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domingo, 15 de janeiro de 2017

Escrever

Reprodução internet


Sobre o verbo que titula esse post, eu diria que faz parte da minha vida como faz parte o sol para tudo o que há. A primeira vez que escrevi eu nem conhecia as letras então eu desenhava. Eu contava histórias na ponta dos lápis de cor e penso que isso já era uma forma de escrever o que eu vejo no mundo. E o que eu vejo no mundo nem sempre é o que o mundo vê. É tão somente, eu acho, uma forma de ver o mundo que não é melhor ou disforme. É só outra forma.

Eu tenho vergonha de dizer coisas do tipo, estou escrevendo um livro de contos. Na verdade eu tenho vergonha de não estar escrevendo o livro de contos como eu gostaria. De sempre arrumar uma desculpa para começar aquele conto ou terminar aquele outro já iniciado. Eu tenho vergonha porque, sobretudo, eu tenho muitos livros para ler e em todos esses muito livros para ler existem mil razões para só me manter leitora ou para desfiar outras linhas e tramas das palavras que já foram ditas. Mas isso é bem difícil, porque eu acho que tudo já foi muito bem dito ou está muito mal dito para ser dito de novo, e não que tenha de ser dito de novo de maneira melhor ou disforme. Só dito de novo, de um outro jeito.

É que às vezes a vida atrapalha. Tal como os pensamentos que não se acalmam ou se organizam, e não dão trégua para o silêncio necessário antes da dança da escrita. Tenho preocupações de sobrevivência que me tiram o sono e me tiram o sossego. E eu não nasci Arthur Rimbaud que conseguiu fugir para a África do Sul depois de levar um tiro do amor.

Eu me sinto num jogo de não começar a escrever meus contos, para fazer meu primeiro livro de contos e para continuar pisando nas linhas das calçadas, colocando vírgulas, pontos e parágrafos nos meus pensamentos, porque é assim que um escritor caminha. É assim que ele vê a vida. Mas às vezes a concentração chega antes ou depois da transpiração. 

Isso tudo parece uma grande desculpa, e eu já vou me desculpando. Fato é que não estou inventando a roda da procrastinação. E todo escritor um dia desprendeu minutos, horas, dias, anos fazendo coisinhas inúteis, pequenas emergências, arquivos abertos ou perdidos, anotações nunca encontradas, lápis sem ponta, caneta sem tinta, barulho do vizinho, o gato que desapareceu, como amontoados de coisas que vão se acumulando entre o ser e o fazer.

Antes, eu achava que para ser escritor era preciso ter vários livros e fazer lançamentos e tomar doses de uísque e paquerar com algum desocupado vestido de blazer. Agora eu sei que para ser escritor não é preciso quase nada. Ou são necessárias coisas diferentes e singulares a quem estiver disposto a segurar esse fardo. Mas, para ser isso que vos falo, por primeiro, é preciso admitir-se no vazio, no limbo, no silêncio, na incompetência de não sair da dor ou de não extrair dela a constância das palavras.




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