela frente.

Certa vez, em uma loja, uma amiga que levava a filha pequena para escolher uma sandália ficou constrangida tamanha foi a insistência da vendedora em impor a cor rosa para ela. Mas, a pequena levou a sandália na cor certa. Aquela que ela escolheu. O rosa ficou lá preso às amarras culturais de uma sociedade que ainda insiste em envolver as mulheres em embalagens meiguinhas, recatadinhas e do lar.

Mas, desde minha infância, algumas coisas têm mudado. Apesar de o mercado calabriar o 8 de março na cor rosa e perfumar com flores mortas esse dia. Já ouço algumas amigas mais jovens com discursos e atitudes de não submissão e não se curvando diante das ordens do patriarcado. E vejo também alguns homens correndo atrás do prejuízo. Buscando dividir tarefas e (quase) não pedindo um pirulito como prêmio por isso.


O processo é lento. Ainda há muita violência que mancha de sangue a cor rosa. A cada agressão, assassinato ou tentativa de contra uma mulher pelo seu companheiro, namorado, irmão, pai ou amigo, a cada “pegada” na nossa bunda sem consentimento no meio de um bloco de carnaval ou numa festa, a cada cantada grosseira e desrespeitosa, a cada ordem dada a uma mulher – num claro tratamento diferenciado, se comparado ao tratamento dado a um “cueca” do trabalho - mais se amontoam rosas murchas e podres que são distribuídas no dia 8 de março. 

texto publicado em março, no Novo Jornal

domingo, 2 de abril de 2017

Gente, acorda!

ilustração de Maria Eugênia - Caderno de Desenhos


Nesse momento da minha vida, gostaria de botar um lençol na "cara" da relação tempo e espaço e, como se fosse um bebê, acreditar piamente que ali não há nada. Que o tempo e espaço não existem, que evaporaram. E, ao contrário da crença dos bebês que choram quando a mãe ou quem quer que seja brinca de esconde-esconde, e desaparecem por detrás do lençol, eu respiraria aliviada. Eu esperaria realmente que esse tempo sombrio e esse pedaço grandioso de terra chamado Brasil se reinventasse. Saísse desse pesadelo interminável que tanto mais caímos no buraco, maior ele fica.

Tá difícil de não falar de política. E além da dificuldade inerente, é assustador descobrir que dia-a-dia o conde Drácula e seus asseclas do Judiciário e Legislativo escavam o buraco com as próprias mãos. O buraco no qual o povo trabalhador está sendo enterrado vivo.

Aqui acolá eu me deparo com algumas pessoas comparando a vida que os trabalhadores brasileiros levam com as que levam as pessoas dos EUA. Os argumentos são patéticos. A impressão que eu tenho é que alguns passam sete dias em Orlando, se empanturram de comida processada, conhecem alguns pontos turísticos e se tornam especialistas em economia e política social. Entretanto, em seus argumentos inexiste qualquer crítica sobre os pressupostos neoliberais e sua relação nefasta com o setor produtivo. Para o sistema nós somos mero joguete, quando não, escravos.

É como se reduzissem em seus elogios rasgados aos EUA e ao fato de que as pessoas de lá vivem “super bem” - mesmo não desfrutando de férias, 13º salário ou licenças de saúde – que bem estar e felicidade se resumem somente a poder de compra. Quando sabemos que não é bem assim. Mas, ok, não vamos problematizar o sentido de felicidade, vamos falar só de política e de modelo econômico.

Quem é que em sã consciência pode jactar-se de ter dinheiro gerando dinheiro em suas vidas? Contemos nos dedinhos mindinhos de nossas mãos as pessoas que conhecemos e que vivem de aplicações, dividendos e de lucros. Aquelas que fazem parte do mito que “ganham dinheiro enquanto dormem”.

Gente, acorda! Essa galera só existe nas novelas ou esbanjando futilidade em alguma rede social. A imensa maioria de nós está no patamar daqueles que são vilipendiados pelo sistema. Seja a diarista, o vigilante noturno, ou  você que financia seu carro, e que se sacrifica para manter seus filhos em escola particular mas, no entanto, jamais saiu do pedestal para reclamar na porta da secretaria de educação que você paga impostos, mas seu representantes político não faz a parte dele. Esse entorpecimento está precarizando ainda mais sua existência, como também o futuro das próximas gerações.

domingo, 12 de março de 2017

Sobre o Grito que há no Silêncio




"Moonlight: Sob a luz do luar" é um filme que trata da infância, de bullying, preconceito, mãe solteira e drogada (meio clichê, é vero), homossexualidade, descobertas, amor, solidariedade, etc., e eu poderia desfilar ainda mais um rosário de substantivos e adjetivos para continuar descrevendo o que é o trabalho escrito e dirigido por Barry Jenkins e que brilhou no Oscar de 2017, levando a estatueta do melhor filme.

Mas não é só isso. Moonlight é um filme sobre silêncios. Sobre ser gente, sobre sofrer em saber ou não saber o que se é. É um filme que tem atuações fragmentadas que compõem um personagem que vai da infância até a vida adulta com atuações que mantém muita coerência entre todas as fases.

Logo nos primeros takes do filme, em que o personagem central, o menino Chiron (apelidado do "Little" por ser realmente franzino e tímido) é acossado por garotos maiores e se tranca num apartamento vazio é, simplesmente, de partir o coração. E ele não diz uma única palavra para que compreendamos o que ele está passando. Mas sabemos o que é, porque todo mundo já se sentiu angustiado, acuado, encrencado na vida.

Ambientado numa Miami que mergulhava no mundo das drogas e das pedras nos anos 1990 (1980? não tenho certeza), Moonlight tem atuações primorosas, como a do ganhador do Oscar de ator coadjuvante, Mahershala Ali, que faz Juan, um cubano que chegou nos EUA ainda criança e que é chefe do tráfico. Um persongem que faz as vezes de figura paterna para um menino calado, que visivelmente sofre em silêncio e fala mais com os olhos angulosos e tristes do que com a boca.

É um filme com e sobre homens. O universo feminino apenas orbita por entre a trama densa e carregada de questionamentos, sem exibir qualquer movimento panfletário. É sim um recorte social sobre aqueles que vivem à margem, seja porque nasceu na periferia, porque o marido abandonou cedo com um filho pequeno, porque se é homossexual ou porque a escolha de viver no mundo do crime é, invariavelmente, uma escolha nefasta.

O filme é intenso em alguns momentos, sem ser piegas. Sem explicar demais. A câmera muitas vezes parece nervosa, sob a ótica de um olhar que tateia a atmosfera dos ambientes e das pessoas, como se fosse o olhar de alguém, a observar a cena.


Moonlight tem violência, tristeza e diálogos profundos. Sem carregar nas tintas, sem perder de vista a sutileza do que podemos sentir ao assistir um filme e tirar nossas próprias conclusões, rebuscando nossos sentimentos, encontrando ressonâncias em nossas próprias vidas, mesmo que não haja uma relação direta com o que se passa na película. Porque apesar de estarmos diante de uma grande tela, de estarmos diante de grandes atuações, o fio condutor de Moonlight é o silêncio que nos permite respirar, suspirar e sentir a vida.


Mural



Foto extraída daqui



na falta do que dizer, a gente se abraça com o silêncio. e deixa os outros sentidos mais aguçados. meus olhos veem coisas que querem dividir com vocês. por isso está inaugurada uma nova sessão no Bicho. na falta do que dizer, eu busco palavras, desenhos e experimentos. meus e, principalmente, alheios. esse é da artista regina parra. lá no site dela tem muita coisa bacana.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Só se for por timidez



Sempre gostei de insetinhos, borboletas, soldadinhos, joaninhas e lagartixas (que não são insetinhos, eu sei). Quando os aladinhos passam pelo meu jardim, sinto como se fosse um bom presságio. E, mesmo que não ocorra nada de diferente, pra mim só a presença deles já me parece um bom presságio. Não precisa ser uma loteria ganha na quarta-feira, vai. Hoje tive a sorte de receber dois visitantes em casa: um imbuá na cozinha e agora (esse da foto) um insetinho verde que super contrastou com a caixa onde ficam os livrinhos sobre cinema, que eu ganhei de uma amiga.

Antes, ele tinha passado pelos livros do Borges. Mas, como se pressentisse minha vibe paparazzi, voou ligeiro para mais acima das prateleiras. Eu gostaria que ele encontrasse o caminho dele e voltasse para o jardim. Lugar mais adequado para um insetinho verde morar. Ele pode fazer o puxadinho que quiser no meu jardim. Chamar amigos e tal. Só não vale comer as rosas do deserto.


Assim como também gostaria de encontrar o meu. É que eu ando meio perdida ultimamente. Acho que o mundo tem muitas pontes do bom senso quebradas, as pessoas estão se distanciando umas das outras e às vezes até de si mesmas, navegando seus barquinhos de papel, furados, solitárias. E ao invés de buscar uma margem segura e sensata, se dirigem para o precipício da queda d´água.

A esperança ou o desespero são construídos em pequenos, ínfimos, instantes. Difícil não sorrir ou não se enternecer com sorriso de criança. Assim como difícil não costurar o canto da boca com silêncios profundos quando você solicita alguém e essa pessoa mente pra você. Algumas são até educadas. "Vou ver sim". "Ficarei atento". "Claro! Vai dar tudo certo". E você sente que no próximo instante a ponte entre a fala e o gesto será quebrada. Como se você ficasse de braços abertos para um abraço vazio. Um beijo que estalou seco no ar, sem as almofadas da bochecha para amortecê-lo. 


O mundo já está cheio de exércitos. Tem pessoas armadas de ódio; tem exércitos de pessoas tristes. Exércitos de gente maledicente que não consegue sorrir sem passar promissória. A gente precisa aumentar o exército das pessoas que acreditam na humanidade. Pessoas que entendam que a dor não passa só com aspirina ou com cocaína. Pessoas que gostam de pisar em folhas secas, que leem poe-mas em voz alta, ou algo do tipo. 

Montarmos um exército de gente que ao invés de super-valorizar carrões importados, que se enterneçam com a presença das Xananas nos cantei-ros. Pessoas que no lugar de fazer discursos, façam gentilezas a estranhos na rua. Gente que não desvie o olhar. Mas se o fizer, que seja apenas por timidez.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Tédio nosso de cada dia




Nossos gatos nos acordam todos os dias praticamente no mesmo horário. Sabemos o porquê: reivindicam com seus bigodes o primeiro passeio matinal. Depois, cada um deles volta e come ração. Em seguida, tiram uma soneca de umas três horas. Acordam. Comem. Tomam água. 

Por volta das 16h, novo apelo para o segundo passeio. Voltam. Comem. Bebem. Dormem. Quase tudo corre igualmente idêntico no transcorrer dos dias. Dos anos. O primogênito já tem mais de uma década da mesma rotina diária. Se fossem eles pessoas, certamente, já teriam gritado ao mundo que vivem no mais genuíno e profundo tédio. Essa coisa pela qual não estamos treinados a suportar. Mas eles são gatos.

Não estamos treinados mas, invariavelmente, somos compelidos ao tédio na grande maioria do tempo. Afinal, nem todo dia é dia santo ou quatro dias de carnaval em Olinda. 

A repetição é absolutamente inerente à condição humana. E, acredite, caro leitor, morre-se menos de tédio do que de frustração em não querer admiti-lo. Criatividade, originalidade e a apotheósis não dão em árvore, nem são tão fáceis de se manifestar. Tal qual um bom orgasmo, ninguém suportaria uma existência apoteótica em inventividade e criatividade. São necessárias a calmaria e a repetição para que nossa vida seja compreensível.

A ideia de "Livin´ La Vida Loca" só na música do Ricky Martin. Até a arte, que seria uma espécie de oposto do tédio, da mesmice, da repetição, tem cada vez mais perdido espaço para o abismo da falta de criatividade. 



Não tome isso como se eu tivesse um trunfo na manga, caro leitor, mas, por exemplo, eu não assisto ao BBB. O programa mais chato, vazio e repetitivo da história da televisão brasileira há mais de uma década de exibição. Seria uma afronta às minhas agonias, fastios, apatias e molezas pessoais, se as substituísse pela dos outros. E, pior, vindas de um programa de tv tão vulgar.

Mas há quem goste de fazer de sua vida um programa de TV. Nem que ele tenha dez segundos, ou alguns minutos. Vale tudo: mostrar o café da manhã; mostrar que está puxando ferro; mostrar a cor do esmalte; mostrar que está pisando numa calçada; mostrar que mudou a cortina; mostrar que acordou de cara amassada; mostrar a boca em bico; mostrar, mostrar, mostrar. Mais do que viver. 

Vale mais que os outros saibam como transcorre aquele interminável minuto de sua vida, do que você parar um pouco para pensar ao menos um minuto na sua vida. É o êxtase da exibição engolindo a profundidade de ser e estar em algum lugar, sendo alguém. Não uma coisa à mostra. Não um objeto a ser consumido pelo olhar alheio. Não uma pessoa que passa pela timeline, mas nunca fica para um café. Uma pessoa que dribla o tédio com doses cavalares de repetição do próprio tédio.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Bon Iver - For Emma, Forever Ago (Extended)





Eu amo esse álbum... as canções me acompanhavam pelas trilhas que eu fazia com a minha velha bike de cestinha que descansa preguiçosamente no quartinho coletivo do prédio. Cada canção ouvida é uma esquina dobrada ou uma subida ou descida. Nossa! Como eu gosto dessa sensação.

Chet Faker - No Diggity (Live Sessions)

deer stop

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

E eu com isso?




As pessoas comemoram os corpos esquartejados no presídio, do mesmo jeito que comemoram o AVC e agora a morte da ex-primeira dama do Brasil. Gente que se diz cidadã de bem, que trabalha, paga impostos, vai à missa ou ao culto, que é temente a Deus. Aliás, "Good Citizen", era o nome do jornal veiculado pelos grupos que deram origem ao Ku Klux Klan (que pregava a superioridade branca, era ultra-reacionário e extremista), e que me parece ser reeditado todos os dias nas opiniões e posturas nas redes sociais, quando o assunto é a  condição humana daqueles que não são espelho.


A gente só é e faz aquilo que chegou primeiro em pensamentos e palavras. A barbárie começa quando olhamos para o menino que está pedindo esmola no canteiro e pensamos que ele vai nos roubar e, em seguida, dizemos: "tão novinho, já se encaminhando para o crime". Se eu não tenho a capacidade de transferir para outras pessoas os mesmos sentimentos e sentidos que me tornam humana, que me fazem ter fome, sede, frio, medo, dor, desejos, necessidades, satisfação, essa outra pessoa passa a ser uma coisa que pode ser decepada, esquartejada e queimada. Ela não é mais um ser humano. E eu nem sinto culpa em julgá-la inepta ou inapta pra vida, e de desejar ou vibrar com sua morte. E me esqueço também de que viver em condições subumanas, sem água, com comida precária, sem o convívio da família, dentro de verdadeiras jaulas, na companhia de estranhos perigosos, não será uma situação que se encaixe como antídoto contra a violência e a recuperação social.

E se alguém que me lê agora, está pensando em me mandar "levar um assassino para casa", eu peço que antes de me julgar por eu não compactuar com falsos discursos moralistas e nem incitar a violência, ou não concordar com a barbárie, com a pena capital ou com o extermínio dos violentos com mais violência, que leve pra rua um pouco mais de tolerância e empatia. Se você, cidadão de bem, se imagina acima do mal e que não comete erros ou deslizes, que ao menos se coloque no lugar daqueles que são pais, filhos, mães, irmãos e amigos de pessoas criminosas e que estão "pagando" suas penas nos presídios "resorts" brasileiros. Pense na dor dessas pessoas antes de sair comemorando a morte de seres humanos. A barbárie dos gestos começa no discurso. 

O que acontece por lá tem muito a ver com o que você pensa e diz  por aqui.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Sobre uma noite de conversas, chá e descobertas




é porque eu quero que elas me olhem e vejam através de mim
e vão além de mim
que sou só poeira e vento.
que sejam "curuminhas" livres em pêlo
e filhas, mães, avós e filhas de novo, 
se assim for preciso

é porque eu gosto da fumaça que sai das palavras doces delas
e têm gosto defumado de descoberta
e a devassidão das coisas incrivelmente puras
que cabem dentro de uma sala clara
nas teclas de uma máquina de escrever portátil olivetti
e numa máquina de costura

é porque essa minha inclinação para os gatos pretos, 
as ovelhas negras e os manjericões
me levam para além de mim e para dentro



para ísis e mari, com carinho e admiração.


Sem alma, suor e amor





Responda rápido essa pergunta: o que é mais opressor? Uma burqa, um biquíni ou um burkini? Provavelmente a maioria de nós pense em responder de imediato que o que mais oprime é a burqa, ou o burkini (um neologismo que une as vestimentas burqa e biquini, utilizado por mulheres muçulmanas. A peça foi criada há quase 17 anos, na Austrália, pela estilista Aheda Zanetti, muçulmana nascida no Líbano, e é popular entre as mulheres que necessitam cobrir todo o corpo ao sair de casa). Essa regra não vale para todas as muçulmanas. Sé em algumas regiões.

 Mas, numa reflexão mais apurada, pergunto novamente, o que seria mais opressor? Uma vestimenta que esconde ou uma vestimenta que te julga? Quantas de nós mulheres - e incluo os homens também, cada vez mais paranoicos com essa questão de beleza - não se sentiu mal em tirar a roupa na praia? Não sentiu olhos imaginários catalogando sua bunda e cada celulite que possa existir nela? Lembro-me de uma repercussão que ocorreu anos atrás, quando nossa top Fernanda Tavares desfilou de biquíni e apareceu uma celulite em seus glúteos magrinhos. Isso mesmo, UMA celulite. Pauta nos jornais televisivos, gente horrorizada!

A burqa é sem dúvida um controle sobre o corpo feminino. Aliás, questões culturais e religiosas há muito tempo, controlam o corpo feminino, colocando-o como uma propriedade do masculino, do patriarcado, do pai e do espírito santo. Mas, e o biquíni não é? Se nem todas as mulheres se sentem à vontade para expor suas curvas na praia, e se sujeitariam até mesmo a usar um burkini para fugir dos olhares, será que não somos também oprimidas pela fantasia do corpo perfeito? Pela exigência de padrões alcançados somente por uma ínfima parcela de seres humanos que têm tempo largo para gastar em academias, ou com médicos, esteticistas, cremes, drenagens e uma boa dose de falta do que fazer?

Se algumas muçulmanas perdem sua identidade visual por conta das burqas, muitas de nós ocidentais, perdemos nossa identidade visual por conta das atrizes de novelas que, milagrosamente, após três meses que pariram, aparecem em fotos na praia sem um pingo de barriga, ou por causa de outras moças que têm como profissão fazer do corpo um produto, uma vitrine da moda ou do fitness. Elas estão erradas? Precisam ser excomungadas? Claro que não!

Entretanto, esse sistema de dominação, seja ele religioso, seja ele consumista não nos representa! Saiamos desse corpo fantasioso que não nos pertence! Aliás, não pertence a ninguém. Antes um corpo imperfeito que sente, que pulsa, que um corpo desenhado, mas sem alma, sem suor na cama e sem amor.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quando não é sorte




Contraditoriamente, o "salve-se quem puder" tão comum nas grandes cidades, tem matado muita gente. Todos os dias ouvimos, lemos ou assistimos histórias de violência. E por trás dessa violência, tem muito silêncio, alheamento e bolhas de enclausuramento. Ora, se existem aqueles que fingem dormir no assento preferencial de idosos, para não ceder-lhes o lugar, imagine quando o circo pega fogo. A tendência é ninguém interferir, fingir que não está vendo.

O fenômeno da violência geralmente, recai sobre pobres, negros, adolescentes, mulheres, gays. Não é menos grave quando ocorre com outras classificações sociais, lógico. Mas nessas citadas é bem mais gritante. E mais evidente ainda a diferença de tratamento quando a violência atinge a irmã de um juiz ou o filho de um empresário. Milagrosamente, os casos são resolvidos mais rápido.

Vou tomar como exemplo, o caso do vendedor ambulante, Luiz Carlos Ruas, mais conhecido como “Índio”, que no final do ano passado morreu espancado por dois trogloditas, por tentar defender travestis perseguidos por eles, num metrô em São Paulo. Para continuar vivo, Ruas deveria ter ficado calado, quieto e indiferente à dor alheia.

Ao contrário, ele fez o que qualquer pessoa na face da terra aconselharia não fazer: se importar com o outro; ir de encontro à violência, tentando usar o argumento da solidariedade. Colocar-se no meio da brutalidade e da estupidez. Apontar para um outro caminho que não seja o ataque ou a fuga.

Lembro que quando fui assaltada em Petrópolis, o moço que pastorava os carros viu; os motoristas que dirigiam seus carros pela via movimentada, viram; o porteiro do prédio viu. Ninguém se meteu. Diante da violência nua e crua, acionamos aquela voz que diz: "alguém vai surgir e vai resolver esse problema". Mas, se esse alguém por acaso for o Estado e a Polícia, só nos resta contar com a sorte.

Porque o Estado - e falo do brasileiro em geral, já que cito um exemplo de São Paulo e um daqui de nossa cidade - já assinou seu atestado de incompetência faz tempo. Os espaços públicos pertencem a todo mundo e não pertencem a ninguém. Logo, se os espaços púbicos não têm dono, nem o Estado consegue ocupá-los com o mínimo de segurança, então só nos resta a solidão no meio das gentes.

E, se não passarmos incólumes ao outro, corremos o risco de olhar para dentro do olho da violência e torcer para não morrermos na calçada movimentada de pedestres.

Salvar-se na sorte não é salvamento, é penitência. É só adiar o azar, sabendo que a qualquer momento ele pode voltar.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Escrever

Reprodução internet


Sobre o verbo que titula esse post, eu diria que faz parte da minha vida como faz parte o sol para tudo o que há. A primeira vez que escrevi eu nem conhecia as letras então eu desenhava. Eu contava histórias na ponta dos lápis de cor e penso que isso já era uma forma de escrever o que eu vejo no mundo. E o que eu vejo no mundo nem sempre é o que o mundo vê. É tão somente, eu acho, uma forma de ver o mundo que não é melhor ou disforme. É só outra forma.

Eu tenho vergonha de dizer coisas do tipo, estou escrevendo um livro de contos. Na verdade eu tenho vergonha de não estar escrevendo o livro de contos como eu gostaria. De sempre arrumar uma desculpa para começar aquele conto ou terminar aquele outro já iniciado. Eu tenho vergonha porque, sobretudo, eu tenho muitos livros para ler e em todos esses muito livros para ler existem mil razões para só me manter leitora ou para desfiar outras linhas e tramas das palavras que já foram ditas. Mas isso é bem difícil, porque eu acho que tudo já foi muito bem dito ou está muito mal dito para ser dito de novo, e não que tenha de ser dito de novo de maneira melhor ou disforme. Só dito de novo, de um outro jeito.

É que às vezes a vida atrapalha. Tal como os pensamentos que não se acalmam ou se organizam, e não dão trégua para o silêncio necessário antes da dança da escrita. Tenho preocupações de sobrevivência que me tiram o sono e me tiram o sossego. E eu não nasci Arthur Rimbaud que conseguiu fugir para a África do Sul depois de levar um tiro do amor.

Eu me sinto num jogo de não começar a escrever meus contos, para fazer meu primeiro livro de contos e para continuar pisando nas linhas das calçadas, colocando vírgulas, pontos e parágrafos nos meus pensamentos, porque é assim que um escritor caminha. É assim que ele vê a vida. Mas às vezes a concentração chega antes ou depois da transpiração. 

Isso tudo parece uma grande desculpa, e eu já vou me desculpando. Fato é que não estou inventando a roda da procrastinação. E todo escritor um dia desprendeu minutos, horas, dias, anos fazendo coisinhas inúteis, pequenas emergências, arquivos abertos ou perdidos, anotações nunca encontradas, lápis sem ponta, caneta sem tinta, barulho do vizinho, o gato que desapareceu, como amontoados de coisas que vão se acumulando entre o ser e o fazer.

Antes, eu achava que para ser escritor era preciso ter vários livros e fazer lançamentos e tomar doses de uísque e paquerar com algum desocupado vestido de blazer. Agora eu sei que para ser escritor não é preciso quase nada. Ou são necessárias coisas diferentes e singulares a quem estiver disposto a segurar esse fardo. Mas, para ser isso que vos falo, por primeiro, é preciso admitir-se no vazio, no limbo, no silêncio, na incompetência de não sair da dor ou de não extrair dela a constância das palavras.