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sábado, 17 de junho de 2017

A MULHER QUE QUEBROU TABUS


Primeira prefeita eleita de Natal, primeira governadora do Estado, casada com um oligarca da política local, quando se separou,  muitos falavam em sua ruína política. Mas não foi. Se casou mais outras duas vezes. Ao contrário da maioria dos políticos, a vida pessoal que fugia das convenções nunca atrapalhou sua vida política. Há quem a veja como mais uma figura política repetidora dos mesmos padrões de poder e corrupção. Julgamentos à parte, dona Wilma de Faria foi uma mulher memorável. Uma pessoa que vistoriava as obras do seu Governo com cuidado e atenção, que tinha uma voz mansa e um, indubitavelmente, uma mente estratégica em se tratando de política. Fiz essa entrevista com ela em janeiro de 2014, e foi publicada na edição de fevereiro daquele ano na Revista BZZ, da jornalista Eliana Lima. Republico-a agora no meu espaço pessoal, para relembrar daquela conversa franca com ela. Saí admirando ainda mais a "guerreira", sepultada ontem em Natal.


Quando ainda estava no ensino médio, ela abriu mão do sonho de dedicar-se aos estudos, tornar-se médica e só se casar depois dos 25 anos. Casou-se aos 17, virgem, com um homem que tinha o dobro de sua idade. Aos 18 anos, nasceu o primeiro filho, vieram mais três, “um atrás do outro”, como relembra. Só sentou nos bancos da Faculdade, para fazer licenciatura no curso de Letras, depois que os filhos nasceram e, mesmo assim, enfrentando uma certa resistência do então marido. Até aí, a ex-governadora do Estado, atual vice-prefeita de Natal, Wilma de Faria, 68, não foge à regra dos casamentos convencionais e do que é exigido como papel feminino para boa parte das mulheres de famílias tradicionais do Estado, oriundas do interior. Ela é mossoroense e foi criada no Seridó. Entretanto, seguir as regras convencionais, dedicar-se somente à vida doméstica e aos filhos ou manter um casamento só pela aparência estava longe de encerrar a trajetória de sua vida. Pode-se considerar que Wilma de Faria é uma mulher que, com voz mansa, porém firme, tomou as rédeas de suas decisões, sejam elas no campo público ou privado.Tornando-se uma das maiores lideranças políticas do sexo feminino no Rio Grande do Norte, cujas escolhas tomadas no âmbito doméstico e pessoal nunca afetaram sua vida pública. Alguém duvida? Das dez eleições que até hoje disputou, perdeu três e ganhou sete. Foi a primeira mulher eleita deputada federal, a primeira a governar a capital potiguar, em seguida elegeu seu sucessor (Aldo Tinôco); e também foi a primeira mulher a governar o Estado, conseguindo, inclusive, ser reeleita; em 2010 perdeu a disputa por uma cadeira no Senado Federal e, quando todos pensavam que ela pudesse estar aniquilada politicamente, se reinventou, e foi eleita a vice-prefeita de Natal, sem perder de vista e sem deixar de ser uma das principais citadas nas rodas e pesquisas como uma possível candidata nas próximas eleições, inclusive para chapa majoritária.

Depois de 27 anos casada com o primeiro marido Lavoisier Maia - um médico e tradicional político do Estado, que foi governador, senador, deputado federal e se despediu da política em 2011, quando acabou seu mandato de deputado estadual - ela decidiu dar um ponto final na união que, segundo ela, já não tinha mais sinais da paixão inicial. “Quando nos casamos, eu já o conhecia por volta de uns dois anos antes, porque ele frequentava a casa de uma amiga em comum. Aí me apaixonei e de repente parei de estudar para casar. Foi uma coisa de adolescente. Houve assim, uma interrupção do sonho (de estudar Medicina) do ponto de vista profissional”, revela, deixando claro, em vários momentos da entrevista que não estava acostumada a falar de sua vida pessoal e, portanto, não escondia um certo constrangimento e cuidado com terceiros.

Em 1976 Wilma de Faria passou no primeiro concurso de professor colaborador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para lecionar Didática no Departamento de Educação. A veia política foi se revelando primeiro nos bastidores. “Eu sempre fui da militância política, participava dos eventos, das discussões, ajudava nos planos, mas nunca pensei que poderia estar à frente. Eu estava no jogo para apoiar as pessoas que estavam ao meu redor”. Em 1985, cinco anos antes de se separar de Lavoisier, quando era secretária do Trabalho e Assistência Social, no governo de José Agripino, seu nome apareceu com alguns pontos na pesquisa com indicativos de nomes para a disputa da Prefeitura de Natal. Cedeu à pressão, já que havia uma vacância, porque o preferido na época de José Agripino, o recém falecido João Faustino não queria disputar aquelas eleições. “Eu aceitei”. Mas impôs uma condição: “Eu não queria somente subir em palanques, queria fazer uma campanha eleitoral diferente. Então eu disse, vou caminhar nas ruas, entrar na casa das pessoas e conversar com o povo para poder fazer um plano de governo que atenda às necessidades do população”, relembra. E nascia ali, segundo ela, uma nova forma de fazer política. “Revolucionamos a ponto de nossos adversários terem de fazer o mesmo que fazíamos”. Não ganhou as eleições. Entretanto, no ano seguinte, sua estratégia do tête-à-tête com o povo deu sinais de sucesso. Foi eleita a primeira deputada federal do Rio Grande do Norte com uma votação histórica, sendo a mais votada em números absolutos em todo o Nordeste e, em números proporcionais, a mais votada de todo o Brasil. Perdendo somente para Lula, candidato ao mesmo cargo em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

Nesse ínterim, a vida com o primeiro marido já não estava mais viável. Quando, em 1990, se separou, achou por bem retirar do seu nome o tradicional “Maia” de Lavoisier e passar a ser chamada pelo nome de solteira, “Faria”. “As pessoas diziam que eu iria me acabar tirando aquele nome. Mas eu achava que como eu tinha começado a minha vida pública com uma ligação de uma família que estava no poder, eu tinha que tirar o Maia, eu queria continuar o caminho político com meu próprio nome”.

Wilma de Faria reconhece que entrar para a vida política sendo mulher, confere algumas vezes, pechas nada agradáveis. Pessoas, que ela diz que sempre eram ligadas a grupos políticos nunca do povo, a taxavam disso ou daquilo, usando expressões chulas ou preconceituosas, no entanto, sempre por trás e nunca a encarando de frente. Enfrentou também discriminação de gênero. “Vivi várias etapas. No início quando só tinham duas, três, dez mulheres prefeitas entre cinco mil prefeitos, nós éramos sempre homenageadas. E isso também é uma forma de discriminação. Depois, passamos a ser questionadas em termos de capacidade. E é aí que a gente tem de manter a firmeza. Não se pode ser líder se não tiver ideias e não souber como defendê-las”.

Não existe fórmula perfeita ou jeito ideal de ser mulher na política, mas Wilma transita entre momentos de precisar ter pulso de ferro e de bater na mesa para defender suas ideias, a recuar e reconhecer, com humildade, quando deve ouvir. “Por exemplo: na minha vida política, se chegar uma pessoa e me pedir algo que eu não tenho condições de oferecer a ela, as pessoas ficam exasperadas, às vezes um ou outro assessor fica sem saber o que fazer. Eu trato diferente, eu aceito o confronto. Acalmo minha voz, faço com que ela acalme também a voz, para acharmos uma saída, sem desespero. Então às vezes eu sou um pouco psicóloga também”, e diz isso sorrindo. Transparente nos sentimentos e emoções, Wilma fica na dúvida se essa visível percepção de estar ou não bem é uma boa característica. “Eu sou muito transparente. Não sei fingir muito. Às vezes a gente tenta ser alegre, tem que demonstrar alegria. Os homens são mais blindados, as mulheres têm muito o que aprender. Mas é muito bom a gente ser quem a gente é. É ruim ficar triste, mas se não houvesse tristeza, não poderia saber como é bom buscar a alegria e a felicidade”, filosofa.

Ela só teve governanta na época em que era governadora do Estado, e porque era obrigatório. Portanto, ela mesma quem se encarrega de administrar a casa, de saber se as contas estão sendo pagas e que tipo de supermercado será feito. Com a ajuda do marido, é claro. “Meu marido ajuda, define a comida, as coisas da cozinha. Ele já se encaixou nessa parte aí sim (de ser um ‘novo homem’). Mas o machismo ainda impera em todos os homens. O mundo ainda é muito machista”, deixa escapar.

Não tem muito espaço para isso na sua vida atual, mas se tiver que ir para a cozinha, além de alguns pratos mais elaborados, ela diz que sabe fazer um bom bife acebolado com arroz. “Minha vida pública me impede de ser uma pessoa normal, de fazer uma compra na rua, que observa bem antes de comprar e pode até desistir da compra, como fazem todos os homens e mulheres. Eu não consigo fazer. Porque as pessoas me veem de uma forma diferente”. Mesmo com algumas dificuldades por ter se tornado uma espécie de “celebridade” política, Wilma diz que não abre mão de sair de casa, caminhar na rua e de ir fazer compras. Mas a liberdade já está comprometida faz tempo. Uma simples entrada numa parte mais popular de um shopping pode virar um tumulto. É tanto que às vezes recorre ao marido, e às filhas, para fazer as compras e os presentes.

Considera-se vaidosa, mas sem exageros. Usa cremes receitados pela dermatologista. Sempre que tem tempo faz ginástica e quando não tem tempo, ao menos faz caminhadas. “Não costumo repousar durante o dia. Trabalho direto, então, não durmo menos de sete horas. No mínimo, quando a agenda está cheia, seis horas por dia”, diz. A assessora acrescenta que ela gosta de estar sempre bem arrumada, mas não dá muita bola para marcas. “Não ligo para marcas A, B ou C. Às vezes você encontra roupas em lojas de departamento e que caem muito bem, então compro”.
Na vida particular, Wilma está no terceiro casamento. Na verdade, ela não chegou a casar com o advogado José Maurício, eles estão há nove anos juntos, numa “união estável”. Pouco mais do que o tempo que passou com o segundo marido, o advogado e procurador aposentado do Estado, Hérbat Spencer, de quem Wilma fala muito pouco, mas deixa claro que depois da separação ela procurou preservar o apreço e respeito. Sobre a experiência de viver a dois e de já estar encarando a terceira tentativa, ao ser indagada se vale à pena acreditar no amor ela responde: “Eu acho que vale para todos, homens ou mulheres. E acho que também na hora que não dá mais, tem que finalizar. Melhor do que ter um desgaste até na amizade. Porque a amizade tem de estar junto do amor. Se você deixa de amar, tem de separar para não deixar acabar a parte mais importante, que é a amizade. E não é só pelos filhos, tem de ser também por aquele tempo que você passou junto com a pessoa”, formula e conclui: “Eu cumpri bem (o papel) com meus maridos. Acho que toda mulher deve ir à luta para buscar a sua independência, seja a financeira, seja a emocional. Ter coragem de dizer não, sobretudo aos machistas”.

Discreta, Wilma de Faria não transparece se importar muito sobre o que pensam de sua vida privada. Principalmente quando se trata da população, que ela acredita que o povo sente algo tão forte e genuíno por ela, que vai além das questões pessoais. Quando provocada sobre qual teria sido a maior quebra de tabu de sua vida, ela relembra de sua trajetória política; das vezes em que enfrentou adversários que ela costuma chamar de “poderosos”. E a senhora não é também uma poderosa? E ela responde: “Me considero uma liderança política. Quando falo dos poderosos, falo do poder econômico, da comunicação, e também a forma de ver o mundo, achar que é possível manipular. Eu não acho que é possível manipular todo mundo, você tem que debater e dialogar”, encerrando a conversa, não sem antes responder a um rápido ping-pong, no qual ela ouvia uma expressão e falava o que lhe vinha à cabeça:


Um prazer: passear na praia, beijar um filho ou um neto;
Um arrependimento: vários... daqui a pouco eu falo;
Uma viagem: tive várias inesquecíveis. Mas no Rio de Janeiro sempre tem recantos agradáveis e que me marcaram.
Um sonho: de ver o Rio Grande do Norte crescer, se desenvolver. Como política, sofro muito de ver na capital ainda tantas áreas pobres, sobretudo nas margens do Potengi.
Um pecado: (pensa muito). O pecado da gula é muito ruim porque prejudica a mente e o corpo. Os sete pecados capitais.
Um vinho – tenho tomado vinhos chilenos
Um arrependimento (voltando ao tema): não vi praticamente meus netos crescerem. Me arrependo de não ter podido cuidar, no sentido de mimar os netos, como avó.


Observação: Nessa publicação, mantive o texto original, sem a edição da Revista BZZ.