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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Um poema para falar sobre o eu




Porque eu me emociono com uma música no rádio,
e eu gosto de abrir velhos livros e sentir o cheiro das letras

Porque eu tenho gatos e espirro com seus pelos espalhados pela casa e, no entanto, meus espirros não teriam graça alguma se não fossem meus gatos

Porque eu tenho desejo e eu sei que meu desejo não é prisão para o desejo de ninguém, o que inclui minha impotência em influenciar o desejo da rosa vermelha que botou três rosas num único galho dia desses no meu jardim. Deixando a roseira amarela, amarela de inveja.

Porque eu guardo pedaços de mulheres em mim. Os dedos de tia Leda, os cílios de Coca, que às vezes mais se parece com uma irmã, o joanete da minha mãe, as orelhas pequenas de vovó. E, no entanto, e ao mesmo tempo, sou tão diferente delas. Eu e minhas sardas. Eu e meus cabelos crespos. Eu e o espelho que revela a imagem do meu pai.

Porque eu, de repente, e muito que quase nunca, decido escrever um poema que tenha excessivamente a palavra "eu". Um eu que carrega o anonimato das sílabas inaudíveis. Aquelas que reverberam coisas inaudíveis que preferem ficar represadas na garganta ou na fonte salgada dos olhos. 

Eu que consigo chorar de vez em quando com um programa de arte na televisão.

Eu que choro.

Eu que ainda.

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