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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Direitos iguais




Quando eu era menina, brincava de boneca, de casinha, de cozinhado e costurava vestidinhos com as coleguinhas. Eu lembro que os meninos colocavam o bilauzinho pra fora e faziam xixi no meio da rua. Puxavam carrinhos feitos de madeira, brincavam de biloca e não andavam, saíam por aí a correr, "dirigindo" seus carros imaginários, passando marcha e acelerando. Enquanto isso, nós mulheres não podíamos sequer sentar de pernas abertas.

Mesmo com essas restrições, eu me sentia livre. E se usasse uma tiarinha na cabeça de cor rosa, era como se o universo sorrisse para mim. Eu ainda não sabia o que viria pela frente.

Certa vez, em uma loja, uma amiga que levava a filha pequena para escolher uma sandália ficou constrangida tamanha foi a insistência da vendedora em impor a cor rosa para ela. Mas, a pequena levou a sandália na cor certa. Aquela que ela escolheu. O rosa ficou lá preso às amarras culturais de uma sociedade que ainda insiste em envolver as mulheres em embalagens meiguinhas, recatadinhas e do lar.

Mas, desde minha infância, algumas coisas têm mudado. Apesar de o mercado calabriar o 8 de março na cor rosa e perfumar com flores mortas esse dia. Já ouço algumas amigas mais jovens com discursos e atitudes de não submissão e não se curvando diante das ordens do patriarcado. E vejo também alguns homens correndo atrás do prejuízo. Buscando dividir tarefas e (quase) não pedindo um pirulito como prêmio por isso.


O processo é lento. Ainda há muita violência que mancha de sangue a cor rosa. A cada agressão, assassinato ou tentativa de contra uma mulher pelo seu companheiro, namorado, irmão, pai ou amigo, a cada “pegada” na nossa bunda sem consentimento no meio de um bloco de carnaval ou numa festa, a cada cantada grosseira e desrespeitosa, a cada ordem dada a uma mulher – num claro tratamento diferenciado, se comparado ao tratamento dado a um “cueca” do trabalho - mais se amontoam rosas murchas e podres que são distribuídas no dia 8 de março. 

texto publicado em março, no Novo Jornal

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