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domingo, 23 de abril de 2017

Ditadura política





Eu estava diante de pessoas bacanas. Dessas que quando a gente sai de perto delas, levamos conosco um cheiro de decência, misturada à gratidão. Eram pessoas legais, de mesa posta e coração generoso. Dos dois tipos de bolo, porque na casa havia dois aniversariantes, ao pão assado e o café, nem forte nem fraco, bolo de rolo, brigadeiro feito com a ajuda da caçula de nove anos, tudo tinha sabor de acolhimento. No entanto, em alguns momentos, nos entreolhávamos quase que perplexos, incrédulos. O senhor de grandes olhos azuis, que só usa branco e completava 74 anos, quebrou o silêncio e traduziu o que nos afligia, falando do porvir com certa melancolia. "O futuro do Brasil é sombrio", disse.

Em outros tempos talvez eu procurasse imediatamente por uma saída mental que refutasse aquela sentença. Afinal, ser jovem é sobretudo achar que o futuro é longe e demora a chegar. Só que depois dos 40, o futuro está sempre ao alcance do toque. E ficamos mais sensíveis aos espinhos que por ventura nos espetam os dedos.

Há qualquer coisa de comovente nos dias. Quando as trevas do passado voltam a roubar a luz que nos apontava para um mundo melhor. Pode até ser que não fosse o mundo todo. Mas o mundo de dona Maria e seu João, com feijão e mistura à mesa, todos os dias. E o neto entrando na faculdade, com sapatos novos e uma cabeça aberta para o futuro fértil das descobertas. E não como agora, sob a ameaça de sentar no deserto das mordaças daqueles sacripantas, ladrões do direito de pensar e questionar - como se já não fosse o suficiente nos roubar em recursos e em privilégios políticos. Essa gente tosca e protocolar, donas das emendas que drenam até mesmo os suores do povo brasileiro.

Há uma alegria triste nos olhos da menina que faz biquinho e tenta parecer a Gisele, não percebem? Há algo de triste no tilintar das caixas registradoras, quando o homem descobre que deixou mais da metade de sua vida sentado diante dela, enquanto ela permaneceu absolutamente indiferente ao toque dos seus dedos.

Há qualquer coisa de muito indecente nesse barulho egoico das câmeras digitais, dos instantes “eternizados” por quinze segundos, que ganham mais importância nos cliques do que na vida real. Não se pode negar, há alguma coisa de muito comovente na ignorância que nos tolhe a imaginação e a poesia.

E eu também gostaria muito de discordar quando aquele mesmo senhor falou que vivemos tempos de ingratidão. Eu acrescentaria falta de educação também. Os novos vizinhos não nos cumprimentam no jardim. Os adolescentes não reconhecem a força do trabalho dos pais. E os pais. Bom esses, eu espero que um dia cheguem aos 70 anos e que olhem para o futuro com menos melancolia.


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