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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Tédio nosso de cada dia




Nossos gatos nos acordam todos os dias praticamente no mesmo horário. Sabemos o porquê: reivindicam com seus bigodes o primeiro passeio matinal. Depois, cada um deles volta e come ração. Em seguida, tiram uma soneca de umas três horas. Acordam. Comem. Tomam água. 

Por volta das 16h, novo apelo para o segundo passeio. Voltam. Comem. Bebem. Dormem. Quase tudo corre igualmente idêntico no transcorrer dos dias. Dos anos. O primogênito já tem mais de uma década da mesma rotina diária. Se fossem eles pessoas, certamente, já teriam gritado ao mundo que vivem no mais genuíno e profundo tédio. Essa coisa pela qual não estamos treinados a suportar. Mas eles são gatos.

Não estamos treinados mas, invariavelmente, somos compelidos ao tédio na grande maioria do tempo. Afinal, nem todo dia é dia santo ou quatro dias de carnaval em Olinda. 

A repetição é absolutamente inerente à condição humana. E, acredite, caro leitor, morre-se menos de tédio do que de frustração em não querer admiti-lo. Criatividade, originalidade e a apotheósis não dão em árvore, nem são tão fáceis de se manifestar. Tal qual um bom orgasmo, ninguém suportaria uma existência apoteótica em inventividade e criatividade. São necessárias a calmaria e a repetição para que nossa vida seja compreensível.

A ideia de "Livin´ La Vida Loca" só na música do Ricky Martin. Até a arte, que seria uma espécie de oposto do tédio, da mesmice, da repetição, tem cada vez mais perdido espaço para o abismo da falta de criatividade. 



Não tome isso como se eu tivesse um trunfo na manga, caro leitor, mas, por exemplo, eu não assisto ao BBB. O programa mais chato, vazio e repetitivo da história da televisão brasileira há mais de uma década de exibição. Seria uma afronta às minhas agonias, fastios, apatias e molezas pessoais, se as substituísse pela dos outros. E, pior, vindas de um programa de tv tão vulgar.

Mas há quem goste de fazer de sua vida um programa de TV. Nem que ele tenha dez segundos, ou alguns minutos. Vale tudo: mostrar o café da manhã; mostrar que está puxando ferro; mostrar a cor do esmalte; mostrar que está pisando numa calçada; mostrar que mudou a cortina; mostrar que acordou de cara amassada; mostrar a boca em bico; mostrar, mostrar, mostrar. Mais do que viver. 

Vale mais que os outros saibam como transcorre aquele interminável minuto de sua vida, do que você parar um pouco para pensar ao menos um minuto na sua vida. É o êxtase da exibição engolindo a profundidade de ser e estar em algum lugar, sendo alguém. Não uma coisa à mostra. Não um objeto a ser consumido pelo olhar alheio. Não uma pessoa que passa pela timeline, mas nunca fica para um café. Uma pessoa que dribla o tédio com doses cavalares de repetição do próprio tédio.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Bon Iver - For Emma, Forever Ago (Extended)





Eu amo esse álbum... as canções me acompanhavam pelas trilhas que eu fazia com a minha velha bike de cestinha que descansa preguiçosamente no quartinho coletivo do prédio. Cada canção ouvida é uma esquina dobrada ou uma subida ou descida. Nossa! Como eu gosto dessa sensação.

Chet Faker - No Diggity (Live Sessions)

deer stop

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

E eu com isso?




As pessoas comemoram os corpos esquartejados no presídio, do mesmo jeito que comemoram o AVC e agora a morte da ex-primeira dama do Brasil. Gente que se diz cidadã de bem, que trabalha, paga impostos, vai à missa ou ao culto, que é temente a Deus. Aliás, "Good Citizen", era o nome do jornal veiculado pelos grupos que deram origem ao Ku Klux Klan (que pregava a superioridade branca, era ultra-reacionário e extremista), e que me parece ser reeditado todos os dias nas opiniões e posturas nas redes sociais, quando o assunto é a  condição humana daqueles que não são espelho.


A gente só é e faz aquilo que chegou primeiro em pensamentos e palavras. A barbárie começa quando olhamos para o menino que está pedindo esmola no canteiro e pensamos que ele vai nos roubar e, em seguida, dizemos: "tão novinho, já se encaminhando para o crime". Se eu não tenho a capacidade de transferir para outras pessoas os mesmos sentimentos e sentidos que me tornam humana, que me fazem ter fome, sede, frio, medo, dor, desejos, necessidades, satisfação, essa outra pessoa passa a ser uma coisa que pode ser decepada, esquartejada e queimada. Ela não é mais um ser humano. E eu nem sinto culpa em julgá-la inepta ou inapta pra vida, e de desejar ou vibrar com sua morte. E me esqueço também de que viver em condições subumanas, sem água, com comida precária, sem o convívio da família, dentro de verdadeiras jaulas, na companhia de estranhos perigosos, não será uma situação que se encaixe como antídoto contra a violência e a recuperação social.

E se alguém que me lê agora, está pensando em me mandar "levar um assassino para casa", eu peço que antes de me julgar por eu não compactuar com falsos discursos moralistas e nem incitar a violência, ou não concordar com a barbárie, com a pena capital ou com o extermínio dos violentos com mais violência, que leve pra rua um pouco mais de tolerância e empatia. Se você, cidadão de bem, se imagina acima do mal e que não comete erros ou deslizes, que ao menos se coloque no lugar daqueles que são pais, filhos, mães, irmãos e amigos de pessoas criminosas e que estão "pagando" suas penas nos presídios "resorts" brasileiros. Pense na dor dessas pessoas antes de sair comemorando a morte de seres humanos. A barbárie dos gestos começa no discurso. 

O que acontece por lá tem muito a ver com o que você pensa e diz  por aqui.