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terça-feira, 16 de maio de 2017

Direito de ser





Minha avó aboiava dentro de casa. Isso mesmo. Era uma espécie de evocação de suas memórias. Uma forma de estar próxima do seu pai, irmãos e agregados que aboiavam para conduzir o gado pra dentro ou fora do curral, nos tempos em que ele vivia lá pelos lados da Fazenda Surrão, no semiárido da Paraíba. Minha avó se foi há 21 anos. E eu, que não tive a sorte de enxergar com seus olhos a infância no mato, guardo nas minhas memórias aquela voz afinada e um vibrato constante de um canto preenchido pela verdade infantil das vogais.

Há uma fase em que a direção dos gestos e pensamentos se aceleram em direção ao tempo ainda não vivido. Alguns dão o nome de ansiedade. Eu dou o nome de juventude. O mundo, para essas pessoas, e o que há no mundo está a um toque das mãos e a míseros três passos. No entanto, a cada real movimento dado, se instala um enorme vazio daquilo ainda não apreendido, vivido, mergulhado. É uma fase boa, pelas não ressacas, admito. De resto, prefiro essa sensação de que estou aqui e agora.

E se a poeira dos meus sapatos um dia virão do deserto do Saara não tem a menor influência sobre mim ou sobre minha decisão de tomar chá de hortelã perto da hora de dormir. Gosto desse horário porque é quando o chá se torna mais importante que a fantasia do que está por vir.

Assisti há pouco um vídeo da cantora Marina em que ela fala da passagem do tempo em sua vida e das coisas malucas que estão ocorrendo no mundo inteiro. Do surgimento de gente reacionária e da esperança de que para cada uma dessas aberrações, surge também alguém, ou vários movimentos LGBT, de mulheres, transgêneros e de negros. E que são extremamente importantes, porque abrem espaço para que as pessoas não só reclamem, mas reivindiquem, se coloquem no mundo. Ela acredita que para cada surgimento de tipos como bolsonaros e malafaias, “compensa” de um outro lado, porque surgem pessoas desses movimentos. Quase como uma resposta, uma reação. Ela não cita, mas eu o faço: pessoas como Laerte, Liniker, Gregório Duvivier e Lola Aronovich me fazem compreender o recado da Marina.


Mas, o que ela fala sobre a passagem do tempo é que é bacana de ouvir e eu replico: “Quando eu fiz 50 foi libertador; quando vi que eu já tinha me construído e já tinha direito de ser tudo o que eu quisesse, sem dar tanta satisfação. Mas, sem arrogância. Aos 60 eu sinto que comecei a envelhecer, mas eu tô gostando. Jamais voltaria atrás no tempo. Eu tinha que ser exemplo pra tudo, eu não tenho que fazer isso. Acho que o importante é ter curiosidade e gostar da vida”. E eu percebi a interseção entre duas mulheres tão diferentes e distantes. A cantora famosa e a avó aboiadora. Eis aí um recado que me representa e que eu divido com você, meu leitor.

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