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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Do alto do penhasco dá para sentir o coração batendo



A adolescência é uma fase estranha e difícil. Nos enlutamos do corpo de criança, ganhamos um turbilhão de dúvidas e sensações físicas que não sabemos muito bem como lidar e a vida se torna uma via de mão dupla, entre a ideia de invencibilidade e uma imensa incapacidade de suportá-la. Somos capazes de tomar um porre de vinho de garrafão numa noite e fazer uma prova no dia seguinte. E, no entanto, os ossos podem se desintegrar se alguém critica nosso jeito de se vestir. Há, inclusive, quem leve esse sentido de vida para o resto da existência. Ficando num limbo entre a fase imberbe e o peso da maturidade.

Os conflitos da vida de um adolescente são o mote para o filme It’s kind of a funny story (2011), dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck. A tradução literal em português seria “Tipo uma história engraçada”. Mas, infelizmente, os gênios do marketing resolveram intitular o filme no Brasil de “Se enlouquecer não se apaixone”. Talvez fazendo um trocadilho inoportuno com a comédia chata “Se beber não case”. Já que em ambas as películas o talentoso - e estranho -  ator Zach Galifianakis, faz parte do elenco.  Nesse, ele interpreta o amigo Bobby, que coleciona idas e vindas à ala psiquiátrica de um hospital, devido a uma estranha obsessão: querer morrer.

O filme trata do suicídio de uma maneira absolutamente leve e longe dos tabus que costumam acorrentar esse tema. O jovem Craig (Keir Gilchrist) tem pensado em se matar de maneira constante. Acha que está apaixonado pela namorada do melhor amigo e parece não suportar as pressões dos 16 anos e das decisões que seria obrigado a tomar nessa idade, como a escolha da profissão após o ensino médio.

O roteiro permite uma fluidez sem muito "mimimi" e clichês. Numa das cenas, o rapaz descreve como os pensamentos o estão sufocando, a ponto de achar que não vai conseguir segurar a onda e vê como única opção se jogar da ponte. O texto é muito respeitoso com os conflitos internos, aos quais todos os seres humanos estão propensos a passar.

A mesma transparência com que ele lida com o problema diante da maravilhosa psiquiatra, interpretada por Viola Davis, o faz ir por conta própria a uma clínica para pedir ajuda.

Lá, ele encontra diversos tipos de pacientes psiquiátricos, inclusive a adolescente Noelle (Emma Roberts) com quem vai descobrir que viver pode até não ser um conto de fadas ou um comercial perfeito da terra do Tio Sam, mas pode valer a pena se for uma aventura a dois.

Os personagens da ala psiquiátrica são caracterizados com os mais diversos problemas de saúde mental. Mas o bacana é que nenhum deles caricatura a doença mental, nem coloca no pódio a “loucura” apoteótica ou gente descabelada e babando.

O que é muito pertinente. Porque como diz um amigo meu, existem muitos doidinhos mansos por aí. Muito mais equilibrados do que os que se acreditam “normais” e estão patinando num mar de narcisismo, a destilar neuroses mal resolvidas em cima dos outros, ou então diluindo suas frustrações e angústias em doses constantes de álcool e outras substâncias, sem falar na dependência de pílulas para dormir, para levantar, para pensar, para ficar feliz, para levantar... a moral.

Li algumas críticas colocando como ponto alto a interpretação do ator adolescente, quando ele canta a canção Under Pressure, do David Bowie. É legal mesmo. Mas, eu não entendo muito de música então vou ficar por aqui nessa cena.

https://www.youtube.com/watch?v=F8qFALUcWnE

Mas, na verdade, para mim, o que me impressionou nessa história – que não é nada engraçada, mas também não é melodramática – é que às vezes podemos nos colocar diante do penhasco, com impulsos de “voar” para “longe”. E, ao invés de nos seduzirmos com infinito da paisagem – deveras  inalcançável e impossível – olharmos para dentro. Nos encararmos com coragem e respeito. Permitindo que a fantasia flerte com a realidade, sem que uma ou outra precise ganhar a batalha.



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